quarta-feira, 20 de maio de 2015

Hôôôôôôôôôô... MOFOBIA!

Naquele jogo de futebol, tenso e eliminatório, o goleiro do time visitante corre para bater o tiro de meta. Ao fundo, em meio a toda torcida adversária, alguém teve a ideia de provocar. Quando o pé do guarda-meta tocou a bola o torcedor gritou “macaco!”. Alguns amigos ao redor riram. No segundo tiro de meta foram dez a gritar o mesmo insulto, no terceiro cem, depois mil. O goleiro ficou indignado, gesticulava para que as câmeras filmassem o que estava acontecendo. Clima de tensão no estádio. Os jogadores do time da casa, alguns negros, correram para a arquibancada atrás do gol pedindo para que a torcida parasse. O time foi punido. Perdeu mando de campo, alguns queriam que fosse excluído do campeonato. Onde já se viu? Somos todos macacos!

O relato acima não aconteceu, mas seria plausível. É crescente a indignação com casos de racismo contra jogadores. Não há nenhuma virtude nessa indignação, é o mínimo que se espera de uma sociedade que pretende ser civilizada. Por outro lado é um avanço, se pensarmos que há menos de cem anos negros eram proibidos de jogar futebol profissionalmente.

O relato real, cada vez mais popular nos estádios, é o goleiro bater o tiro de meta ao som de “Ôôôôôôôôôôô... BICHA!”. Gritado em coro, o som é facilmente captado pelos microfones das emissoras, mas não merece sequer menção por parte dos narradores.

Juridicamente há uma grande diferença entre esses dois exemplos. Enquanto racismo é crime, ainda que poucas vezes punido, a homofobia não é. Não há nada de ilegal na atitude das torcidas e muitos encaram como uma provocação normal, inerente ao futebol, sobretudo nos países sul-americanos, onde a catimba é quase indissociável do esporte.

Futebol é mesmo lúdico. É provocação, é sacanear o amigo sabendo que na próxima rodada pode ser a vez dele nos sacanear. Às vezes o futebol é capaz de dar uma liberdade incomum, criando espaço para descontração em um ambiente normalmente formal, mas isso não quer dizer que não deve haver limites para o que pode ser feito em nome do esporte.

Há alguns meses vi no programa “A liga” uma matéria sobre a homofobia no futebol. Entrevistado, um torcedor alegou não ser homofóbico, mas – vale uma interrupção para ressaltar que nada de bom pode vir após esse “mas” – se algum homossexual jogasse em seu time, teria que sair. Ao ser indagado se isso não era homofobia o torcedor explicou que se aceitassem homossexuais os torcedores dos outros times iriam fazer piadas com eles.

Não precisamos refletir muito para perceber que nunca houve espaço para homossexuais assumidos no futebol, o que não impede que provocações gerem brigas, por vezes fatais. A mesma hipocrisia quase irracional do torcedor que tenta justificar o injustificável, barrando os homossexuais, atua na maior parte da sociedade, que felizmente não tolera o racismo escancarado nos estádios, mas aceita normalmente a homofobia.

Por trás de uma “inocente” provocação na cobrança do tiro de meta existe toda uma repressão social, que insiste em classificar o futebol como coisa de macho. As justificativas são inúmeras. É só brincadeira, é para evitar brincadeiras dos adversários, é só para desconcentrar. O fato é que homossexuais seguem sofrendo agressões físicas e psicológicas, que nada têm de inocentes ou brincadeiras.

Não é o grito de bicha a cada tiro de meta que me preocupa, mas a passividade com que aceitamos, quando não participamos, desse coro. Quando um ato de racismo gera revolta e indignação temos um fundinho de esperança. O ideal seria que a reação fosse a mesma em relação às outras discriminações.