quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Ditadura Democrática

Em um país bastante peculiar a população certa vez se revoltou contra o governo. Todos queriam mudanças, não se sentiam representados e alegavam que estavam sendo lesados pelos governantes. Não que estivessem errados, mas apesar da forma do discurso ser bastante coerente, o conteúdo de cada um costumava ser bem distinto, dada a desigualdade que imperava no tal país.

Logo surgiu o consenso de que algum governo era necessário em substituição ao atual, afinal viver sem governo seria anarquia e disso para o comunismo seria um pulo. Mas quem escolher? Um filósofo, um matemático, um economista, um engenheiro? Depois de um breve debate optaram por colocar os bancos no poder, mantendo eleições periódicas para decidir qual iria comandar.

A princípio a ideia causou espanto, mas o argumento de que os bancos ganham muito dinheiro até mesmo durante as crises econômicas mais graves foi a prova irrefutável de que eles eram a melhor opção para governar o país, já que só com muita competência seria possível ganhar tanto dinheiro.

De acordo com as últimas notícias que tive do tal país, quem estava no governo era o banco Bradesco, longe de ter pleno apoio. Boa parte da população, quase a metade, aceitou os argumentos dos demais bancos de que o Bradesco cobrava taxas altas, juros abusivos e era tendencioso em suas decisões, favorecendo amigos em detrimento de adversários. Não que fosse mentira, mas os seus defensores juravam que essas práticas eram comuns e recorrentes entre todos os bancos. Os críticos mais extremistas afirmavam categoricamente que a cor vermelha do Bradesco era uma clara referência às tendências comunistas da entidade, mas nem todos acreditavam.

Entre os bancos opositores, a principal força era o banco Itaú. Começava exaltando a identificação local e contra a suposta aproximação rubra do Bradesco com o comunismo, trazia o azul e o amarelo como uma promessa de governo mais competente e benéfico para todos. Olhando de fora eu nunca consegui entender – tão pouco alguém conseguiu me explicar – por que as pessoas que criticavam o atual governo defendiam o Itaú. Suas taxas eram mais altas, o serviço era péssimo e os juros exorbitantes. Sempre que alguém questionava um representante do banco, apresentando os números, esse representante desconversava e saía rápido, com cara de poucos amigos.

Figura emblemática era o Banco do Brasil. Era enorme. Um dos maiores. Talvez o maior. Apesar disso não se interessava muito por chegar ao poder. O que não quer dizer que não se interessava pelo poder. Ninguém governava sem seu apoio e, de uma forma ou de outra, sempre dava um jeito de impor suas vontades.

Essa característica do novo sistema de governo era interessante. Havia alianças através das quais os bancos se uniam. Separadamente o país tinha uma infinidade de bancos. Bamerindus, Nacional, Banespa, Unibanco, Sudameris, HSBC... Nenhum deles tinha expressividade sem se juntar aos grandes. Não chegavam a ser respeitados, mas ninguém dispensava a ajuda que individualmente era pequena, porém muitas vezes era fundamental na hora de aprovar ou rejeitar alguma medida.

Havia ainda o BNDES. O banco financiava grandes projetos, realizava empréstimos, promovia o crescimento e fomentava o desenvolvimento de infraestrutura. Mesmo assim não há muito que falar sobre ele. Nunca chegou ao poder, sempre se recusou a fazer alianças e parece que só existia para por o dedo na ferida de todo o sistema governamental.

Apesar das eleições periódicas, a luta pelo poder estava cada vez mais acirrada, o que tornava a governabilidade cada vez mais instável e difícil. A oposição acreditava que quanto melhor fosse o mandato, mais difícil seria derrotar a situação na próxima eleição, com isso fazia de tudo para emperrar as boas medidas.

A mudança no sistema governamental, que havia entregado o poder aos bancos, foi visto como excelente no princípio, mas já começavam a ganhar força os grupos que defendiam o fim dessa alternância, para que não corressem o risco de uma ditadura, que é a ausência de alternância, mas aquela população não primava pela coerência.

Difícil saber como se desenrolou a situação política do país. Fala-se em ditadura, fala-se em mudanças, fala-se em deixar tudo como está; mas o que chega mais perto de um consenso é que a desigualdade econômica é inegociável. Vai continuar, e ai de quem tentar mexer!