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quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Eu não gosto de receber visitas

“Nossa casa é um templo”.


Eu nunca tinha entendido muito bem o que essa frase significava quando morava com meus pais. Eu não via problema em receber visitas e não me incomodava tanto com bagunça, até que me mudei.


Morar sozinho é uma grande odisseia, um novo desafio praticamente todo dia. São contas para pagar, casa para arrumar, comida para cozinhar... e quando chega a noite e só queremos preparar um miojo e cair na cama, nos deparamos com uma geladeira vazia porque simplesmente esquecemos de fazer compras no caminho de volta do trabalho. E o que nos resta é enfrentar a dura realidade de gastar dinheiro com delivery.


Não é fácil! Não vai ter ninguém para fazer por você, comprar para você ou pagar seus boletos. O lado bom é que passamos a dar muito valor ao que construímos, ao lugar onde moramos, e às coisas que temos. Começamos a perceber que não é fácil fazer a manutenção de um lar.


Ser responsável por todas as tarefas da casa te dá uma dimensão maior das responsabilidades. Sabemos quanto tempo gastamos para manter uma casa limpa e confortável, e queremos mantê-la assim pelo maior tempo possível. E AI DE QUEM sujar e não limpar!


Quando entendemos isso, visitas passam a ser sinônimo de “bagunça”. 

Objetos que sairão do lugar, farelos e gotas que cairão no chão, sem falar a sujeira que tantos pares de sapatos vão trazer para dentro de casa. 

Quer uma conta simples?

Pegue o número de convidados e multiplique pela quantidade de louça na pia. Se isso não te desestimula, não é você quem está lavando.


Outra possível situação é estarmos naquelas semanas corridas: trabalho, faculdade, mil cursos, e sem tempo hábil para cuidar da casa. De repente chega um final de semana e você recebe mensagens dos amigos/familiares/contatinhos querendo marcar alguma coisa na sua casa. Você olha ao redor e tem cueca até na pia. Aí é correr pra limpar tudo nos 15 minutos que o uber leva até sua casa. 


É tanto trabalho que vem antes e depois das visitas, que passamos a pensar duas vezes antes de querer receber alguém. Cansa.


Morar sozinho é se acostumar a viver com você mesmo. Passamos a saber o quanto de bagunça suportamos, quando queremos algo mais limpo, a quantidade de louça na pia que consideramos suportável, e com que roupa nos sentimos confortáveis - adeus calças em casa! -. Mas é um filtro muito particular, que na visão de quem é de fora pode parecer desleixado. 



No fim do dia acabamos entendendo porque a nossa casa é um templo, e que às vezes é mais cômodo apenas sair para um barzinho com os amigos e deixar a sujeira por lá mesmo. 





segunda-feira, 7 de março de 2016

A mudança

O cheiro do outono chegara mais cedo. O céu e o vento anunciavam sua aparição nos pequenos detalhes. Aos desavisados, coube sentir o embaralhar dos sentidos e lidar com os prejuízos das artimanhas outonais.

Com o passar dos dias que preenchiam as semanas e que se enrolavam nos meses conquistando um efeito de nó de marinheiro nas linhas de fibra de tempo, ela foi se familiarizando com seu novo esquadro. No começo, não conseguia dormir. Seu sono estranhava o novo ambiente e não era possível ter sossego em vigília ou letargia. Os sons e as cores também lhe eram incomuns. Não havia meios de escutar o frágil barulho das folhas das árvores ao entardecer, nem vislumbrar os diferentes tons de rosa e lilás do pôr-do-sol entre os hiatos dos galhos.

Os espaços daquela casa de poucos cômodos, comparados ao que era o seu lar, ecoavam vazios que não eram próprios das casas pequenas, pensava ela. Espaços pequenos deveriam ser aconchegantes e preenchidos facilmente. Aos finais de semana, vagava como as assombrações das histórias de infância, só que em círculos, procurando em espiraladas uma solução àquela inquietude.

Com o costurar do tempo, o estranhamento foi tomando diferentes formas, cores astrais, humores. A casa já não parecia um concreto de fome descomunal, que transformava pequenos espaços em grandes vazios, mas sim um planeta suspenso que, embora diferente do seu antigo lar, era um bom local para se refletir e digerir as brincadeiras doídas da vida.



Foto: Matizes do Tempo - Bárbara Mançanares.