domingo, 20 de outubro de 2013

Crítica da Loucura

O holocausto não é uma exclusividade da Alemanha nazista. A política higienista de Hitler popularizou o termo, originalmente utilizado em um ritual hebreu, associando à matança em massa, como nos campos de concentração.

No Brasil também houve holocausto, mais recente que o alemão, como relata a jornalista Daniela Arbex no livro “Holocausto Brasileiro”. Ocorreu em Minas Gerais, na cidade de Barbacena, ao longo do séc. XX, tendo seu ápice durante a ditadura militar e funcionando até a década de 80.

Hoje o local ainda abriga alguns doentes e há projetos para aproveitar a área como hospital. Em uma parte funciona também o museu da loucura. O lugar é bonito, arborizado e com uma construção colonial que lembra uma antiga fazenda. Ao chegar fica difícil acreditar que aquela construção testemunhou um período tão sombrio, de tantos que marcam nossa história.

Alguns prontuários médicos indicam a arbitrariedade das internações. Paciente se queixa que sente falta da família; manter a internação. Paciente se sente triste; manter a internação. Paciente sem reclamações; manter a internação. Internação que consistia em quantidades ínfimas de comida, dormir sobre capim no chão, se alimentar de ratos, beber esgoto que corria a céu aberto e ser eletrocutado, por vezes até a morte, que dentro deste contexto era uma bênção.

Cada detalhe ocorrido no hospital Colônia choca e revolta, mas o que preocupa mesmo é a naturalidade com que a população, até hoje, encara o diagnóstico da loucura e o desrespeito à condição humana.

Narrando certas situações degradantes, como as citadas acima, o mais comum é que as pessoas reconheçam que a loucura não está nos internos, mas em quem os interna. Porém a banalização da loucura não acabou, apenas mudou de cara.

Hoje é muito mais lucrativo, menos custoso e socialmente tolerável diagnosticar doentes mentais a esmo, receitando remédios para cada nuance comportamental. Para os tristes, quietos, agitados, viciados, rebeldes, dispersos, insatisfeitos, etc. Há quem queira tratar até a homossexualidade – quem é mesmo louco nessa história toda?

Como se não bastasse a naturalização de medicamentos cuja eficácia pode ser contestada na grande maioria dos casos a sociedade brasileira costuma ser extremamente permissiva em relação aos maus tratos.

Utilizando justificativas risíveis parte da população se posiciona contra os direitos humanos, pelos quais nós, humanos, lutamos por séculos para conseguir. Estes direitos são inalienáveis, não dependem de mérito. Qualquer pessoa que seja contra está dando um tiro no pé, ou abrindo espaço para isso.

Alguns tentam uma justificativa falha de que os direitos humanos seriam para “humanos direitos”. O problema é no que a falta destes direitos levada ao extremo implica.

Estima-se que 70% dos internos do Colônia chegavam ao hospício sem nenhum problema mental, porém com o tempo todos ficavam loucos. Rompiam com a realidade diante da insensatez do ‘tratamento’ que recebiam.

Fica a dúvida – retórica – se qualquer instituição que tenha a mínima pretensão de recuperar algum humano terá sucesso, tomando como primeira medida tolher seus direitos mais básicos.