quarta-feira, 20 de março de 2013

Cale-se, que você me deixa louco.

Chávez se foi. Não o do oito, o da Venezuela. O Chaves do oito é aquele que tem um amigo ex-rico e mimado, que quando irritado quer resolver tudo aos berros, ordenando que o pobre cale a boca.

O que faleceu é um pouco mais complexo. Entre logros e malogros o venezuelano conquistou a veneração de uns e o ódio de outros, e é isso que me chamou a atenção. Tentando não entrar no mérito político, comecei a pensar um pouco no sentimento que o presidente despertou em terras brazucas.

A Venezuela, não estivesse sobre um grande poço de petróleo, teria praticamente o mesmo peso político de sua vizinha Guiana. Mesmo assim depois da morte de seu governante apareceram algumas comemorações por aqui, expressões de alívio e felicidade. Euforia semelhante aconteceu diante do famoso ¿Por qué no te callas?, proferido pelo rei Juan Carlos, da Espanha, ao venezuelano durante a XVII Conferência Ibero-Americana, em 2007.

A frase do governante rico, e mimado por toneladas de metais preciosos saqueados das colônias americanas por séculos, virou hit. A reação de muitos foi a de alívio, como se a tal frase estivesse entalada na garganta de cada um. Por quê?

Ainda que Chávez fosse o demônio na terra – o que não era – ele pregava a soberania popular e o investimento nos que realmente precisam. Mesmo que nunca tivesse movido um dedo para concretizar seu discurso – o que não é verdade –, vai que a ideia começa a agradar a imensa massa de pobres e miseráveis do continente.

Poderíamos pensar que quem vibrou com Juan Carlos optou na verdade por criticar a postura antidemocrática de Chávez. Apoiando o Rei. Representante da monarquia, que herdou o poder por ter nascido na família certa e passará o título para seus descendentes, como vem sendo feito desde a Idade Média. Nenhum estado europeu é regido pela monarquia clássica, esta sim bem distante da democracia, porém mantêm o representante supremo da aristocracia europeia, que desde o descobrimento da América vem ditando regras para os habitantes locais.

Tenho várias críticas ao Chávez (da Venezuela). Ele se encaixa no grupo de governantes imperfeitos, que abrange todos os outros na história da humanidade. Mas tentando dissociar a pessoa do fato, é notável que há cinco séculos os europeus, sobretudo na península ibérica, se empenham com veemência na desconstrução de líderes populares sul-americanos.

Independente de Chávez, Lula, Obama ou quem quer que seja, política é o debate em sua essência, a alternativa é o confronto direto. Mandar ou pedir para que alguém se cale em uma conferência é uma atitude de menino mimado, que quando irritado quer resolver tudo aos berros, ordenando que o pobre cale a boca.

Muitos vibraram. Brasileiros vibraram. Talvez assim sintam-se mais próximos da elite europeia que dá ordens, ao invés de se aproximarem da gentalha que Chávez, pelo menos em tese, queria representar. Essa postura também é antiga. Não precisamos cruzar as fronteiras com países vizinhos. Em terras brazucas se uma elite domina o poder, a solução não é a união contra os opressores, mas a manutenção do sonho de que se por um lado não sou rico, por outro também não faço parte da escumalha que deve se calar.

E nos calamos. Seja através do rei espanhol, que insiste em dar ordem de metrópole para colônia; seja através da Telefônica espanhola, que cobra caro por ligações que caem, nos deixando calados; seja através do Santander espanhol, cobrando taxas estratosféricas para compensar o prejuízo da matriz...

Não importa. O demônio era Hugo Chávez. Já se foi e, dizem por aí, agora as coisas vão melhorar.


Ps. Para uma análise bem mais profissional, Vladimir Safatle.