sábado, 21 de julho de 2012

A visita (parte 18)

A essa altura, eu já não estava entendendo mais nada.
Como assim, Carmen Diaz, sendo que a foto era da Ramona?

E a data... O maldito número 7 estava de volta. O nascimento marcava 13 de julho de 1.975.
A morte, 7 de outubro de 2.003.

Conheci muito bem Ramona. Nem tinha como não conhecê-la, afinal, foi o grande amor da minha vida.
É verdade. Brigávamos demais. Mas qual casal não briga?

Ali sentado, em frente à lápide, comecei a falar baixinho, como se a pessoa que ali estivesse pudesse me ouvir:

- O quê é tudo isso? No quê você se meteu, Ramona? Onde você foi parar? E a Carmen... Realmente... Está aqui?

Levantei.

A senhora, que limpava a igreja, havia dito "ela sempre falava de você". Talvez a velha soubesse de algo.

Colônia del Sacramento era uma cidadezinha muito pacata, daquelas que lembram filmes de faroeste.
O vento zunia naquela tarde. Alguns vira-latas passeavam tranquilamente pelas ruas empoeiradas e sem asfalto.  Vez ou outra, uma charrete cortava a via. E no controle do veículo de tração animal, senhores idosos meneavam com a cabeça, num cumprimento típico das pessoas do interior!

Avistei mais uma vez a igreja do Santíssimo Sacramento.

E lá estava a senhora que havia me abraçado tão forte, fazendo-me pensar que queria que eu passasse dessa para a melhor!

- Senhora, por favor, eu poderia conversar contigo um pouquinho?

Ou ela se fingiu de surda, ou sua idade avançada fez com que realmente não me escutasse.

- Senhora...

Nisso, desviei meu olhar para um homem que parecia espreitar, esquina acima.
No momento, não dei muita atenção. Mas... Foi aí que...

Que diabos! O homem era o mesmo que havia conversado comigo, alertando sobre o quê havia acontecido à Ramona e sobre a Carmen, que dizia ele, estava envolvida em tudo aquilo até o pescoço!

Minhas pernas bambearam. O suor começou a derramar... Meu fôlego parecia diminuir...

- Não... Não... Mas o quê... - gemia eu.

- Vamos sair daqui.

Uma voz rouca, mas forte, cortou os meus pensamentos. E uma mão franzina, mas com uma força fora do comum agarrou o meu braço. Era a velha, transfigurada num ser mais forte do que realmente aparentava.

Não discordei. Acompanhei-a até o interior da igreja. Ofereceu-me um copo de água (pelo menos era o que parecia).

De imediato, pensei em não beber nada que viesse de mais ninguém. Carmen vinha me dopando durante muito tempo, segundo a figura misteriosa que acabara de rever, na esquina, e parecia querer não ser visto.

- Filho...

- Oi?

A velha me chamava de volta à realidade.

- Sei o que você tem passado. Meu nome é Estella. A Carmen me falou sobre você. Achou que você viria a tempo de...

Ela parou e pareceu firmar a vista no horizonte.

- A tempo de quê, minha senhora?

- A tempo de evitar que ela fosse pra onde você a encontrou.

Então era verdade... Carmen estava morta. Mas o que fazia a foto de Ramona numa lápide que tinha um outro nome?

- Senhora, você tem de me explicar o que está havendo... Coisas muito estranhas tem acontecido comigo nos últimos tempos... Essa Carmen, era amiga de minha ex-namorada...

Nisso, a velha tocou os próprios lábios com o dedo indicador, e disse, quase que num sussurro:

- Aqui não posso falar. É perigoso. Tome. Aqui está o meu endereço. Vá até lá, mas depois da meia-noite.
Não chegue antes. Quando chegar, bata quatro vezes na porta. Não abrirei. Insista com mais cinco batidas, e a porta lhe será aberta. Lá explicarei à você aquilo que eu puder explicar.

Minha cabeça doía. Seria resultado do que havia bebido? Mas era apenas água. Resolvi acreditar que poderia ser o cansaço da viagem.

Perguntei à Estella se havia um lugar naquela cidadezinha no qual eu pudesse me alojar, durante um tempo. Pelo menos até a noite daquele dia. 
Disse que havia a "Pensão de San Jose", que ficava mais ao centro.

- Tome muito cuidado. Perceba os detalhes. Não confie em ninguém...

Ok. Se a velha queria me assustar, conseguiu. 

Agradeci pelo que ela havia me dito, e fui em direção à porta.

Saí, e olhei na direção onde havia visto o vulto que pensei ter reconhecido. Ninguém estava lá.

O sol já ameaçava se pôr. Eram cinco e meia da tarde. Fui caminhando naquela cidade que lembrava o faroeste.

Não havia como errar a pensão da qual Estella me falara. 
No centro do bairro, havia um casarão, com a placa anunciando: "Pensão de San Jose".

E pra lá caminhei.