Assim, decidiu que naquele dia manteria todas as janelas fechadas. Tomou seu café, assistiu o noticiário, cumpriu seus deveres com o trabalho, fez um bom almoço, escutou música por algumas horas, preparou um chá no fim da tarde, e à noite, preparou o jantar, tomou um vinho, um banho e se deitou. “Amanhã será melhor”.
Na manhã seguinte, a luz do dia precipitou-se por entre as frestas da janela, e mais uma vez ela decidiu que não a deixaria entrar. E assim se foram dois, três, quatro dias, uma semana, um mês, um ano, ou vários deles, já não se lembrava. As janelas permaneceram fechadas.
A vida passou repetida, os mesmos momentos, o isolamento, o resguardo, as tristezas abafadas, os fracassos engavetados, o medo de amanhecer no dia seguinte com o propósito de abrir as janelas, ser melhor do que no dia anterior e fracassar. As janelas fechadas a poupavam de tudo isso, poderia ser ela com ela mesma, fazendo planos imaginários, travando diálogos encorajadores, realizando tudo o que sonhava, sem precisar se preocupar com o que vinha junto com toda aquela luz dos dias que se passavam lá fora.
Mas nada é imutável.
Certo dia acordou, sem saber precisar há quanto tempo as janelas estavam fechadas. Olhou-se no espelho da penteadeira é só então sentiu que havia envelhecido ali, no escuro, sob as luzes artificiais. Aproximou-se da janela, passou os dedos sobre a madeira já empoeirada, segurou a tranca e a abriu apenas um pouco. Um leve rangido ecoou e ela sentiu o ar muito frio e úmido invadir seu quarto e tocar seu rosto. Teve medo. Impulsivamente bateu a janela e voltou a trancá-la com toda a força.
Chovia demais lá fora, não parecia seguro. Amanhã tentaria de novo.
