quinta-feira, 20 de junho de 2013

Misturar caviar com rapadura?

Tomamos as ruas. Finalmente uma manifestação contra o aumento das tarifas ganhou a magnitude merecida e o aumento foi revogado. Devemos comemorar, até pela falta de tradição em reivindicações populares atendidas, porém há ressalvas e incertezas em relação ao futuro desta mobilização, que ultrapassou seu propósito inicial.

1 – Até que ponto é uma vitória conseguir que a tarifa continue cara para um transporte coletivo ainda superlotado, precário e que, considerando a inflação acumulada desde 1994, segue bem acima da correção monetária? As propostas de redução giram em torno de exoneração de impostos ou criação de novas taxas sobre o combustível, porém ninguém aborda o lucro abusivo das empresas de transporte, que de público não tem nada.

2 – O que vem além da tarifa? Em uma sociedade tão heterogênea quanto a brasileira, uma manifestação que reúne milhões de pessoas congrega desde aqueles que haviam sido forçados a pular refeições para arcar com o aumento da passagem, até o apoio (ainda que virtual) de mega empresários que lutam contra a redução dos juros, passando pela classe média que jura acreditar que o problema é o Bolsa Família pago àqueles que, supostamente, não querem trabalhar. A indignação pode ser coletiva, mas a reivindicação é bem mais individual do que parece.

3 – A grande mídia pode ter mudado o discurso, mas os atos vistos como vandalismo continuam tendo proporcionalmente um espaço muito maior. O ódio da população é a expressão do inconformismo, que escorre pelo copo que transbordou com a gota d’água que foi o aumento das passagens. Cansamos de andar no metrô feito sardinha em lata, esperar uma hora no ponto de ônibus para passar horas dentro de um coletivo lotado, também preso no engarrafamento, pagando caro por isso. Não são vinte centavos, são vinte centavos por cada passagem, milhões por dia, que não se refletem em melhoria na qualidade do serviço. Isso para não falar nas outras centenas de absurdos que o brasileiro vivencia diariamente há cinco séculos.

4 – Mas o policial deve coibir excessos e por vezes pode perder o controle também, certo? Sim, mas diferente dos manifestantes, o policial passa por um rigoroso processo seletivo – que visa selecionar os melhores, segundo os critérios da corporação – e, principalmente, um treinamento ostensivo para agir em situações de combate. O que dizer sobre erros institucionais, como usar bombas de gás vencidas em 2010, que traziam o alerta de que o uso após o vencimento pode ser perigoso? Sobre o policial quebrando o vidro da própria viatura? E quanto à ordem dada ao pelotão da tropa de choque, de atacar quando os manifestantes tomavam as ruas pacificamente?

5 – A polícia não agiu com força excepcionalmente desproporcional na quinta-feira que revoltou a população e conquistou o apoio das massas. Esta forma de intervenção policial é cotidiana. A diferença é que fosse a repórter baleada no olho um alvo na periferia, a munição teria sido verdadeira e a repercussão restrita. Todo o policial sabe que o disparo de balas de borracha deve ser feito a uma distância mínima, não podendo ser disparadas contra áreas potencialmente letais. O que vemos são manifestantes feridos nos olhos, pescoço, barriga, etc.

6 – Ver as ruas tomadas pela população é bonito mesmo. Vandalismo não deve ser tolerado nunca – e com isso me refiro somente à maneira hostil com que o estado trata a população –, mas deveríamos ter ressalvas quanto à proibição de partidos. Não sou filiado a nenhum, todavia há menos de duas décadas a sociedade travou lutas duras para que os partidos existissem; alguns deles estiveram presentes nas primeiras manifestações, cuja única diferença era a ausência de apoio da população, mas a truculência da PM já era forte; e coibindo a participação de todos, fornecemos álibi àqueles que não participam por não concordarem com a população nas ruas.

Enfim, as considerações são inúmeras. Resta agora aguardar os próximos passos, que são os mais difíceis. Como definir uma pauta unificada aos manifestantes? Na passeata que tomou os Jardins (bairro nobre da capital) moradores agitavam toalhas brancas em apoio à manifestação, mas as reivindicações dos moradores daqueles prédios podem ser diametralmente opostas às de muitos manifestantes nas ruas, colocá-las no mesmo bojo pode ser uma tentativa de misturar caviar com rapadura, pode até dar certo, mas é no mínimo inusitado.