domingo, 20 de março de 2022

Uma guerra se faz com ódio

Uma guerra não se faz com armas, se faz com ódio. Bombas, tanques e armas são meras ferramentas a serviço de um sentimento levado às últimas consequências. É o ódio que faz um soldado russo desviar a rota de um tanque para esmagar o carro de um civil desconhecido.

Para alimentar o ódio, a disputa de narrativas utiliza as mesmas táticas seja qual for o lado. Se o ódio for anterior ao conflito tudo fica mais fácil. Por isso as reações às guerras são variáveis.

A população da Ucrânia se encaixa em uma referência idealizada, que motiva um deputado a viajar até próximo ao conflito e tentar colher os frutos da suposta benevolência, até ser desmascarado pelos áudios de bastidores. Mais que ajudar, havia o interesse na beleza caucasiana. Diante do indefensável só foi possível alegar que “pelo menos ele não roubou”, mas a viagem foi paga com dinheiro público.

Conflitos na África ou Oriente Médio não contam com a simpatia ao padrão caucasiano. Não se trata de fiscalizar tristezas. É compreensível que nos sentimos tocados por alguns eventos mais que por outros. Ainda assim, não é por acaso que olhamos para questões internacionais como uma simples divisão de heróis e bandidos.

Em um sistema econômico que traz o capital no nome, a preocupação não está voltada para a sociedade. Se estivesse, as divergências seriam resolvidas com diplomacia. A milionária indústria bélica lucra rios de dinheiros com bombas e armas, comercializada com todos os envolvidos no conflito. A especulação financeira analisa a guerra para decidir de onde tirar e onde aplicar o capital que batiza o sistema econômico.

Alguns ingênuos apostam no capital para solucionar as guerras, com sanções econômicas que só prejudicam a população do país alvo. Hoje há quem boicote o strogonoff e os clássicos da literatura russa, em atitude comparável a tomar cloroquina contra Covid. Não notam que, assim como no livro 1984, de George Orwell, os inimigos a serem odiados são fluidos.

Se ontem a Venezuela deveria ser riscada do mapa, hoje a maior reserva de petróleo do mundo deve ser aliada, para suprir a carência provocada pelo boicote ao petróleo russo. Os direitos humanos, a serem respeitados incondicionalmente, são relativizados quando ao mesmo tempo em que são defendidos na Ucrânia, são desprezados na Arábia Saudita, que executou mais de 80 pessoas enquanto vendia petróleo para também suprir a carência gerada pelo boicote aos russos.

Mais uma vez o ódio entra em cena para relativizar e justificar as execuções sauditas. Eram todos terroristas. Não é de hoje que atividades ilícitas são utilizadas como suposto argumento para invalidar direitos humanos. Uma breve passada por programas policiais no Brasil deixa esse argumento bem claro.

Divergências entre seres humanos que possuem interesses conflitantes são inevitáveis. Existem em pequenos círculos familiares, que dirá entre grandes potências mundiais. Mais útil do que procurar por heróis e bandidos, é compreender que não há heróis em guerras. Há vítimas. Vítimas do ódio, vítimas de aproveitadores, vítimas de interesses econômicos.

sexta-feira, 18 de março de 2022

nascimentos

São Paulo, sexta-feira, 18 de março de 2022

- nascimentos - Cristina Santos - post 22 - Blog das 30 pessoas - 

título: nascimentos

   Do romance da poesia e do conto, nasceu a crônica. A crônica ficou grávida do vento, e pariu uma tempestade. A tempestade destruiu o mundo, e cada pedaço do meu corpo, é uma entrada para outra dimensão. 

Oiê, Pessoal.
Até o próximo post.
Beijos, 
Cristina Santos 

P.S.: escrevi esse miniconto em abril de 2017.
   

quarta-feira, 16 de março de 2022

A casca de nós


Nebulosa Olho de Gato / Telescópio Hubble

Duas imagens acompanham minha infância, vindas sabe-se lá de que distância do tempo ou do espaço, repetindo em ondas um anseio: quero um escritório e um laboratório. Desejava, antes mesmo de saber efetivamente as primeiras letras, que me formaria em duas profissões, ainda que não soubesse exatamente o que esses dois faziam. Não eram vontades gêmeas: escrever nasceu primeiro e não gostava da ideia de ser vontade única. Provavelmente do olhar de espanto diante da existência, inventei de ser também cientista. Entrava em silêncio reverencioso no apertado laboratório da escola pública, onde jaziam em potes de vidros diversos exemplares de cobras e sapos (creio que todo viviam na lama do brejo que servia de assento à escola).

