sábado, 24 de janeiro de 2015

Pede água

Gosto de lavar as mãos quando chego da rua. Às vezes, o rosto. Tendo nascido em um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, sou muito calorento. O que não quer dizer que eu tenho muitos calos, mas que sinto muito calor. E acho normal fazer isso. A gente anda de metrô, ônibus, carro, táxi, encosta em lugares onde todo mundo segura e depois vai comer alguma coisa. Melhor lavar as mãos. Ainda que garanta menos anticorpos no organismo, acho uma medida sensata.

Soube de alguns casos no norte do país - lá, onde é muito mais tropical do que onde moro - em que os donos das casas recebem seus familiares com uma toalha e uma indicação: "vá lá, tome um banho". Gostaria muito de saber se isso é uma prática de mais pessoas ou uma coisa isolada. Se o corpo humano é composto de 70% de água, eu provavelmente suaria uns 30% de mim num lugar assim. De repente diminuiria de tamanho, como uma esponja. 

Divago.

Muito se fala em crise hídrica e em como as pessoas não perceberam ainda a profundidade desse problema. A falta de profundidade dos reservatórios de água. Um de meus irmãos e sua única esposa foram a um restaurante outro dia que não tinha água no banheiro, só aqueles frascos de álcool gel. Ficaram se perguntando de onde viria a água para lavar os alimentos, os pratos. Na dúvida, acharam melhor não pedir suco. Vira e mexe alguém comenta sobre um restaurante que não abre no almoço por falta de água. É, a piada do restaurante fechado para almoço perdeu muito de sua graça. 

Prevejo finais de relacionamentos movidos pela falta d'água. Namorados deixam para tomar banho na casa do outro, sob o agora falso pretexto de aproveitarem o tempo juntos. É o prejuízo mascarado de sacanagem. E não para por aí. As visitas terão acesso apenas a uma pia ou a uma caixa de lencinhos umedecidos, colocada às vistas de todos. Dar descarga, nem pensar. As discussões de família serão em torno do tempo que cada pessoa passa no banheiro alheio. Reuniões de condomínio, Deus me livre, acabarão em quebra-quebra pelo consumo do sujeito do 102.

Como disse um grande filósofo, vai faltar água para apagar os incêndios.
Uma parte boa da situação é que as pessoas pararam de regar as calçadas com a mangueira. Porque é mais fácil fazer a coisa certa por saber que está sendo vigiado. Lembram do caso do tigre no Paraná que arrancou o braço do menino? Pai e filho se aproximaram da jaula do tigre porque, afinal, ele estava preso, vive em um zoológico, é só um gato grande, que mal pode haver? E ainda se falou em sacrificar o tigre. 

Olhar não tira pedaço, como o menino aprendeu. Com sorte, o pai também. Parece que o zoológico tem a obrigação de colocar placas de "Você está sendo vigiado atentamente pelo tigre". Parece que assim todos ficariam a uma distância segura.

Sejamos todos fiscais de nós mesmos, então. É disso que o povo gosta, afinal de contas.