terça-feira, 22 de outubro de 2013

Três notas sobre o passado

Minha eterna gratidão à Híndira Barros, por estes dois anos de blog
(Felipe Lários, um blogueiro grato)

1. "Ah, naquele tempo é que era bom...”

Um pouco por interesse antropológico, um pouco por masoquismo intelectual (utilizo aqui expressão cunhada por Luana V.) me agrada muito ouvir conversas alheias, seja nos transportes coletivos, nos restaurantes ou mesmo na repartição onde trabalho. Nada menos ético, eu sei. Etiqueta à parte, dia desses ouvi um distinto senhor que descrevia com júbilo os bucólicos e apaixonantes dias da... ditadura militar (!). Pois é, ninguém mandou ouvir conversa alheia, me diria Noélia Lários.  O argumento do distinto senhor era que “naquele tempo” (que era o tempo DELE), os meninos respeitavam os professores e eram realmente estudiosos, se dirigiam às bibliotecas para realizarem seus trabalhos e não imprimiam “direto da internet” como fazem estes preguiçosos alunos de hoje. Pois bem, o senhor em questão, além de distinto era também anacrônico: só há uma diferença entre os meninos que copiam “direto da internet” e os meninos que vão às bibliotecas e copiam “direto da Enciclopédia Barsa”: os segundos tem muito mais trabalho que os primeiros para fazer a mesma atividade: uma cópia. (Culpa dos meninos? Claro que não, mas provavelmente dos professores que desde o século XIX não inovaram muito na maneira de formular trabalhos escolares). Minha teoria é que o distinto e anacrônico senhor estava cometendo o mesmo mal que quase todos cometemos ao falarmos do passado (sobretudo quando se trata do NOSSO passado): valorizamos somente as partes que julgamos boas e deletamos todo o resto, tudo aquilo que achávamos ruins no momento em que vivíamos aquilo. Uma espécie de defesa de nosso cérebro, imagino. Assim, as infâncias geralmente são narradas como boas, como uma época áurea da vida em que tudo era puro e feliz: uma espécie de edição de realidade, onde as bofetadas, as opiniões não consideradas, os medos e traumas são devidamente extirpados de nossas narrativas a respeito daquele período.


2. “Lembra aquela dos Menudos?”

Entre tantos apelidos que acumulo, um dos que mais me simpatizo é o de “Benjamin Button”, justificado pelo costume que tenho de cantar músicas e de saber coisas que, supostamente, estariam restritas apenas a pessoas que carregam o peso do tempo nas costas. Mas repare bem: é só alguém começar a falar de coisa velha que todo mundo tem algo a acrescentar e a conversa deslancha. Já fiz várias amizades assim. Falar de coisa nova todo mundo pode falar, agora falar de coisa velha requer vivência, experiência, conhecimento de causa. Acho que é este orgulho de possuir uma informação que os outros não tem, que confere às coisas velhas um status de assunto exclusivo e que nunca sai de moda. 



3. "Um cara que tem email do bol não merece o meu respeito"



As comunidades dedicadas exclusivamente às coisas antigas se multiplicam a cada dia nas redes sociais. Vira e mexe eu me deparo com uma postagem sobre o tempo em que a internet era discada, outra sobre os computadores gigantescos que ainda admitiam disquetes e outra ainda sobre o tempo em que nos comunicávamos por ICQ. E lembra do tempo em que tínhamos que esperar um tempão para "revelarmos" uma fotografia? Pois é, os exemplos não faltam e o saudosismo não fica apenas nas redes sociais. Publicações especializadas em uma determinada década viraram best-sellers nos últimos anos, justamente por explorarem um tipo de saudosismo que é um fenômeno exclusivo de nosso tempo: o saudosismo material. Pense bem: um homem do século XIX vivia basicamente da mesma forma que tinha vivido seu pai e passava por toda a sua vida sem passar por nenhuma grande inovação tecnológica. Ele sentia saudades de pessoas, de lugares, mas jamais de coisas. Agora não: várias mudanças tecnológicas ocorrem no transcurso de uma vida, fazendo com que as coisas tornem-se obsoletas e arcaicas em intervalos cada vez menores. Os DVDs, modernos aparelhos que subsistiram os vídeo-cassetes há cerca de 10 anos, já são jurássicos em 2013. Orkut é coisa de quem viveu a longínqua primeira década do século XXI e os aparelhos celulares que só fazem ligações, coisa de classe média na virada do século, é peça de museu nesses nossos dias. Não tardará o dia em que diremos: "...lembra daquele treco que a gente usava em Janeiro? Dá até saudade! Em Janeiro é que era bom! Não se fazem mais trecos como se fazia em Janeiro..."