sábado, 15 de fevereiro de 2014

Seguindo a maré

Sinto profunda inveja de gente que sabe o que quer. 

Enquanto eu tenho dificuldade para decidir tanto coisas corriqueiras como o sabor do sorvete que devo tomar, quanto as mais sérias como que rumo dar à vida, parece que todo o restante das pessoas possui um discernimento, no mínimo razoável, perante as escolhas que lhes são oferecidas. 

Nunca fui uma criança de personalidade. Usava as roupas que minha mãe queria, sem questionar, enquanto meu irmão mais novo sempre teve e lutou pelas suas preferências de vestuário. Na escola, se eu estava com meninos, tornava-me encapetada como qualquer menino. Se era com meninas, não via problema nenhum em brincar delicadamente de casinha ou bonecas. Nunca formei opinião, nunca inventei moda. 

E assim segui na adolescência, quando deixava minhas amigas decidirem que era melhor passar o intervalo das aulas escondidas no banheiro feminino, pois, segundo elas, todo mundo do colégio tirava sarro da gente. Assim foi na faculdade, que quem escolheu foi um teste vocacional. Assim é até hoje.

Obviamente eu não cheguei aos 27 sem tomar nenhuma decisão. Também não disse sim a tudo que me impuseram, pois saber o que eu não quero não é problema para mim. Mas admito que minhas decisões foram muito influenciadas pelas pessoas com quem convivi. Eu sempre precisei de validação. E o resultado disso é que hoje tenho a impressão de quem decidiu a minha vida inteira não fui eu, e sim, os outros.

Eu não estou aqui para avisar que a partir de hoje tudo isso mudou. Não quero ter decisões forçadas. Também não quero fórmulas milagrosas que me ensinem a ser quem não sou. Queria que a vontade das coisas fluísse de mim, o que desconfio que jamais acontecerá. Resta-me somente continuar tentando escolher sempre as pessoas mais fodas para conviver, já que elas é que decidirão meu futuro mesmo.