terça-feira, 14 de maio de 2013

O Mito de Estreia


No começo , não existia nada e Deus fez a luz e a escuridão. Deus fez as terras e os mares. Deus fez o homem, à sua imagem e semelhança. De uma costela do homem, Deus fez a mulher. E por tudo isso, pelas aulas de catequismo, que me povoaram a cabeça de ovelhinhas e musiquinhas, se fez o dia em que eu perguntei para a professora de ciência, se os homens tinham mesmo uma costela a menos que as mulheres. E eis o dia em que eu fui bem zoada na escola e me dei conta, pela primeira vez, do quanto a religião poderia ser perigosa.

Mas eis hoje, eis o grande dia de hoje: minha estreia neste blog! Oh! Quantas gerações de bactérias sofreram mutações. Oh! Como o caldo daquela sopa de proteínas e aminoácidos teve que engrossar! Quantos dinossauros e mamutes ficaram para trás! Quão grande a evolução da espécie humana! Quantos asteroides erraram o seu alvo; essa minúscula Terra perdida na galáxia, para que o hoje existisse!!! É como se todos os dias fossem milagres, mesmo que, às vezes, sejam uma bosta e apesar de o universo seguir indiferente ao que fazemos nesse planetinha azul.

Eu juro que a primeira coisa que eu pensei é que não queria que esse fosse um texto de metalinguagem. Nem que fosse um texto falando sobre um texto, nem uma primeira postagem falando sobre si. Mas o que eu posso fazer? Só existe um começo, uma porta de entrada por onde se entrou, um mito fundador (dominante) e uma primeira vez.

Além disso, escrever é para mim uma maneira de organizar o caos na minha cabeça, ou o caos do que vejo, ou o caos do que escuto, ou o caos do que eu sinto. É quase inevitável essa ordem. Vou colocando uma palavra depois da outra, escolhendo adjetivos como quem escolhe cores, lendo e relendo como quem estivesse construindo uma ponte e se certificando de que ela suportará o peso de quem atravessá-la. Lendo e relendo como quem ensaia atores para uma peça.

Do outro lado carrego sempre um sentimento de....justificativa. Talvez eu queira ser entendida ou ao menos não mal compreendida. E não é que eu busque agradar, mas também não tenho a menor intenção de agredir ou maltratar estranhos. É, acho que tenho uma certa prisão na escrita, pelo menos quando ela é assim: autobiográfica (e quando ela não é? Tenho minhas dúvidas...).

Nesse momento eu escolho me mostrar sem máscaras, acreditando que isso seja e esteja sendo possível, para apenas poder olhar nos olhos de vocês e dizer: oi.

Oi. Meu nome é Carol, na verdade Maria Carolina Moraes, mas como prefiro ser chamada de Carol, me sujeito a ser sempre a “outra” Carol. Afinal, somos tantas: Ana Carolina, Caroline, Carolina, Karolini, Antônia Carolina....todas Carol.Como Carol estou acostumada a ser chamada pelas ruas, pelo supermercado, na escola e no hospital....geralmente chamam por “Outras” Carol. 

Levo a vida assim, como um barquinho de papel no mar, no rio, numa bacia plástica cheia de água. Ora estou aqui, ora acolá. Acabo me envolvendo em alguns redemoinhos, mas tudo tão estável como a crista de uma onda e tudo tão sólido como uma sombra no asfalto. Aqui vou, me aventurando por esses caminhos navegáveis, descobrindo ilhas perdidas entre uma letra e outra, no meio das linhas e dentro de mim.