sábado, 1 de setembro de 2012

passado de presente

para ler ouvindo: vanusa - manhãs de setembro

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primeiro de setembro de 1968 e eu ainda morava em paris. maio tinha sido um mês muito esquisito e os acontecimentos de antes e depois ainda me deixavam confuso. nem as conversas que tive com sartre naquele café me fizeram entender. do brasil eu recebia notícias pela lygia, pelo oiticica e caetano, que me escrevia pouco por conta dos festivais. 

em uma das cartas chegou a me dizer que estava achando tudo um saco e queria mudar. o descontentamento do caetano, assim como do torquato, que estava cansado do brasil e da vida. o que me contentava era chegar no meu quarto (na época os apartamentos em paris não eram tão caros, então eu tinha uma casa grande onde recebia todos esses amigos) e ouvir beatles, henrdrix e, claro, caetano, ainda pouco reconhecido, que me faria uma visita somente no ano seguinte, em 69.

mas o que faz esta manhã de setembro ser tão inesquecível não são os fatos históricos até hoje tão comentados. nem mesmo a efeverscência artística e cultural daquele ano ou as guerras (políticas, civis, de ideais). o que me deixa mal até hoje é sair no quintal de casa e observar as flores. é olhar pro muro que me separa da existência plena de vida e lembrar que no passado eu fiz dessa parede um casulo. do lado de fora ou de dentro eu me sentia só, mesmo com amigos e principalmente com aquele amor, que eu não soube cultivar. 

eu era tão frio e cético que achava esse papo de amor uma imbecilidade sem tamanho. eu era indiferente a qualquer sentimento que não fosse o ódio pelos que estavam no poder. me dediquei à leituras pseudo-socialistas e militei. 

exilei-me de mim mesmo há mais de 40 anos e nunca mais voltei.

eu li o amor em paris e esqueci de vivê-lo. 

me deixei levar por pensamentos libertários e me aprisionei em minha cabeça de falsa vanguarda.

transformei tardes de sol em tardes de tristeza porque me protegi do seu calor.

na primavera não vi as flores, mas as pragas que se apropriavam delas.

por isso nesta manhã de setembro quero sair, 
      voltar, buscar o que houve de bom e  
              que esqueci no passado.

é isso, quero o passado de presente.