quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O bolinho de chocolate


Quando eu era pequena minha avó morava ao lado de uma distribuidora de bolinhos de chocolate e de tarde eles vendiam o que voltava para lá. Minha avó tinha quase vinte netos, então esses bolinhos eram parte da vida de todos nós.

Voltei a esse lugar muitos anos depois, minha avó já tinha se mudado, mas a distribuidora continuava ali, apesar de agora não ser mais uma empresa nacional, mas parte de um gigante internacional. Comprei uns bolinhos e sentei em uma parque que estava na frente, o mesmo que cansei de correr com meus primos. Depois da primeira mordida meu coração quebrou, o gosto era diferente.

Tenho um amigo que é engenheiro em alimentos e contei essa história para ele, achei que meu paladar de adulta tinha estragado a experiência. Meu amigo contou que não foi isso, o que derrubou meu momento estava ligado a empresa, quando eles começaram os ingredientes eram melhores, mas depois em uma escala industrial e nacional, tiveram que começar  a abrir mão de tudo para manter o preço. Onde antes existia pelo menos uma gota de chocolate, foi substituído por um sabor artificial e corantes.

Fiquei revoltada porque não foi minha única experiência em relação aos alimentos depois que voltei a esse lugar. No meu momento de revolta e com a sensação da minha menina interna gritando, eu quis mandar uma carta para o governo, pedindo que as empresas preservem nosso paladar infantil, que leis protejam nossas memórias e que a comida que um dia aprendemos a amar de pequenos seja mantida assim até o final dos nosso dias.

Até onde um ser humano pode ser bom se arrancam todas suas memórias do paladar? Tanto abandonamos no meio do caminho, eu não tenho mais minha avó nem sua casa, por que não manter meu bolinho de chocolate, aquele que ao comer eu lembrava dela?

Mundo injusto e cruel,  estou horrorizada diante disso, nenhuma empresa preservou minhas memórias. Ah, deve ser isso que minha avó falava, o capitalismo selvagem, aquele que passa por cima de todos nós, inclusive das nossas lembranças.

Paciência, eu queria no paladar o momento que a gente só pode guardar no coração. Pelo menos de lá ninguém tira nem muda os ingredientes.