quarta-feira, 24 de julho de 2013

O frio e os calculistas 2

Pois bem. Passaram-se mais de dois anos e resolvo novamente falar sobre a temperatura. Sendo assim, por que não repetir o título? O texto original, o primeiro mas não mais único, vocês podem encontrar aqui.

Após essa pequena introdução travestida de viagem ao passado, vamos aos fatos. O frio novamente chegou. Não sabemos quanto tempo ele vai ficar, mas chegou. É como aquele parente distante, com o qual você não está acostumado, mas que aparece com uma mala debaixo do braço, passa a ocupar seu sofá e que você encontra, inesperadamente, de cueca e meia quando vai tomar seu café da manhã. É uma péssima maneira de acordar e deixa uma sensação de desgraça que dura pelo resto do dia.

As pessoas ficam muito criativas na hora de combater o frio. A tática de um amigo é vestir a roupa de sair por cima do pijama, pra evitar o choque térmico com o tecido frio. É possível que ele lave as mãos de luvas também, mas nunca me ocorreu perguntar. Há também a tática de lavar a louça com luvas. Não é um método 100% garantido, mas reduz em 37,8% o acúmulo de pratos sujos na pia e em 53% os términos de relacionamentos. 

Quem gosta de tomar chá pode dispensar os pires (alguém ainda usa pires, aliás) e cobrir a xícara com a mão. Funciona. Alguns esquentam as roupas no micro-ondas. Deveria haver uma opção no menu do micro-ondas, aliás. "Meias". Ficaria entre "pipoca" e "requentar comida". 

Eu ligo a água quente do chuveiro e espero algum tempo antes de entrar no banho. Sei que devemos dar o exemplo na hora de respeitar os recursos naturais, mas meu instinto de preservação acorda antes da consciência ambiental. 

Mesmo em um país tropical, abençoado por Deus (acabo de perceber que os adeptos de religiões divergentes podem aproveitar para processar Jorge Ben por indiferença ou descaso com suas divindades, mas estou divagando), está crescendo o número de lares com lareiras. Lareira é uma parte interessante da casa. Outro amigo meu costumava dizer que ter uma torradeira é sinal de status. Eu já penso assim a respeito das lareiras. Pessoas com menos condições financeiras não podem dispor de um pedaço da sala pra instalar um buraco que vai até o teto. É contraproducente. E ainda possui um custo elevado de manutenção. Você compra madeira para queimar e se aquecer. Se os ecologistas já não se incomodaram com meu pré-aquecimento do banho, certamente a ideia de quem compra uma árvore só para cremá-la deve ser bastante ofensiva. Uma opção mais econômica é esticar as mãos em frente ao forno ligado. É o mesmo conceito que reunia nossos antepassados em volta das fogueiras, mas com a inclusão da tecnologia. E sem as histórias, só a tevê.

Banheiras e ofurôs são funcionalidades com vida curta no meio da correria que é nossa vida. Claro, no princípio dissemos que vamos usá-los sempre, que foi a melhor ideia que já tivemos. Mas aí a pessoa começa a se preocupar com a conta de água. Ou então passa a achar que demora muito encher tudo aquilo. Hidromassagem é uma curtição, mas enjoa. Deitar-se na banheira tomando vinho, com uma trilha sonora cuidadosamente escolhida e um livro é algo que só funciona em filme e novela. Fora que aquilo não é banho. Quero dizer, você entra sujo na água limpa, que passa a ser suja, e ainda quer ficar limpo. Aí levanta e toma uma chuveirada. E aquele elefante de porcelana branca fica ali, acumulando poeira e zombando dos seus sonhos de grandeza de outrora. 

O frio também aproxima das pessoas. Uma amiga diz que isso acontece com mais frequência no calor, porque usa-se menos roupas e bebe-se mais cerveja, mas eu já acho que as pessoas só querem uma desculpa para se enroscarem debaixo dos lençóis. E no frio. Sim, no frio. Porque o calor não foi feito pra ninguém dormir junto. Meu corpo resolveu que o melhor é acompanhar as tendências. Durante o verão ele hiperaquece e sofro pelo simples fato de estar calçado. No frio minha temperatura corporal deve ter começado a baixar de uns anos pra cá, porque passei a sentir muito incômodo. Dizem que velhos sofrem mais com baixas temperaturas. Se já é assim agora, aos 70 anos vou enfrentar uma Era Glacial particular.

Para terminar, vou revelar um segredo para dormir bem no frio. É só ficar acordado o máximo de tempo possível. Por volta das duas, três da manhã, você vai estar tão cansado que vai simplesmente deitar e pegar no sono. Por sinal, vou colocar essa em prática agora mesmo. 

.: Adriano :. todo feliz por ter um poncho. E nem um pouco preocupado por parecer um mendigo