Mostrando postagens com marcador Fernanda Lopes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fernanda Lopes. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de janeiro de 2021

Crônica da vida real


Faz muito tempo que deixei de escrever e tomar a escrita como minha mais sincera expressão. Não sei dizer exatamente qual foi minha última criação. Entretanto, esse era um dos maiores prazeres que eu tinha, passava horas escrevendo em cadernos, antes mesmo dos computadores de mesa serem itens comuns nas casas das pessoas, e ficava ansiosa para a cada término de capítulo de um novo livro, ou mesmo da ideia do tal livro, ler para todos da minha família. Talvez tenha deixado de lado esse prazer quando comecei a ser consumida pela urgência das obrigações do “ser adulta”, seja lá o que isso quer dizer; mas o fato é que o desenrolar da vida foi ficando cada vez mais urgente e foi ocupando quase que a totalidade das minhas preocupações diárias e eu fui perdendo o encanto em criar novas histórias.

Claro que não me distanciei em absoluto disso, pois o trabalho que escolhi, cientista política e pesquisadora, oferece oportunidades ímpares para momentos de reflexão e posterior escrita, o que acaba por me aproximar muito de mim mesma. E foi num destes momentos, como tantos outros na vida, em que somos surpreendidos por insights que trazem em si o poder de gerar sementes a serem cultivadas (ou não) que a ideia central deste texto surgiu. A princípio como um pensamento que me rondou por dias, depois como um texto corrido no celular, daqueles que a gente escreve no momento que vem a inspiração. Sinta-se livre para entender como achar melhor, mas me deixa muito confortável interpretar este ocorrido como uma crônica da vida real.

Um dia, discutindo com meu antigo grupo de trabalho, em uma pesquisa sobre a saúde de adolescentes e jovens, acabamos nos deparando com algumas questões surgidas de uma discussão com os jovens, em que foram abordados, entre outras questões, os incômodos da famigerada pergunta “O que você vai ser quando crescer”, ao que um/a deles/as pontuou algo do tipo “Como assim o que eu quero ser? Eu JÁ não sou alguém?”. Essa observação tão profunda da existência (embora ele ou ela não tenha classificado sua frase como uma) foi suficiente para levantarmos, em um grupo de profissionais tão sensíveis ao impacto dessa colocação, questões muito mais abstratas sobre “ser” que fogem completamente do nosso raciocínio usual, e no meu caso em particular, de alguém que busca o melhor desenho para políticas públicas. Lembrei imediatamente do conto “O Espelho” de Machado de Assis, que havia lido na minha adolescência, embora naquele momento eu sequer lembrasse o título para dizer, pois ele havia ficado entre aquelas memórias de escritora que foram se apagando ao longo do tempo.

O meu comentário, naquele momento do calor da discussão, parecia fazer todo o sentido, pois lembrava com toda a clareza do mundo que o tal conto tratava da história de um “não me lembro qual patente” (hoje sei que era alferes da Guarda Nacional) que não podia mais se reconhecer sem a farda quando se olhava no espelho. O momento passou, a ideia desapareceu na pressa da vida e não muito tempo depois, na frenética e superficial visualização de posts da timeline do Facebook, eis que surge o título do conto, que havia sido adaptado a uma peça de teatro que fazia ali sua divulgação, e eu com tempo para sanar as dúvidas, corri até a estante da sala para buscar na coleção de livros do Machado - que meu pai com tanto orgulho fez para mim e minhas irmãs - o livro Papéis Avulsos II, em que se encontra o tal conto.

Confesso que reli muito mais pra afagar meu ego - pois havia ficado maravilhada por ter tão oportunamente ressuscitado o Jacobina (esse é o nome do personagem), naquele momento da discussão e precisava ter certeza de que não havia dito nenhuma bobagem - do que propriamente pelo prazer de reler Machado depois de tantos anos esquecido naquela prateleira. Ingenuidade! Não porque a história não se trata do que eu achava que fosse, de fato é, mas porque não foi eu que reli o conto, e sim ele que me releu. Parei para pensar naquele diálogo mudo que se dava na transcendência dos séculos entre o Machado e aquele/a jovem da pesquisa e percebi a quantidade de papéis e títulos que fui adquirindo ao longo da vida e que, de alguma forma, foram obscurecendo minha imagem sem a “farda”. Mas então, o que sou?

Qualquer apresentação que eu faça de mim mesma vem sempre iniciada com as minhas funções sociais, seja em que dimensão elas se encontrem mas, sobretudo, aquelas que pertencem ao mundo do trabalho: meus títulos e onde foram conseguidos, o que faço, desde quando, o que já publiquei. Mas é isso mesmo o que me define? O mais complexo quando se atenta a isso é continuar e tocar em frente sem a devida reflexão de sua totalidade depois de um mea culpa, pois ficou evidente que em um dado momento eu deixei de ser o que sou para me tornar o que estou.

