terça-feira, 20 de agosto de 2013

Miséria é miséria em qualquer canto. Riquezas são diferentes.

Fazer uma viagem é algo bem pessoal. Não há uma fórmula ou manual a ser seguido e assim viajar de forma correta. Dizem até que para duas pessoas se conhecerem bem de verdade precisam fazer uma viagem juntos, assim podem ter contato com uma série de situações inusitadas e empecilhos que revelam como o, até então, amigo realmente é.

Assim como não há fórmula, não há também certo ou errado. Alguns preferem cruzar o mundo para encarar os dias acordando às quatro da tarde, comendo no McDonnald´s e correndo para uma boate, para ouvir música eletrônica até o dia raiar. Gosto não se discute, só se contesta o fato de gastar uma fortuna com passagem e hospedagem para passar as férias fazendo o que se pode fazer em qualquer cidade, sem nada característico.

Recentemente consegui concretizar o velho sonho de viajar para a ilha de Cuba. Paraíso caribenho com paisagens encantadoras. É claro que uma visita à praia era inevitável, principalmente com o calor do verão em uma latitude equivalente ao Rio de Janeiro, mas Cuba é tão particular e praias são tão genéricas!

Minhas principais e mais profundas referências sobre a Ilha eram as obras de Fernando Morais, Frei Betto, Ignácio de Loyola Brandão, entre outros intelectuais que escreveram sobre a Ilha alguns anos depois da revolução. Os dois problemas em relação a isso é que por mais rigorosos que fossem, seus livros não deixam de ser a visão de estrangeiros; e depois de algumas décadas tudo está bem diferente.

Como também sou estrangeiro e faço um relato bem mais resumido, é evidente que não tenho como abordar tudo o que gostaria. O que posso dizer é que, distante do sonho que desperta o livro “A Ilha” (Fernando Morais), graças à falta de industrialização ao longo dos anos de revolução, Cuba está muito, mas muito distante do inferno na terra que muitos pregam.

É evidente que existem problemas. Se pensarmos nos países vizinhos, ou seja, Belize, Honduras, Haiti, Jamaica, etc., vemos que a colonização deixou feridas difíceis de cicatrizar e o atual modelo econômico faz com que o desenvolvimento desses pequenos territórios seja um desafio para qualquer governo – o que, sem dúvida, não os isenta de algumas medidas desastradas.

Mas cubanos querem fugir de Cuba! Exato. Assim como brasileiros arriscam a vida para cruzar o deserto entre México e Estados Unidos, ou assim como escandinavos largam tudo para construir uma pousada no interior do Rio Grande do Norte. Sem dúvida um governo tem a obrigação de deixar a cargo de cada indivíduo a liberdade de deixar ou não o país, mas tentar voltar todos os holofotes para a população que deixa a Ilha, como se isso não ocorresse em nenhum outro lugar do mundo, é fechar os olhos para as semelhanças com outros países.

Foi fora do circuito turístico, longe dos guias e próximo à população que pude notar o senso crítico das pessoas em relação ao governo, as demandas que vão mais a fundo do que um shopping moderno, livros que não chegam a cinco reais (os mais caros), negros e brancos frequentando os mesmos bares, pois ainda que a desigualdade social exista, há também valores de igualdade que vêm sendo trabalhados ao longo de vários anos.

Enfim, o debate sobre o que é bom ou ruim em Cuba é inevitável e inevitavelmente contaminado por ideologias contrárias e favoráveis. Conhecer aquela realidade de perto contribuiu para muitas de minhas opiniões. Para não dizer que não tive problema com a falta de liberdade, foi difícil conseguir comprar Euros para embarcar. Por determinação do Banco Central, em virtude do embargo, as casas de câmbio não podem vender moeda estrangeira para quem vai viajar para Cuba (determinação do Banco Central brasileiro, não cubano).