quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O taxista


Sempre achei que táxi é uma espécie de terapia móvel. Se o cliente quiser ser abrir, o taxista normalmente está pronto para dar conselhos dos mais variados e ainda se dá ao luxo de usar exemplos concretos de clientes anteriores. Confesso que já me abri no táxi algumas vezes para falar de ex-namoradas, mas normalmente não fico muito distante daquele papinho tempo-turistas-futebol. 

Estávamos no fim da Bartolomeu Mitre quando um ônibus nos fechou de uma forma grotesca. Se o taxista não estivesse atento, teríamos certamente batido.

- Sorte que você está aqui - disse ele, com uma voz mansa. 

- Se você não tivesse aqui eu teria quebrado as lanternas traseiras daquele ônibus. Eu ando com um porrete na mala. Persigo o vagabundo que me fechou até o fim. Se quando eu chegar perto dele, pedir desculpas, tudo bem. Mas se me olhar com cara feia e me xingar, trato logo de tirar o porrete que carrego no porta-malas e quebro as lanternas do filho da puta. Ou lanterna ou retrovisor. Em alguns casos quebro os dois. 

Não sabia muito o que dizer. Dizer o quê para um cara desses? Queria apenas chegar ileso ao meu destino. 

Assim que entrei no carro, ele disse que sabia o meu paradeiro, mas acabou se perdendo no caminho, de modo que a corrida deve ter custado cerca de 10 reais a mais. 

- Desculpe pela confusão no caminho - ele disse.

Pensei em pedir um abatimento de pelo menos 5 reais, mas imediatamente me lembrei do porrete, veterano de guerra, todo calejado, adormecido no porta-malas.

- Imagina, está tudo bem. Tenha uma boa noite.