terça-feira, 17 de julho de 2012

A visita (parte 15)

As cartas chovendo em casa me lembrariam aquele quadro do Magritte, da chuva de homenzinhos. Só mais uma peça surrealista na imensa desordem que havia se transformado minha vida. Acordei com a cabeça doendo e demorei a abrir os olhos. Parecia que tinha consumido todas as drogas do apartamento do João Guilherme Estrella. Com os olhos semicerrados, deitado no sofá, deparei-me com um prato de pudim em cima da mesa de centro, com um pedaço já comido.
Carmem apareceu com uma camisola muito fina, debaixo da qual se viam os mamilos arrepiados. Desviei minha atenção daquilo e perguntei bruscamente:
- Eu comi esse pudim?
Ela pareceu se assustar com o tom agressivo.
- Calma, mocinho... Você está ainda mais estranho, né? Ontem só falava de mapa, de quadro, de cartas chovendo.
- Fui eu que comi o pudim, porra?
- Foi.
Lembrei na hora do cara estranho. Tinha sido enganado mais uma vez por essa ruiva desgraçada. Ela devia ter me dopado e me monitorado, ou algo parecido, sei lá qual era a pira. Enquanto ela voltava para a cozinha, peguei o mapa junto ao disco e examinei-o. No verso, em letras bastante miúdas, estava escrito: Noite trágica. Puxei na memória que diabos isso tinha a ver com Colônia del Sacramento e me lembrei das palavras do guia: “depois de fundada pelos portugueses, Colônia foi palco de uma luta pela terra que envolveu também índios e espanhóis, conhecida como Noite Trágica". Procurei na internet. O episódio aconteceu na noite do dia 7 de agosto.
Mais um sete.
Quando Carmem voltou da cozinha, com uma bandeja, encontrou-me resoluto.
- Vou para o Uruguai.
- Eu também - ela respondeu de súbito.
- E seu caso, do 37?
- Ele me espera.
Eu não sei por que decidi ir. Andava sem um puto, mas senti que a pequena cidadezinha no Uruguai poderia solucionar muitas das minhas dúvidas. Mexeria na poupança da guitarra.
Saindo de casa com as malas, evitava falar com Carmem. Por um lado não queria que ela me acompanhasse, mas ao mesmo tempo não conseguia repeli-la. Poderia estar me fodendo permitindo que ela viajasse comigo, mas também não queria me afastar dela. Dobramos a esquina e algo atraiu minha atenção. Uma cigana, gorda, cheia de panos, estava próxima do muro para onde o cara estranho me puxou na manhã anterior.
- Carmem, vem!
Corri atrás da cigana. Quando chegamos, eu e Carmem, esbaforidos junto da velha, quis perguntar-lhe o significado do 7 de paus, mas tive uma ideia melhor.
- Leia as cartas para a gente.
- A gente? – respondeu ela assustada.
- Sim, para mim e minha amiga – falei, pegando Carmem pelo braço.
- Que amiga, meu filho? Você está sozinho.