sábado, 22 de junho de 2013

Vinte Centavos

Em virtude dos acontecimentos recentes, deixaremos de apresentar o post originalmente programado para o dia de hoje. Em 22 de julho, se tudo der certo, voltaremos com nossa programação normal.

As considerações a seguir não devem ser lidas como definitivas. Não é fruto de uma análise sociológica aprofundada e nem deve ser encarada como tal. São reflexões relativamente despretensiosas - na medida em que um texto possa ser despretensioso -, feitas no calor do momento, com a honesta esperança de que sejam reverberadas - contestadas, criticadas, achincalhadas, corroboradas, ressalvadas - nos comentários desta postagem. 

O Alexandre já disse  tudo isso e  de maneira bem  mais simpática há dois dias atrás e quem avisa , amigo é!

Eita post grande da peste!



"O gigante acordou" - bradam muitos no meio da multidão. Na verdade, não diria que estivesse dormindo. Eu diria que parte dele jamais dormiu e que outra estava - e ainda está - hipnotizada, reproduzindo como papagaios aquilo que bradam as revistas semanais e as telenovelas noticiosas, também conhecidas como telejornais. Se alguma coisa mudou nisso tudo foi justamente a Verdade da vez, o discurso que esses veículos passaram a produzir e que seus sempre tão passivos leitores passaram a reproduzir. De uma hora para outra, os "vândalos" voltaram a ser "jovens" e as manifestações passaram a ser verdadeiros movimentos democráticos (desde que garantida uma certa ordem), comparadas com o Movimentos dos caras pintadas de 92, como algo que poderia interessar tanto aos usuários dos serviços públicos quanto a classe média, aquela classe conhecida por seu sofrimento. 

A multidão então tomou às ruas e o que se viu não foi um apanhado de gente desnorteada diante de uma onda milagrosa de "ausência de causas" - conforme diagnosticou Arnaldo Jabor, do alto de sua ignorância política - mas justamente o contrário, o que se via era um grupo nada homogêneo de pessoas, que se distinguiam justamente pela multiplicidade de causas que estavam jogo. 

E por conta disso, dessa multiplicidade de causas, logo ficou claro que o que estava em jogo era muito mais do que vinte centavos. O que mudava, e isso nem sempre fica claro, é a resposta para a seguinte pergunta: "Mas pelo que mais é, então?".  Quem foi às manifestações ou quem a acompanhou pelas ágoras modernas - também conhecidas como redes sociais - pôde perceber a multiplicidade de respostas.

Alguns completavam a frase da maneira mais literal e diziam que sim, era por mais que vinte centavos que lutavam, lutavam pela gratuidade do transporte que, afinal de contas, é um direito e que, como tal, não deve ser encarado como um bem de mercado qualquer, que segue às leis da oferta e da demanda e as curvas da inflação.

Outros - sobretudo após a absurda repressão policial ocorrida na maioria dos Atos - manifestava pela restauração da própria democracia, pelo direito de manifestar a indignação. Manifestava contra a Polícia que mais mata no mundo, que vai a uma manifestação como vai à uma guerra, reprimindo atabalhoadamente quem vê pela frente, em atitudes covardes comparáveis apenas aos anos de chumbo dos quais aparentemente sentem saudades.





Mas não parou por aí. Causas aparentemente antagônicas passaram a andar de mãos dadas no meio do mesmo movimento. A diminuição da maioridade penal foi defendida por um rapaz que manifestava ao meu lado, já que "se já pode transar, já pode ser preso". Outros erguiam cartazes indignados com a tributação que, reclamavam eles, tanto aflige a classe média. E havia os que reclamavam do Bolsa Família e os que queriam a renúncia de Feliciano. E havia os que eram contra a PEC-37 e os que queriam a renúncia de Renán Calheiros. E havia os que defendiam uma manifestação pacífica e os que chamavam estes de covardes. Havia os que cantavam o Hino Nacional e  os que chamavam estes de nacionalistas, massa de manobra da mídia e da direita. Quem não reclamou  foram os fabricantes de máscara do V de Vingança e de camisetas com inscrições como "Um filho teu não foge à luta" e "Muda Brasil", verdadeiros símbolos de um certo comércio revolucionário que surgia.



Tantas demandas que somente a democracia pode colocar na mesma rua. A pergunta é que fica é o quão praticável é misturar tantas pautas diferentes num mesmo movimento. Agora, com a revogação do aumento da passagem em muitas cidades - certamente um marco histórico - veremos o quão possível é lidar com tantos interesses por vezes conflitantes e o quão além dos vinte centavos conseguiremos chegar



"ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS" ou "O POST DENTRO DO POST"

Uma primeira consideração: A presença de partidos políticos e de movimentos sociais protagonizou uma das polêmicas destas manifestações, tendo inclusive as bandeiras queimadas por parte daqueles que consideravam que o movimento era independente de partidos políticos. Entretanto, particularmente creio que a presença de partidos políticos ou de movimentos sociais - com ou sem bandeiras - não descaracteriza o caráter não partidário de uma manifestação. A grande questão não é a presença destes grupos ou de qualquer outro - o partidarismo está intrinsecamente relacionado à ideia de democracia -  mas um eventual uso eleitoreiro desta participação, isto é, a transformação da manifestação em um trampolim eleitoral para promover o Partido ou alguns de seus membros.

Uma segunda consideração: Já se tornou lugar-comum âncoras de telejornais chamar as eleições de "festa da democracia", assim com já tem se tornado lugar-comum os discursos do tipo "lugar de protestar é nas urnas", sempre que manifestações como as atuais acontecem. Devo discordar dessas ideias. É inegável que o direito de eleger de forma - supostamente - livre nossos representantes foi um dos maiores ganhos de nossa história. Entretanto, a democracia não se resume ao momento do voto, ela é muito mais que isso. A verdadeira "festa da democracia" é a que estamos acompanhando nos últimos dias, com o povo cobrando quem o representa, seja ele que for, fazendo democracia pelas próprias mãos. Isso é política!

Uma terceira - e última - consideração: E é exatamente por discordar que a democracia se resuma a possibilidade de escolha de pessoas, é que fico com os dois pés atrás quando ouço reivindicações por impeachment de Fulano ou de Beltrano. Acho que esta poderosa ferramenta deva existir e usada em casos específicos, mas não creio que deva ser a primeira coisa a ser reivindicada.  Acho que um "Fora Fulano" soa simplista perto de um "Faça isso, Fulano, porque foi para isso que você foi eleito". A política não é - não deve ser - feita de políticos, mas de atitudes. São essas que devem ser trocadas em momentos de insatisfação.



"CRÉDITO DAS IMAGENS" ou "PROPAGANDA SAFADA":


A primeira foi retirada da fun page  INDIRETAS CARIOCAS: https://www.facebook.com/IndiretasCariocas
Todas as demais foram retiradas da maravilhosa fun page PIPOCA VERBORRÁGICA: https://www.facebook.com/PipocaVerborragica 
Ambas merecem ser curtidas!