Indo mais a fundo, percebo que isso realmente está impregnado em todos os setores da vida: a gente se torna o romance que fracassou, o montante de dinheiro que temos no banco, o carro que dirigimos, os ambientes que frequentamos, etc, etc, etc. Obviamente que acredito que nossa compreensão e interpretação da vida, do que é bom e o que não é, por exemplo, são moldadas de acordo com nossas experiências, sem o que seríamos incapazes de nos posicionar e nos mostrarmos ao mundo, ou mesmo tomar decisões futuras e nos auto preservar. Mas, para além disso, quando nos despimos de tudo, muitas vezes fica a sensação de que não sobrou nada, já que nos acostumamos a viver na superfície e não na essência.

Mas, retomando a razão que me fez começar dizendo que não escrevo há muito tempo, quando reli o conto do Machado percebi duas coisas muito importantes. A primeira é que ele sempre foi uma inspiração muito forte, mas tão forte, que durante muito tempo, lá na metade dos anos 1990 e início de 2000 eu acreditava que eu poderia escrever como ele, exatamente como ele, com uma linguagem própria do seu tempo e assim me tornar uma ótima escritora. A segunda e mais importante para o contexto, é que escrever sempre esteve na minha essência, ainda que sejam meus atuais textos acadêmicos, e considero que este seja apenas um dos diversos traços do meu "eu real" que andou adormecido e, além disso, tendo a acreditar que a grande arte da vida é encontrar e despertar todos eles, já que estão invisíveis na imagem que o espelho nos devolve todos os dias. Por isso, acho justo utilizar essa “mini-crônica da vida real” para prestar minhas sinceras homenagens ao Machado que me influenciou e continua influenciando até hoje, além de convidá-los/as a ler o referido conto, e também provocar os que lerem este texto a refletir sobre o que SOMOS quando não ESTAMOS sendo nós mesmos/as.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Crítica de um filme que eu queria ter escrito

Há pouco mais de dois meses decidi levar a sério minha paixão por roteiro de documentário. Em um texto anterior aqui do blog falei sobre as linhas da vida, e neste caso em particular, mais uma vez sou obrigada a reconhecer esse emaranhado que vai tecendo a gente, e explico a razão. Sem querer, recuperei meu TCC no site da Universidade e pra muito além do que eu lembrava sobre ele, dediquei, se não me engano, dois capítulos ao gênero documentário, sendo que minha única lembrança era tratar do Regime Militar. Claro, que essas construções não se dão ao acaso, sempre gostei muito de documentários, mas nunca pensei em realmente levar isso a sério.

Muito honestamente não consigo ver beleza na quarentena diante da razão pela qual ela foi imposta, mas não posso deixar de reconhecer que ela tem possibilitado um profundo encontro comigo mesma, mergulhada muitas vezes na dor, no medo, ou na pura tristeza de sentir o estado das coisas atuais. Recuperei muitas coisas neste (re)encontro, e uma delas, além do meu TCC, trata-se de um pequeno texto que criei, creio que em 2013/2014, para ser a crítica de um filme que eu mesma queria fazer. Meu real interesse atual não é no roteiro de ficção, mas encontrar este texto fez com que eu percebesse o quanto sempre reconheci (inconscientemente) minhas escolhas e, principalmente, o quanto a força do feminino sempre esteve em meu horizonte criativo.

Dia 24 de dezembro, sete dias para 2021, 1 mês do meu aniversário. Muitas simbologias para a retomada de tantas paixões adormecidas, na promessa deste novo ano que aguardamos com tamanha expectativa como nunca antes. Partilho, portanto, a “Crítica de um filme que eu queria ter escrito”, na esperança de novos recomeços para todos/as nós.

_________

Filme: Entre Sombras

Um drama existencialista francês que nos convida a observar a passagem do tempo e a revelação das sombras escondidas na alma a partir das cartas escritas por Georgine (Isabelle Lebrun) para sua neta Alaine (Lilou Garlen), entregues à família após a sua morte no hospital psiquiátrico. Nelas, mais do que a visita ao passado, a neta revive os principais acontecimentos da vida da avó, que a levam a perceber através do diálogo com o tempo, um espelho para entender a sua própria história.

 

Gerações de mulheres

A cineasta argelina radicada na França, Amina Mas’oudapresenteia o público com mais um longa sensível e enigmático que exalta “la douceur féminine”, a partir do legado de vida que percorre as diferentes gerações de mulheres da família Sorell. Entretanto, para Amina, essa doçura “não é e nunca poderá ser esvaziada da força que essas mulheres carregam ao questionarem os padrões sociais, culturais e políticos de suas épocas. É um filme atemporal, porque ainda hoje vivemos muitas das angústias que nossas bisavós viveram”.

Além de uma fotografia formidável que traz um constante contraste entre a França dos anos 1960 e a dos tempos atuais, o que é por si só é um dos elementos mais fascinantes do longa, o roteiro merece destaque, pois exigiu 7 anos de pesquisa para ser concluído. Ele foi escrito a partir de uma série de entrevistas realizadas pela equipe, em que diferentes gerações de mulheres francesas foram convidadas a dividir suas dores e conquistas ao longo de suas trajetórias, inclusive a própria Amina. “Georgine e Alaine não são mulheres desconhecidas, ou criadas aleatoriamente, não, somos minha avó e eu, de quem sempre ouvi histórias e com quem aprendi a ser quem eu sou hoje”, disse a cineasta durante o lançamento do filme.

