terça-feira, 16 de outubro de 2012

Nada mais que a verdade

Como um tirador de jogo de bicho que ficava num canto de um boteco poderia imaginar que seria o meu grande incentivador a leitura?

Praticamente passei a minha infância em um boteco, as primeiras palavras que escrevi foram nos papéis que embalavam os cigarros.Os meus pais eram donos do Nova Coimbra, que o meu pai comprara com o dinheiro adquirido com o plano de devolução voluntária da Volkswagen. Entre um freguês e outro, dores de corno, choro de bêbado, eis que meus pais sublocavam o canto esquerdo do bar para o jogo do bicho. 

O Japonês, era o responsável por tirar o jogo, pacientemente nipônico, chamava atenção pelo jeito de fumar, sem tragar, e pela marmita sempre muito cheirosa. Esse cara tinha classe no momento de ser preso. Elegantemente silencioso, aliás, não me lembro dele ter falado em algum momento. Ele sempre trazia consigo os jornais Diário Popular e Notícias Populares. Como toda criança curiosa, eu me afeiçoei ao NP. Para quem não sabia ler ainda as fotos sem concessões tinha o efeito chamariz do proibido, ainda mais que ele ficava escondidinho, no recheio do jornal da família Quércia. 

Conforme o meu processo de aprendizagem avançava eu entendia que a graça estava nos textos. Curtos, cheios de duplo sentidos, carregado com a linguagem falada nas ruas, como a impagável coluna do Voltaire, com as primeiras análises musicais me ajudaram a formar o meu atual gosto musical, com suas excelentes séries como Crimes do Século, a biografia nada autorizada do Rei Roberto Carlos, a coluna sobre Sexo. Os dias que o Japonês faltava ao trabalho, geralmente devido a problemas policiais, eu sentia falta da leitura do jornal.

As fotos da gata do NP, dos bailes de carnaval que na minha adolescência foram muito importante para o meu auto conhecimento, ficarão para outro post...