quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Os esquecimentos de um homem ausente

por Gilberto Amendola

Um dia eu vou te esquecer. Acho que vai ser num domingo – e vai ter bolo de chocolate. Vou usar minha roupa preferida e contar piadas sujas para os desconhecidos na rua.
As pessoas irão me perguntar se eu não tenho casa – mas também vou esquecer meu endereço. Claro, não vou andar com documentos. O que importa? Provavelmente, não vou lembrar direito onde os guardei.
Quando perguntarem meu nome, vou fingir que não ouvi. Se insistirem, digo o primeiro que vier à minha mente. Algum deve vir, não é? Ou será melhor escrever, desde já, “João” na palma da minha mão?
Acho que a polícia vai chegar. Vamos conversar um pouco. Um homem de farda vai perguntar sobre a minha família. Vou reconstruir minha árvore genealógica até esbarrar em Adão, mas, e isso é certo, serei incapaz de informá-los sobre algum parente vivo.
Depois de coçar a cabeça e reclamar da vida, o homem de farda vai pedir para que eu entre no carro. Vou me negar. Ele vai insistir – dizendo que é para o meu próprio bem. Que sujeito burro. Sei que depois de uma certa idade nada daquilo que disserem “ser para o meu próprio bem” será bom, alegre ou gostoso. Coisas para o “nosso próprio bem” costumam ser opacas – isso quando não são tristes ou doloridas. Não vou, não vou, não vou...
Mesmo que eu tente fugir, não vou conseguir. Até porque não vou ter pra onde ir. Nunca tive muito senso de direção e, o pouco que adquiri com o tempo, vou ter esquecido (nota mental: usar um relógio de pulso para diferenciar o lado direito do esquerdo). 
Acho que o homem de farda vai me empurrar para dentro do carro. No caminho, vou chamá-lo de filho, elogiar seus modos e perguntar sobre os meus netos. Como é gostoso quando levam a gente para passear, não é? Quando a gente não é um transtorno para a família e tem um filho carinhoso do nosso lado. Vou esquecer o nome dele. Mas posso inventar um apelido brincalhão para forjar nossa intimidade: “Vamos pra nossa casa, Leleco?”.
E o homem de farda – que, de agora em diante, vou chamar de filho, vai me levar para um lugar grande e branco. Vou pensar que aquilo é um clube – e vou amar meu filho ainda mais. 
Irão me fazer perguntas bobocas. Por que precisam tanto do meu nome? Por que querem tanto meu endereço? O importante é aquilo que a gente é, não aquilo que a gente lembra. No mais, perguntem para o meu filho, aquele rapagão bonito de farda. Ele sabe tudo – tudo sobre mim, sobre vocês e o universo.
Depois de insistirem com essas perguntas, pessoas educadas e de branco vão me levar para um quarto – também branco e, por que não dizer, educado. Vão pedir para que eu descanse e durma um pouco. Acho que vou esquecer como se dorme. E, ao lembrar, certamente vou esquecer como se faz para sonhar. 
No dia seguinte, vou esquecer de comer, beber e mesmo ir ao banheiro. Uma mulher vai tentar me convencer a fazer coisas que não me interessam mais. Vou perguntar pelo meu filho, o homem de farda. Ela não sabe dele. Assim como eu, ela também não sabe de nada. Será que ela também é minha filha? Se fosse um pouco mais velha, poderia ser minha mulher.
Acho que vão tirar umas fotos minhas. O fotógrafo, simpático, vai me mostrar o resultado do seu trabalho. “Quem é esse?”, vou perguntar. “Esse é o senhor”, vai me responder. Jamais. Claro que o homem da foto não sou eu.
Nunca tive essa barba, esse cabelo branco e esse rosto cheio de marcas. Vou pedir um espelho.
Um dia eu vou te esquecer. Nesse dia, eu sei, também vou esquecer de mim. Vou me olhar no espelho e achar alguma graça no truque que me faz parecer tão velho.