Quando finalmente fomos morar em uma casa com um quintal lateral, meu pai providenciou um laboratório feito de madeiras velhas e papelão. Um resto de estante guardava maçarocas de folhas, misturas de produtos de limpeza e anotações de observações aleatórias. Naquele instante, escrever perdeu a força. O que interessava era descobrir do que era feito o mundo, o que havia além da lua, pensar como alguém vivia em paz sabendo de nossa pequeneza espacial, de nosso rodopiar do nada ao nada. Era disfarçada de teologia a filosofia que ameaçava nascer em mim.

Foi quando cheguei ao Fundamental II, aquele momento da escola em que uma única professora não era o suficiente para caber todo conhecimento. Surgiram disciplinas que desconhecia: física, química, biologia. Matemática. A existência dos números em meio ao X, ainda hoje é, para mim, um absurdo da linguagem. O que tem um X que se meter com números? A matemática jamais fez parada em mim, no máximo passava correndo, deixava cair uma ou outra equação que eu teimava em guardar, mas logo acabava no limbo do esquecimento. E a passagem dos anos só fez piorar minha relação com o que almejava: embora fosse ainda atraído pela ciência, ela me desprezava, com seus múltiplos braços numéricos, seus olhos de hipotenusa. A escritura ganhou velocidade e me encheu de energia, gritando: faça isso.

Muito depois, já fazendo teatro, estudando artes, rascunhando frases, descobri a poesia. E com ela (prima-irmã da filosofia que também ganhava corpo), encontrei modos de dar forma aos meus pasmos. Continuei um investigador, não mais lidando com frações, mas dançando teorias, sons e figuras. Penso que se tivesse estudado em uma escola de melhor qualidade; se tivesse mais paciência comigo e com os números; se tivesse outros tantos Se’s, talvez tivesse me tornado um cientista de exatas, um geólogo, neurocientista. Não me ocorriam as Ciências Humanas, pois nada que era humano me parecia passível de se tornar científico.  Entendia o ser humano como meio, isso é, estava entre o absolutamente minúsculo - dos átomos e bactérias – e o infinitamente gigantesco dos buracos negros e dimensões.

Nem por isso virei a cara para quem eu queria. Continuei vendo documentários, lendo artigos, livros. Chegaram a mim as falas afetivas de Carl Segan, Neil deGrasse Tyson e Stephen Hawking, físicos que beiravam a poesia quando explicavam conceitos; ao lado deles, vieram Haroldo de Campos, Ferreira Gullar, João Cabral de Melo Neto, poetas da matéria, que por vezes sopram conceitos científicos. Nessa alquimia descobri que não estava tão longe, havia uma ligação nessas relações: a escrita nasceu com a ciência, para mim, dos mesmos assombros. E esse vínculo abarcava, sobretudo, a humana percepção de saber-se travessia num mistério sem fim.

Talvez seja mesmo infinito o universo, no entanto não o tempo da vida. Foi em um dia como hoje, 14 de março, que morreu Stephen Hawking, depois de passar a maior parte da existência assolado por uma doença que o fechou fisicamente, mas expandiu sua mente para recônditos do cosmos. Morreu no mesmo dia em que, no Brasil, se comemora (ou já se comemorou? há o que se comemorar?) o Dia Nacional da Poesia. E esse vínculo, cogito, deve ser parte da teoria de tudo.

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ps: Hawkins morreu no mesmo dia em que Marielle Franco foi assassinada em plena luta. Quatro anos em que ecoa a pergunta: quem mandou matá-la?

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ps 2: para quem gosta de ler minhas crônicas, tenho publicado semanalmente crônicas curtas lá no Instagram: @tadeu_renato

 

terça-feira, 15 de março de 2022

São Paulo 0 X Edimburgo 1 (Coleta de lixo)

Fala galera!

Acreditam que já vai fazer 6 meses que estamos na Escócia? O tempo passou muito rápido! 

Ao contrário do que parece, o título desse post não se refere a um jogo de futebol, nem a nenhum outro jogo. Como comemoração aos 6 meses vivendo em Edimburgo, vou iniciar uma séries de posts contando alguns detalhes do dia a dia da vida aqui, fazendo um contraste com São Paulo, minha cidade natal. 

