quarta-feira, 22 de junho de 2016

A Marcha

Naquele trecho do caminho, a terra tremeu.

Marchávamos em fila, cada qual carregando a porção que lhe fora destinada. Cortávamos, carregávamos, transportávamos. Sempre foi assim porque é assim que tem que ser. Nada no mundo interrompe nossa marcha, a não ser é claro que a colônia esteja em risco. 

Nossos sentidos nunca falham. As primeiras de nós já tinham alertado que aquele caminho oferecia riscos ao grupo, por isso nosso caminhar era cauteloso. Quando a terra tremeu, houve quem perdesse a cadência e desmoronasse junto com a carga. As que puderam, retomaram o caminho. As que não puderam... bem, nós nunca sabemos o que acontece com essas. 

O grupo, sempre o grupo. 

Mais um tremor. Dessa vez mais forte, mais próximo. Os tremores iam ficando ritmados e múltiplos. Vinham em nossa direção. Passos? Súbito, o dia virou noite. Uma sombra cobriu a marcha e levou ao chão aquelas de nós que não puderam fugir. A fila se desfez e a marcha seguia por onde o instinto mandava, desviando-se como podia daquela cadeia de sombra-tremor que nos aterrorizava. Ao redor, algumas agonizavam. A carga desprendendo-se do corpo.

Muitas de nós ficaram pelo caminho. Muitas de nós ainda ficariam. Nunca sabemos o que encontraremos adiante, mas nada disso importa. Somos operárias, soldadas e rainhas. O caminho é longo, o trabalho infinito e o que importa é seguir marchando.