segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Infância bivitelina


Hoje eu sou o Felipe e ela é a Mariana, mas naquele tempo éramos simplesmente os "geminhos da Dona Sônia"...

Fazíamos tudo juntos: dormíamos na mesma beliche (ela em cima, já que eu tinha fama de incontinente urinário), estudávamos na mesma escola e comíamos na mesma mesa. Mas toda essa aparente harmonia era quebrada de tempos em tempos quando os conflitos de interesse entravam em jogo. Mas, como em toda relação que se quer sustentável, alguém sempre tinha que ceder. E invariavelmente era eu quem cedia.

- Brinca de Cara a Cara comigo? - dizia eu (reparem que era simplesmente um inocente jogo de tabuleiro unissex).
- Hummm... depois... só se você for brincar de pai da Camila primeiro... (Camila era uma de suas bonecas, supostamente minha filha).
- Ah, tá bom... mas não vai esquecer, tá?
- Tá!

E lá vai o Felipe ser pai da Camila, trocar a fralda da Ana Paula e levar a Mônica pra escola (de Velotrol, é claro) sempre na esperança de ter ao final de tudo aquilo uma tão sonhada partidinha de Cara a Cara. Quer saber? Até "jogo da velha" servia... dominó, Mico, Banco Imobiliário, Cai não Cai (como eu adorava um jogo de tabuleiro!). Bom, o fato é que "nossas filhas" iam dormir e a brincadeira acabava...

- Vou pegar o Cara a Cara, tá? Você quer ficar com o azul ou o vermelho?
- Ah, Fê... vamos deixar pra amanhã... eu já tô morrendo de sono (aqui sempre vinha um bocejo digno de Óscar)...
- Ahh... mas só uma partidinha, vai?
- "Num quero"... amanhã a gente joga...
- Ah, tá bom... mas nada de me enrolar, tá?
- Tá.

E o amanhã chegava e quase sempre ela me enrolava de novo. A minha redenção só acontecia quando aparecia um bondoso vizinho, a abençoada namorada do meu irmão mais velho ou um providencial primo distante. Todos eles, almas bondosas, que jogavam Cara a Cara comigo!

Com o tempo eu fui aprendendo a ceder menos e a brigar pelo meu direito de jogar Cara a Cara antes e ser pai depois. No final, quase sempre a gente se entendia...

O fato é que, apesar de nossos conflitos de interesse, minha infância bivitelina foi muito feliz. No fim das contas eu achava até divertido levar a Mônica na garupa do meu Velotrol laranja (o dela era era amarelo e azul) e estou certo que ela também não achava tão ruim assim jogar comigo (ainda que eu sempre ganhasse). 

O tempo passou e hoje somos adultos (há quem duvide disso) e nos entendemos bem melhor. Observamos nossos sobrinhos brincando e brigando por coisas muito parecidas pelas quais brigávamos. Já não dormimos na mesma beliche, tampouco estudamos na mesma escola e raramente comemos na mesma mesa, mas uma coisa muito forte ainda nos une: por mais que eu seja o Felipe e ela  a Mariana,  nunca deixaremos de ser também "os geminhos da Dona Sônia"...




PS.: E às vezes até rola uma partidinha de Cara a Cara...