Vamos começar falando sobre a coleta de lixo. Aqui no Reino Unido, a coleta de lixo é muito organizada! Para começar, a prefeitura fornece 5 lixeiras diferentes (veja exemplos na imagem abaixo), uma para cada tipo de material:

  • Vidro: não é bem uma lixeira, é mais uma caixa de plástico sem tampa. Essa não tem uma cor específica, cada casa pode receber uma cor. Mas ela é fácilmente identificada pelo formato diferenciado.
  • Comida (crua ou cozida): é uma lixeira pequena da cor cinza - tem um exemplo na foto.
  • Recicláveis: é uma lixeira bem grande da cor verde (veja foto). Aqui, devemos colocar papel, papelão, garrafas de plástico.
  • Jardim: é igual a lixeira de recicláveis, mas da cor marrom.
  • Todos os demais: o formato da lixeira é igual o da lixeira de recicláves, mas a cor é cinza e ela é mais fina, propositalmente pensada para caber menos lixo. 




O caminhão de lixo passa uma vez por semana. Aqui no nosso bairro é na quinta-feira. Semanalmente, os restos de comida são levados embora. Já os recicláveis e não recicláveis são coletados a cada quinze dias, na forma de revezamento: numa quinta-feira leva-se o lixo reciclável e na outra quinta o não reciclável. O lixo de jardim é coletado uma vez por mês.

Para quem mora em casa, essas lixeiras não são fixas na rua. Elas devem ser guardadas no jardim ou em algum cantinho perto da sua casa. Daí, no dia de coleta, você coloca para fora, como indicado na foto. Para quem mora em apartamento, as lixeiras tem outro formato - são maiores - e ficam fixas na rua, mas a divisão da coleta seletiva é igual.

Aqui em Edimbirgo venta MUITO! Então, é muito comum perder a lixeira pequena de comida. O vento é tão forte que leva ela embora para um lugar que ninguém acha ou pode até quebrar. Nesse caso, a gente precisa ir no site da prefeitura e solicitar uma nova, que é entregue em poucos dias. O vento também costuma tombar as lixeiras grandes, e nesse caso o lixo que está lá dentro sai voando pela cidade. Vira e mexe encontramos um saco plástico preso numa árvore, culpa do vento.

Em São Paulo, não tinha nada disso! No bairro onde nasci e vivi a maior parte da minha vida (uns 28 anos), a coleta de lixo passava duas vezes por semana e não tinha coleta seletiva. A gente separava os materiais recicláveis em casa por conta própria e entregava para uma cooperativa.

Portanto, no questio coleta de lixo, pelo menos ao meu ver, Edimburgo (e o UK em geral) dá um banho de organização em São Paulo (parafraseando a senhora minha mãe). Por isso, o nosso placar de hoje é São Paulo 0 X Edimburgo 1.

No próximo post, vou escrever sobre o transporte coletivo. Depois me conta aqui nos comentário o que você gostaria de saber sobre Edimburgo, que daí eu preparo um post especial.


Abraços!

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domingo, 20 de fevereiro de 2022

Genocídio sem dissimulação

Resolver desavenças através do assassinato. Apesar de repulsiva e inconcebível, é inegável que essa alternativa é colocada em prática inúmeras vezes desde os primórdios da humanidade. Para os cristãos, o primeiro a recorrer a esse extremo foi Caim. Para os evolucionistas, o assassinato de desafetos é um impulso herdado de nossos antepassados.

Matamos por esporte. Não necessariamente como prática esportiva, mas por divergências no esporte. Basta que alguém torça para o time rival. Às vezes nem isso. Jogos com torcida única, comemorações de título, frustrações por derrotas, tudo pode virar palco para assassinatos.

Chegamos à proeza de desenvolver uma retórica para matar em nome da religião. Cunhamos o termo “guerra santa”, para matar em nome de quem morreu por pregar a paz. Tentamos justificar assassinatos, como se Jesus tivesse dito “trucidai-vos uns aos outros” ao invés do sempre lembrado, mas raramente praticado, “amai-vos uns aos outros”.

Como seres racionais que somos, desenvolvemos a política para negociarmos diante de divergências ao invés de partirmos para a guerra. Com o tempo surge a insana conclusão de que “política não se discute”, subvertendo a lógica de que política é discussão em sua mais pura essência – a alternativa é o combate.

