sábado, 20 de maio de 2017

As brutalidades sociais cotidianas

No dia 12 deste mês o Brasil perdeu um de seus maiores intelectuais. Quase um século de conhecimento personificado. Antonio Candido faleceu aos 98 anos. Sociólogo por formação, consagrou sua carreira como crítico literário, mas Candido não chegava a fazer uma grande distinção entre essas duas áreas.

Em um vídeo gravado há três anos ele fala sobre o direito à literatura afirmando que "o direito à literatura deságua na justiça social". É uma análise que não restringe a literatura ao hobby, mas resgata a origem de histórias criadas e disseminadas como forma de compreender melhor o mundo.

Partindo deste princípio percebemos que a alfabetização é como um pequeno passo de um bebê desengonçado, que parte em busca de novos limites. Sem menosprezar o folclore transmitido oralmente, que retrata situações locais, Candido afirma ser “brutalidade social privar um individuo de boa literatura”.

Fornecer condições de ensino, formação e preparo para que um indivíduo tenha a leitura como hábito e acesse as grandes obras literárias faz com que ele expanda seu universo e passe a compreender melhor o mundo, com uma visão mais ampla e criativa da realidade que o cerca – seja ela uma grande megalópole ou um pequeno sítio isolado no interior.

Colocar a literatura em papel de destaque, como protagonista da justiça social ao invés de um mero entretenimento, é tarefa para poucos. A economia está tão enraizada neste posto que nossos olhos estranham a mudança. Candido não apenas exercia essa tarefa como ia além, aplicando conceitos sofisticados das ciências sociais em suas análises.

Cinco dias depois da morte de Antonio Candido o país foi chacoalhado por uma delação. Delações vêm sendo feitas há meses, mas esta teve uma particularidade, uma prova material. O áudio, a mala de dinheiro rastreada, o popular “batom na cueca”.

Muita gente nunca teve a menor esperança de que algo de bom pudesse vir dos novos delatados, mas entre as várias frases que passaram a ecoar depois do escândalo foi a de que “não sobrou ninguém”. Sobretudo os que colocavam Dilma Rousseff como fonte de todos os problemas, foram surpreendidos por provas contra seu sucessor e contra a alternativa no segundo turno da última eleição.

A frustração política que se espalha pelo país é compreensível, mas acreditar que não sobrou ninguém implica em ter depositado toda a esperança de uma visão restrita em duas pessoas que nunca demonstraram ser, de fato, uma alternativa diferente.

Vale a pena considerar a hipótese de que a crença irrestrita em uma dicotomia tão simples para uma realidade tão complexa é resultado de um aprisionamento pessoal em um mundo que não extrapola os limites do folclore local.

Buscar um mundo mais amplo do que a falsa dicotomia exaltada no país forma um indivíduo mais completo e uma sociedade mais diversificada. A economia não é um caminho para que isso seja alcançado.