terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Je suis Saramago

No dia 19/09/2001 foi publicado e se espalhou pela internet um texto de José Saramago chamado “O fator Deus”. Uma semana antes o mundo havia sido abalado pelo choque de dois aviões contra torres que vieram abaixo, gerando um terremoto nas estruturas sociais.

O que me espantou no texto não foi sua sensatez ou coerência, pois isso vindo de Saramago é o mínimo que podemos esperar, mas sim a rapidez com que toda a turbulência histórica havia sido processada e traduzida pelo escritor.

Treze anos depois o desenrolar da história parece ter seguido a risca a análise de Saramago, ao invés do contrário. A árvore do terror plantada onde havia as duas torres gêmeas continua a dar frutos amargos e venenosos. Grande parte desses frutos enviados a contragosto para países que se por um lado não tinham nada de inocentes – como o Iraque de Saddam Hussein – por outro não tinham nenhuma relação com os atentados contra os Estados Unidos.

Nem todos esses frutos foram para o oriente. Como uma espécie exógena, que sem predadores naturais demora para ser assimilada e combatida, as consequências do 11 de setembro chegaram em vários países, sendo o conflito interpretado e combatido de forma errônea.

Os frutos recém-colhidos na França proporcionaram dois extremos, um maciço “Je suis Charlie” por uma ampla maioria que nunca havia ouvido falar na revista ou seus cartunistas, e outro composto pelos que se incomodaram com algumas charges pesadas da revista e sugerindo que outro atentado, na Nigéria, havia deixado dois mil mortos com muito menos repercussão, o que sem dúvida é revoltante.

É triste ver pessoas mortas por terem feito um desenho, seja ele qual for; inaceitável centenas, talvez milhares, de nigerianos mortos sem sequer uma justificativa fajuta. O que faz com que andemos em círculos é a divisão entre “je suis” ou “je suis pas” Charlie.

2015 não começou violento por estes atentados. Essas mortes são a realidade de iraquianos e afegãos há vários anos. A África que foge dos atentados terroristas também deve driblar o ebola, a fome, a miséria. Se não quisermos fazer longas viagens para assistirmos aos atentados diários, temos nossas próprias mortes.

Nossas religiões não fuzilam os que fazem a caricatura de deus (ou qualquer nome que queiram dar), sequer se organizam em milícias que matam para conquistar territórios. Nessa abençoada terra da tolerância e convivência não há preconceitos religiosos! Desde que os religiosos não sejam seguidores da Umbanda ou Candomblé. Também não podem ser homossexuais, independente da crença, já que estes não sofrem perseguição pela religião, mas da religião, e seguem morrendo em massa por uma intolerância hipocritamente negada.

Não tiro a razão de quem é ou não é Charlie, mas ainda (e cada vez mais) sou Saramago. Judeus matam palestinos, árabes matam católicos, católicos matam judeus, todos se matam, todos morrem. Todos estão certos, ou todos estão errados?

Quando eu era pequeno, entre tudo o que eu não entendia na religião estava o segundo mandamento: Não usar o santo nome de deus em vão. De repente esse parece o mandamento que, se respeitado, mais evitaria tragédias.