A política, além de não ser suficiente para impedir os assassinatos, passou a ser mais um instrumento de justificativa. Desafeto político: mata. Dissidente político: mata. Adversário político: mata. Preso político: mata.

Criativos que somos, unimos argumentos distintos para enriquecer as justificativas dos assassinatos, como política e religião, em um casamento que costuma resultar em tragédias muito bem fundamentadas. A política garantiu a legalidade da escravidão, amparada pelo aval religioso de que negros não teriam alma.

No fim do século 19 a escravidão, ao menos teoricamente, foi abolida. O século 20 gerou uma postura menos dissimulada em relação aos assassinatos. Os fascistas, sucedidos pelos nazistas, não viam necessidade de muita justificativa e moldaram uma ideologia que pregava abertamente a eliminação de quem fosse diferente da suposta “raça pura”.

O resultado foi uma política de extermínio de alguns milhões de pessoas. Não chega a ser surpreendente, sobretudo com nosso histórico de apego ao assassinato para solução de problemas. Quase um século mais tarde, as ideias nazistas seguem seduzindo muitos adeptos. Muitos que curiosamente seriam assassinados pelo regime nazista, mas preferem acreditar que fazem parte da fajuta “raça pura”.

Depois de tantos contorcionismos retóricos para justificar assassinatos com ideias radicalmente contrárias à violência, chegamos à relativização contrária. Uma ideologia que nasce com o objetivo claro e manifesto de exterminar grupos de pessoas, com apoiadores sugerindo que apesar de ter sido idealizado com base no extermínio, ninguém será assassinado com base nas ideologias nazistas.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

tem um monstro que mora nas paredes da minha casa

São Paulo, sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022.

- tem um monstro que mora nas paredes da minha casa - Cristina Santos - post 21 - Blog das 30 pessoas - 


título: tem um monstro que mora nas paredes da minha casa

   Tenho, sem querer, nos últimos tempos me cortado com uma certa frequência. Todos acidentes. Vermelhos. Não sei o que acontece. Desconfio que seja culpa do monstro. É que tem um monstro que mora nas paredes da minha casa.
   Não me recordo do dia de sua mudança. Só sei que ele está ali. E ali. E ali também. Por todas as paredes a me observar.
   Respiro.
   E me aceito com a presença do monstro. Do monstro que mora em mim.


Oiê, Pessoal.
Até o próximo post.
Beijos,
Cristina Santos


P.S.: escrevi esse miniconto em novembro de 2017.  

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Dynamic earth

Esse final de semana fizemos um passeio muito interessante! Fomos visitar uma atração chamada "Dynamic Earth". Eu gosto de dizer que é uma espécide musei interativo, mas não é exatamente isso. É mais que um museu. É um espaço bem tecnológico e interativo, que tenta apresenta a história do planeta terra - como foi criado e se desenvolveu, e ameaças naturais (como super vulcões) ou humanas (como mudanças climáticas).

O mais incrível de tudo é ser uma atração baseada em ciência e com caráter educativo! Vimos pessoas de várias idades lá dentro, especialmente famílias com crianças pequenas. Fomos visitar num domingo e o local estava bem cheio, mesmo sendo um atração paga e não muito barata - o ingresso custou 16 libras.

De todas as coisas que vi, as que mais me chamaram atenção foram: um elevador que simulava uma nave espacial; um filme em 3D simulando uma aeronave voando por diferentes biomas; um mini iceberg - isso mesmo, uma pedra de gelo gigante dentro de uma sala, parecia um pedaço de um iceberg; um filme sobre super vulcões narrado pelo maravilhoso Benedict Cumberbatch (o ator que interpretou o Alan Turin no filme Jogo da Imitação e também o Doutro Estranho).

Com certeza é um lugar para visitar em Edimburgo! Encontrei um texto em português que explica melhor o que é esse local: https://www.edimburgo.net/our-dynamic-earth

Deixo também um vídeo (esse em inglês), que mostra algumas imagens do local.







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quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Não é hora de otimismo

O ano de 2022 já começou frustrando expectativas dos mais otimistas; classe que ultimamente já deve estar acostumada às frustrações. O vírus da Covid-19 mostrou logo que não está para brincadeiras e não deixará os aglomerados sem máscara em paz tão cedo.

Absorvida a frustração logo nas duas primeiras semanas do ano, é hora de olhar para o futuro com mais cabeça e menos coração. A 9 meses da eleição, teremos pela frente uma gestação de risco, que exige cuidados e acompanhamento rigoroso.

