domingo, 7 de junho de 2015

Pregabalina

Aquela coisa de pânico. Pânico de ver o portão, as pessoas do outro da dele, passeando, correndo pela calçada. Carros aborrecidos, buzinas empacadas. Não foi a primeira vez que me surgiu esse tal "acesso de pânico", conforme o termo que o psiquiatra muito bem conceituado confirmou o nome da patologia, que consta daquele... daquele dicionário médico> DSM IV < corrijam-me os mais afinados com a linguagem médica, com a patologia.

 E a medicina completou as lacunas com mais informações. O doutor mesmo, abriu o Google e fez uma 'consulta mais fina' para me mostrar os casos de sucesso da droga, quando aplicada para esse pânico (agora, atribuída à uma tal de TAG, que eu já deveria trazer de há tempos - e mais uma explicação para que eu ficasse tranquilo, tranquilo. Ainda que o terremoto fosse mais forte que o aperto econômico no Brasil. Logo consegui fazer um link: TAG = Transtorno de Ansiedade Generalizada + medo do além-portão + as noticias sobre essa tal Selic, o câmbio, a bandeira vermelha na conta de luz = Pânico!) Em meu pensamento, a lógica estava agindo, e eu já estava até melhor, mesmo sem haver experimentado essa Pregabalina. 

Receita em mãos. Passei a receita para a balconista, que lançou um olhar enigmático para cima de minha pessoa. Até comecei a ficar ansioso, sem precisar pensar em nomes curiosos. O senhor tem cadastro com a Pfizer? E minha ansiedade, agora, era saber para que diabos eu precisaria ceder meus dados para essa essa empresa que, até onde eu sabia, só fabricava aquele remédio que deixava o homem pronto para transar, mesmo que pudesse fundir o coração depois do terceiro o quarto coito. Seu R.G. senhor, por favor. Isso basta. Eu mesmo faço o contato com a empresa. De tão prestativa que foi a balconista, vacilei na atenção. E minha carteira toda já estava no balcão, pronto para me identificar todo para a Pfizer.
Olharam a receita:

#tomar 150mg 4 x ao dia - Pregabalina

senti outro olhar estranho. Só que dessa vez a coisa envolvia outra pessoa e matemática, ou parte básica desta. De calculadora em mãos, a farmacêutica disse que a compra estava liberada. Como questionei se podia não ser liberada por algum motivo, as duas que me atendiam educadamente me informaram que certas doses de remédios dessa categoria precisam ser vendidas com certa precaução. Minha ansiedade começou a piorar. Para que tanto cuidado em se calcular as cápsulas que o médico havia prescrito. A receita com o C.R.M. não valiam por si só? Será que uma dose um pouco maior faria estragos em meus intestinos? 

Antes que o pânico tomasse conta de minha pessoa e eu atravessasse a porta de vidro da farmácia com a cabeça, finalizei a compra, que em alguns minutos já estava finalizada, o contato com empresa, dona da Pregabalina, estava pronta. Um alívio veio estancar meu pânico quando o caixa disse que eu teria 35%¨de desconto nessa compra, mas que poderia ficar mais barato ainda nas próximas que eu fizesse. Não soube qual o melhor sentimento eu poderia deixar descer pela garganta abaixo, nesse momento de negociações farmacológicas. No fim, garantiram-me que cada caixa de 28 comprimidos poderiam custar até menos do que R$100,00, caso a 'fidelidade' fosse certa com a empresa. 

Alguns meses indo à farmácia para conseguir a minha droga, barganhada com a Pfizer para conseguir o tão valor abaixo da casa dos 2 zeros à esquerda fizeram de minha pessoa alguém mais calmo. Sempre calmo, sem TAG, sem medo do portão aterrador, das pessoas, percorro uns 500 metros até o balcão da drogaria. Peço minha Pregabalina e fico calmo demais para fazer contas. Nem mesmo a precariedade do Brasil ou dos países em crise me fazem sentir minha crise. Aliás, ela não é mais minha, nem o pânico, a TAG. Eu só me sinto anestesiado e feliz em ser cliente fidelizado, ter um cartão bacana e pagar R$97,00 pelas vinte e oito cápsulas de Pregabalina. Minha droga que consumo conforme o médico prescreveu, para evitar contratempos.