domingo, 22 de julho de 2012

A visita (parte 19)

Pobre San Jose!

Depois de dedicar uma vida inteira ao ofício da carpintaria, de ter aceitado - como um santo homem que era - o papo que Maria lhe contara acerca da concepção do Menino Jesus, era daquela forma que os uruguaios lhe homenageavam! Dando o seu nome a uma espelunca caindo aos pedaços e que estava mais para manjedoura do que para pensão. Mas era para lá que eu me dirigia e era lá que eu ficaria até darem as doze badaladas...aguardando - quem sabe? - a visita de um anjo Gabriel que me guiasse, que desse uma luz para aquela merda toda que tinha se tornado minha vida depois daquela maldita "visita".

Tan! Tan! Tan! - bati sem muita força na porta da espelunca com medo de quebrá-la. Veio me atender uma velha (Outra. Com quantas velhas se faz o meu destino?) com cara de avó afetuosa. 

- ¿Qué quieres, mi hijo?

- Apenas um quarto. Só por esta noite - na altura do campeonato, não ia forçar o portunhol.

A velha me guiou por um pequeno corredor até a sua mesa, onde estavam a papelada da pensão, um tricô inacabado e um porta-retratos. Uma linda menina sorrindo numa foto que o tempo já tinha amarelado.

- Quem é a menina? - Perguntei para puxar assunto, enquanto entregava meus documentos. 

- Es mi hija Joana. Pero es conocida por Risa, porque tiene una linda sonrisa. 

A velha continuou a falar, mas eu já não ouvia mais nada. Havia me esquecido completamente de Risa, aquela megera que eu e Ramona conhecemos da última vez em que estivemos em Colônia del Sacramento.  Da vez em que trouxemos Carmen conosco. Saíamos com ela e o seu namorado japonês por uma ou duas vezes, mas passamos a evitá-la. Ramona não ia com a cara de Risa, achava que ela só fazia comentários inconvenientes, se metia onde não era chamada e (o pior) "me comia com os olhos". O fato é que desde que deixamos Sacramento nunca mais mantivemos contato com Risa. Carmem, no entanto, tornara-se sua melhor amiga.

- Realmente muito bonita sua filha e tudo o que a senhora me disse sobre ela - disse eu, disfarçando o meu nervoso e o fato de não ter ouvido quase nada do que ela falara - e onde ela está agora? Ela também trabalha aqui?

A velha se transfigurou e lágrimas brotaram de seus olhos cansados e afetuosos. Foi com muito esforço que ainda conseguiu dizer:

- Mi hija no está aquí. Mi pobre Risa está en una prisión muy lejos de nuestra ciudad porque quitó la vida de una mujer...

Não consegui dizer nada. Não ia fazer aquela pobre senhora sofrer com mais perguntas. Apenas lhe dei um abraço e prometi pra mim mesmo que iria descobrir a razão de tudo aquilo. 

Mas ainda faltavam seis longas horas para meia-noite.