Em condições normais o presidente não será reeleito. Porém, em condições normais ele não teria sido eleito. Em 2018, as ações de Sergio Moro foram fundamentais para uma democracia de fachada, assim como o apoio que o atual presidente recebeu de pessoas que fizeram vista grossa para as atitudes racistas, homofóbicas, machistas, além do apoio à tortura e à ditadura, entre tantos sinais gritantes da incapacidade do então candidato.

Neste ano Sergio Moro pretende concorrer à presidência como se não tivesse feito nada de errado e como se suas falcatruas não tivessem sido desmascaradas pela Vaza Jato. Muitos dos que apoiaram a eleição do presidente alegam terem se enganado e também pretendem concorrer à presidência.

Políticos que dizem ter acreditado no presidente ou agiram de má-fé, e por isso sequer deveriam estar na política, ou foram inocentes a ponto de acreditar em uma pessoa que afirma categoricamente ser favorável à tortura, e por isso sequer deveriam estar na política.

Para esta eleição o presidente não conta com estes preciosos apoios, não conta com o respaldo de um bom governo, não conta a suposta competência do “posto Ipiranga”, não conta nem com a exploração da facada de 2018. O camarão das férias de fim de ano deixou claro que insistir nas consequências da facada já não comove, além de mostrar que o presidente não sabe fazer certas coisas, como mastigar.

Fica cada vez mais claro que, perdido por perdido, o presidente seguirá os passos de Donald Trump, inflamando a militância mais radical, para investir no caos e tentar tirar algum proveito.

Em nosso favor, ao que tudo indica, teremos uma diferença expressiva de votos entre os candidatos. Trump obteve pouco menos da metade dos votos, o que indica que quase metade dos eleitores queriam sua reeleição. Aqui o apoio gira em torno dos 20%. É muito se pensarmos na qualidade do atual governo, mas pouco para indicar a vontade da maioria.

Por outro lado, o funcionamento das instituições será posto à prova. As mesmas instituições que fizeram vista grossa para todas as insanidades do presidente, quando ele ainda era uma piada de mau gosto.

A lição para este ano já foi dada pelo vírus da Covid-19 logo no início. Não podemos nos apegar ao otimismo e esquecer das medidas necessárias para combater um perigo traiçoeiro. Vale para o vírus. Vale para as eleições.

sábado, 15 de janeiro de 2022

Quando o governo leva a pandemia a sério

Pessoal, feliz 2022 para vocês!!!

Passamos o réveillon com aqui em Edinburgh mesmo com dois amigos brasileiros. Um deles mora aqui, o outro veio visitar e voltaria para o Brasil logo após o ano novo. Como procedimento padrão, seria necessário fazer o PCR alguns dias antes da viagem. Esse amigo tomou vários cuidados pré-viagem, evitou encontrar pessoas e aglomerar. 

O exame PCR estava agendado para 31/12/2021. Antes de ir coletar o PCR, ele fez um exame rápido (aqui chamado de lateral flow), que deu negativo. Então, ficamos tranquilos e fomos encontrar com ele para passar o réveillon juntos. 

Dois dias depois, o resultado do PCR chegou: positivo!!! O cara estava sem sintomas, o lateral flow deu negativo, mas o PCR deu positivo. Lucas e eu fomos imediatamente fazer um lateral flow também, que felizmente deu negativo. No dia seguinte, recebemos um e-mail do NHS (o SUS daqui) informando que nós éramos contatos próximos de alguém com COVID e por isso tínhamos a obrigação legal de nos isolarmos por 10 dias. O e-mail também dizia que se suspeitassem que estávamos desrespeitando o isolamento, a polícia poderia ser acionada! A gente também precisava fazer o exame PCR. Recebemos o kit de coleta na nossa casa e nós mesmos fizemos a coleta do SWAB nasal. Como estávamos em isolamento, não poderíamos entrar nos correios (aqui chamado de Royal Mail). Mas aqui é tão moderno que tem um lugar especial para depositar a correspondência (vejam foto). Então, eu fui até lá levar a nossa amostra biológica, que seria analisada pelo NHS. O resultado chegou por e-mail em dois dias e também foi negativo.



