quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Madrugadas de Spielberg

Desafiar a madrugada e desacatar o sono eram as grandes provações da minha infância. A diferença de idade entre mim e meu irmão é de cinco anos, já de diferenças ideológicas somavam-se aí mais de um século, com direito a ataques em público, chantagens, denúncias anônimas, ofensas, retaliações, tapas e beliscões.
De modo que não fomos grandes companheiros em todas as horas de pequenez. Mas foi no grande desafio de que tratei antes que eu e meu irmão nos tornamos cúmplices. Não lembro como fugíamos do rigor paterno, podiam ser férias, talvez, mas me recordo da sensação de estar acesa, tomada de um sem fim desejo de liberdade e até perigo. A madrugada é a pequena morte, é o não estar, é o breu, o fugidio. Tarefa hercúlea estar acordada depois da meia noite, enquanto até os móveis dormem, lutando contra o peso das pálpebras e o medo do ranger (sempre alguma coisa range na madrugada).
Vem desse tempo o desejo de ficar acordada até 5 da manhã, quando então todas as estrelas do céu se juntavam para formar um cavaleiro montado numa cobra que circundava o infinito. A história veio de um primo, em uma conversa de sussurros em que ele, eu e outros primos dividíamos as experiências de fugir da obrigação de nos deitar para degustar os prazeres noturnos. Por muito tempo tentei provocar a insônia até o último minuto para ver o cavaleiro, mesmo morrendo de medo da cobra. Dormia sempre.
Uma coisa, porém, me deixava acordada. Uma série de pequenas histórias passadas na televisão de madrugada, histórias fantásticas. Virei notívaga para acompanhar as historietas, algumas de terror, algumas apenas fantasiosas. A que mais me marcou foi a de um casal que se apaixona através da compra de bonecos de porcelana. Um enredo aparentemente ingênuo, mas que encantou uma criança. Tempos mais tarde, já adolescente, falei por alto dessas lembranças e espantei-me que meu irmão também se lembrava. Era do Steven Spielberg, ele me disse. Nada mais óbvio. O Spielberg é todo madrugada e deve ter bem inventado essa história do cavaleiro montado na cobra.
Procurei a série por um tempo, com todas as possíveis combinações de palavras-chave, mas desisti. Rodolfo me enviou esses dias por mensagem o link de uma das histórias que ele lembrava, com a empolgação de quem encontra um tesouro perdido. Pelo título do vídeo localizei o nome da série e fiz download para o computador. Rever a história dos bonecos foi como reencontrar a menina que queria profanar a madrugada. Inocentes histórias, inocentes efeitos, capítulo vivo da minha memória. Capaz de me fazer provocar um duelo com Morfeu.

Mal sabe Spielberg como me marcou.