domingo, 15 de julho de 2012

A visita (parte 13)

Neste momento eu acordei. O barulho do celular, na verdade, era o meu despertador, berrando que era hora de me levantar para a entrevista de emprego agendada para aquela manhã. Mesmo assim, chequei o celular para ver se havia alguma ligação da Ramona. Não tinha nenhuma ligação. Fiquei uns 5 minutos deitado e paralisado, tentando deduzir o que era real e o que não era. Então, subitamente me lembrei da Carmem, me levantei e corri para o sofá, mas não a encontrei lá. A porta continuava fechada. A xícara de café estava sobre a mesa. A chave continuava no meu bolso. Pensei em bater no apartamento 37, mas já estava atrasado demais. 

Enquanto caminhava rumo à minha entrevista, tive a sensação de que alguém me seguia.

No começo, apressei o passo por uns segundos, mas logo desacelerei. Cansado de tudo, parei, virei de costas para onde estava caminhando e comecei a gritar para o nada:

- O que você quer? Apareça logo, caralho. Não tenho medo de você!

Fiquei ali parado uns 30 segundos, tentando flagrar alguém escondido nos postes, arbustos e árvores, mas não vi nada. Quando voltei a me virar para a direção que seguia antes, levei o maior susto. Tinha um cara parado, vestido de preto com os braços cruzados e a maior cara de deboche. Sinistro pra caramba.

- Ué, ficou branco por quê? Você não acabou de dizer que não tinha medo?

O cara era mesmo um filho da puta.

- Foi o susto, porra. O quê você quer de mim? - Perguntei. 

- Eu não tenho muito tempo. Então ouça bem o que vou dizer e guarde essa atitude para outra hora.

O Cara estranho me puxou para um canto mais obscuro, atrás de um muro semi destruído e continuou a falar muito rápido e desconexamente, quase como um narrador de corrida de cavalos:

- A Ramona está em perigo e precisa da sua ajuda. Ela se envolveu com a máfia Russa há algum tempo. Ela roubou deles uma peça que eu não posso te dizer ainda o que é, para sua própria segurança. Eles estão loucos atrás dessa peça. Só que se os caras colocarem a mão nela, o mundo pode acabar, tá ligado? A Ramona tentou se comunicar através de sonhos com você. Uma parada que ela chama de viagem astal. Mas ela desistiu porque você é um cabeça dura e para essas coisas darem certo, é preciso estar apto. Por isso ela me incumbiu de te alertar. Você precisa tirar a peça de lá.  

Nesse instante, ele parou para tomar o primeiro ar. O cara devia mesmo tentar a carreira de narrador. Tinha talento - e fôlego - pra coisa. Quando abri a boca para perguntar onde estava tal peça, ele recomeçou a falar:

- Cuidado com a Carmem. Ela está com eles. Ela está te dopando faz um tempo pra tentar arrancar qualquer informação sua. Você deve estar tendo alucinações frequentemente, não está? Toda noite a Carmem entra na sua casa e te aplica uma droga estranha e fica te monitorando com uns aparelhos sinistros, que ficam guardadados durante o dia no apartamento 37. 

- Então ela era real? Eu conversei com ela. - Eu disse, meio gaguejando.

- Você chegou a vê-la? - Disse ele, com os olhos arregalados

- Sim. - Respondi.

- Cara, se eles descobrirem que você nem sonha onde está essa peça e que você viu a Carmem, você está morto. - Ele falou, muito despreocupadamente pro meu gosto.

- Tá, eu tô fodido. Já Entendi. Mas o que é que eu tenho que fazer? - Olhei pro meu relógio. Já estava uma hora atrasado para a entrevista.  

Ele olhou para os dois lados e disse que tinha que ir. Antes de sair, teceu um comentário que achei totalmente desnecessário:

- Se você não fosse um completo tapado, já teria entendido os sinais que venho deixado no apartamento. Já que não é o caso, talvez se você voltar para a casa e ouvir o melhor disco do seu cantor favorito, sua mente abra um pouquinho.

Virou-me as costas e foi embora.

E eu, que já sabia que era um cara desempregado por mais algum tempo, corri para a casa e fui reto na minha estante de vinis. Retirei o Ram (meu disco preferido do Paul), da prateleira e quando fui pegar o disco, um papel caiu no chão. Era um mapa.