Outra coisa legal é que esse teste rápido - lateral flow - é distribuído gratuitamente. É possível retirá-los em alguma farmácia ou fazer um pedido pelo site do governo e daí entregam na sua casa. O lateral flow serve para pessoas sem sintomas que pretendem encontrar algum grupo de pessoas. Por exemplo, tive que ir para uma reunião presencial da universidade. Como eu estava sem sintomas, fiz o lateral flow, que deu negativo, então eu estava liberada para ir no encontro presencial. Se o lateral flow fosse positivo, eu obviamente não teria ido ao encontro. E, obviamente de novo, seu eu estivesse com sintomas também não teria ido ao encontro. Outro exemplo: o eletricista virá aqui em casa fazer uma vistoria. Como estaremos em casa quando ele vier, nós dois teremos fazer o lateral flow um dia antes da visita. Se o resultado der positivo, teremos que cancelar a visita.

Cada vez que fazemos um lateral flow, devemos cadastrar os resultados no site do governo. Não importa se o resultado foi negativo, positivo ou inconclusivo. Temos que reportar!

Ficaram impressionados? Eu também!!! Dá gosto morar num país que leva a pandemia a sério.

Até breve!
Jacque.


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quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Pântano

Conversando com uma pessoa de outro país, ela me disse ''que maravilhoso deve ser morar em um país tropical''.

Obrigada pela lembrança! Eu não estava atenta a esse detalhe, moro em um país tropical.
Na verdade me sinto morando um pântano, por mais assustador que possa parecer. 
Quando penso que conquistei algo ou as coisas melhoraram, afunda tudo.

Me dizem que a economia global é assim mesmo, gera essa insegurança, culpa da pandemia.
Mas eu nasci há décadas, não tinha nenhuma pandemia e ainda assim parecia um pântano.

Hoje me sinto ridícula. No ano novo respondi as mensagens das amigas dizendo que seria um bom ano, já estamos todas vacinadas, imunizadas, reforçadas e plenas. Eu falei ''gente, esse ano vai ser bom''. Agora sinto que menti. Como saber se o ano vai ser bom? Foi um comentário precipitado. 

Eu sei que faltam ainda onze meses, mas já bateu um desânimo, um desespero. 

Precisamos dessa vacina também, contra o desânimo, a frustração de ver como as coisas andam politicamente e economicamente neste país. 
É um desgaste viver assim, em um pântano. Em um país que deveria ser tropical, um paraíso na Terra, um santuário para a humanidade.

Amanhã vai ter sol, talvez isso me anime um pouco. Os dias têm sido cinzas e chuvosos, nada que anime uma alma cansada.
Sol, é isso que falta. Mas não é só isso que precisamos. 
Falta cor, alegria, paz. Falta vida. Falta justiça.
Mas ainda temos onze meses pela frente. 
Coragem. 
Seguimos.






quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Livros lidos em 2021


1.       A senhora das velas (Walcyr Carrasco – Brasil)

2.       O feijão e o sonho (Orígines Lesssa – Brasil)

3.       O meu pé de laranja lima (3ª leitura) (José Mauro de Vasconcelos – Brasil)

4.       O caranguejo (Liniane Brum – Brasil)

5.       As louras da minha vida (Fernando Neves - Brasil)

6.       Se eu tivesse meu próprio dicionário (Ni Brisant – Brasil)

7.       Perdoa-me por me traíres (Nelson Rodrigues – Brasil)

8.       A serpente (Nelson Rodrigues – Brasil)

9.       Valsa nº 6 (Nelson Rodrigues – Brasil)

10.   Do amor e outros demônios (Gabriel García Marques – Colômbia)

11.   Ira: Xadrês, truco e outras guerras (José Roberto Torero – Brasil)

12.   Perifobia (2ª leitura) (Lilia Guerra – Brasil)

13.   O boxeador polaco (2ª leitura) (Eduardo Halfón – Guatemala)

14.   Pássaros na boca (2ª leitura) (Samanta Schweblin – Argentina)

15.   Cartas para a minha mãe (Teresa Cárdenas – Cuba)

16.   Doce inimiga minha (Marcela Serrano – Chile)

17.   Espaços Íntimos (Cristina Perí Rossi – Uruguai)

18.   Memória por correspondência (Emma Reyes – Colômbia)

19.   Mulheres de olhos grandes (Ángelles Mastretta – México)

20.   Desde os anos 2000: minha vida (Mauricio Salles Vasconcelos – Brasil)

21.   A vida secreta dos escritores (Guillaume Musso – França)

22.   Se Deus me chamar não vou (Mariana Salomão Carrara – Brasil)

23.   A vida pela frente (Romain Gary – França)

24.   Acre (Lucrecia Zappi – Brasil)

25.   Rua do Larguinho (Lilia Guerra – Brasil)

26.   A vida não é útil (Aínton Krenak – Brasil)

27.   Apresentação do rosto (Herberto Helder – Portugal)

28.   O pai da menina morta (2ª leitura) (Tiago Ferro – Brasil)

29.   E se eu fosse puta (Amara Moira – Brasil)

30.   Moloy (Samuel Beckett – Irlanda)

31.   Malone Morre (Samuel Beckett – Irlanda)

32.   O inominável (Samuel Beckett – Irlanda)

33.   O fogo e o relato (Giorgio Agamben - Itália)

34.   Copo Vazio (Natália Timerman – Brasil)

35.   Suíte Tóquio (Giovana Madalosso - Brasil)

36.   O quarto branco (Gabriela Aguerre - Brasil)

37.   O fim da história (Lydia Davis – EUA)

38.   Pequena coreografia do adeus (Aline Bei – Brasil)

39.   A pediatra (Andrea del Fuego – Brasil)

40.   Tudo pode ser roubado (Giovana Madalosso – Brasil)

41.   É sempre a hora da nossa morte amém (Mariana Salomão Carrara – Brasil)

42.   Três porcos (Marcelo Labes – Brasil)

43.   Agora aqui ninguém precisa de si (Arnaldo Antunes – Brasil)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

O filho de Maria

O Natal de Maria sempre foi no dia 26 de dezembro. Lembra, quando criança, do pai consertando pisca-piscas encontrados em meio às toneladas de lixo que chegavam no aterro. “É coisa simples, uma gambiarra resolve.” E lá estavam as luzinhas coloridas alegrando o cômodo dividido por toda a família.

A ceia sempre foi recolhida, nunca escolhida. Ainda assim dava para considerar um banquete, comparada aos outros dias do ano. Em outros tempos chegou a ganhar um panetone da patroa. Não daqueles chiques, que ao cortar um pedaço o recheio escorre pela massa, mas procurando bem, o presente tinha até uvas-passas.

Neste ano o jeito foi recorrer à tradição familiar, que Maria passou para os filhos. Ela considerava uma questão de sorte. Teve ano que a sorte estava ao seu lado e encontrou, de uma vez, um frango assado inteiro. Parecia que ninguém havia tocado. Na mesma sacola estavam as sobras de um pudim de leite, bem ensacado para não vazar. Deu para dividir entre todos.

Ultimamente a sorte não costumava brilhar. A cada ano ficava mais difícil encontrar comida para montar a ceia e Maria ainda tinha que lidar com a rebeldia do filho, que considerava injustiça revirar o lixo para ter o que comer. Foi justamente ele que encontrou a árvore de natal que enfeitou a casa até o Dia de Reis.

Ao ver a pequena árvore ao lado de uma imagem do Papai Noel e a frase “seja rico ou seja pobre, o velhinho sempre vem”, enfeitada com notas musicais, o filho de Maria discordou. Nunca ganhou nada do que queira e ainda tinha que revirar o que era jogado fora.

Para ele, o amor, que tanta gente evoca nesta época do ano, não era notado nas expressões de raiva dos motoristas, nos carros que paravam no semáforo. Muito menos no rigor dos policiais, que atuavam para “manter a paz”. O filho de Maria tinha uma ideia muito distinta de amor e paz. Escolher entre fugir ou morrer não combinava com nada do que ele idealizava.

Na semana do Natal, Maria juntou as moedas de toda a família. Não abria mão de comprar pelo menos um refrigerante, já que só as embalagens de bebidas chegam ao aterro. Os protestos do filho foram contornados com rigor. Deveriam ficar para o dia seguinte, para que pelo menos um dia do ano a família passasse reunida para uma celebração.

Coube ao filho de Maria, quase como um castigo pelos protestos, repartir a comida e servir a bebida. Não foi fácil servir a todos. A vontade era de multiplicar as pequenas porções para que todos pudessem comer até se sentirem satisfeitos, transformar a água em uma bebida melhor que o refrigerante barato que encheu os copos. Ainda suspirou quando teve que chacoalhar a garrafa para que a última gota pingasse no último copo, ainda pela metade. Encontrou o olhar de Maria. “Não reclama, menino. Tanta gente que vai dormir com fome hoje.”