Para fãs e críticos, esse é o resultado do trabalho que Amina tem realizado ao longo de 20 anos com mulheres imigrantes na França através de seu projeto “Qui nous sommes?”, que busca inserir estas mulheres na sociedade francesa ao mesmo tempo em que resgatar e preservar suas próprias culturas e individualidades, “muitas das entrevistadas estão do QNS? e ficaram muito felizes em saber que suas próprias histórias virariam o roteiro de um filme”.

Trata-se de uma verdadeira obra de arte que vale a pena ser assistida, a história das histórias, com o poder de fazer com que questionemos a nós mesmas.

sábado, 24 de outubro de 2020

Pulso (um texto sem fim)

Há algo que subsiste à vida e à morte. Algo que está além do que é ser humano e de tudo aquilo que se pode perceber com os sentidos. Um invisível que se embrenha entre os carros em alta velocidade que cortam as avenidas e que também atravessa as pessoas que caminham pelas calçadas. Há “um algo” que justifica a dor, o amor e permeia todos os pensamentos mesmo quando não é pensado. Que não tem som, cor ou cheiro, simplesmente está lá porque, por alguma razão desconhecida, deve estar, e mesmo que não se explique por nenhuma razão que somos capazes de acessar, simplesmente o é.

Algo que dá sabor ao vinho, melodia às músicas, poesia às palavras. Algo que é transcendente e não se materializa pelo trabalho, nem pela tecnologia e que por isso não está em nenhum lugar que se busque, e ao mesmo tempo está em todos os lugares. Mas não tem crença, nem prisão, chega mesmo a ultrapassar o entendimento da fé. Que tece laços e une pessoas, persiste, que sobrevive a tudo, até mesmo ao tempo, porque quanto tempo já se passou desde que “nos tornamos humanos”, transformando hábitos, valores, ordens e castas... quantas coisas passaram e quantas outras apareceram, mas esse algo persistiu, atravessou os séculos. Isso que digo, evoco e não entendo, está além da apreensão dos sentidos e dos significados e por isso não pode ser descrito nem neste e nem em qualquer outro texto, que de tão abstrato nos move e nos traz (inconscientemente?) o desejo de continuar a sentir todo esse inexplicável que é viver, ainda que em sua incompletude.


quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Narrativa do silêncio

Tem momentos em que a inspiração para escrever flui livremente, fica até difícil acalmar as ideias e organizar as palavras. Em outros, parece haver um vazio, como uma nuvem silenciosa que fica parada sobre a cabeça sem nem trovejar e nem dar espaço para o sol aparecer. Tive várias ideias sobre o que escrever este mês. Foram insights nascidos a partir de documentários geniais que assisti, de livros emancipadores que li, fotos antigas de família que resgatei, retratadas em uma época que eu não era nem uma previsão de futuro. Fiz planos de pesquisar e escrever sobre a Guerra de Canudos e Antônio Conselheiro... peguei e guardei “Os Sertões” por três vezes, sem passar das primeiras páginas, e no caldo destes estímulos procurei a certidão de casamentos dos meus avós maternos dos quais percebo hoje, sempre me ocupei pouco.

“Minha [mãe] era paulista, meu [avô] baiano”, de Juazeiro. Nunca soube muito sobre ele, sei que era lavrador e descendente de espanhóis. Para além disso, o pouco que sei começa já na sua história conjunta com a minha avó, nascida em São Simão, interior de São Paulo, uma mulher negra, filha de uma geração de filhos de escravos. A certidão de casamento “refere e dá fé”, que a união civil se deu em 22 de outubro de 1938. Lembro de ouvi-la dizer algumas vezes, como se não se importasse muito, o preconceito implícito que pairava sobre seu casamento com um “homem branco de olhos claros”. De qualquer modo, não sei muito mais além disso, como por exemplo, como se conheceram, as dificuldades que enfrentaram, embora saiba que não foram poucas, pois eram muito simples, moraram por muito tempo em fazendas das quais meu avô tomava conta, tanto em São Paulo quanto no Paraná, e nas quais minha avó trabalhava nas colheitas. Pelo que sei, foram muito felizes e minha avó sempre expressou grande saudade da convivência dos dois, já que ele morreu em 04 de janeiro de 1965 quando já moravam no núcleo urbano, em Guarulhos, onde eu nasci. Ainda que os filhos - com exceção de minha mãe que era criança - já fossem adultos, minha avó criou netos e bisnetos, lavando roupa para fora. Escrever? Apenas o seu nome, e em uma grafia muito precária.

Olhar para essa história me fez pensar na ausência da narrativa escrita, do quanto perdemos de nossas origens em razão da morte daqueles que as poderiam tão bem relatar, mas que não puderam a escrever antes, como um registro histórico. Minha avó morreu já em 2009, com 98 anos, quando morávamos em Curitiba e, embora tenha vivido muitos anos ao seu lado, ela não falava muito do seu passado. Hoje penso isso a partir do silenciamento da mulher, sobretudo a mulher negra e pobre, como era o seu caso. Uma das lembranças mais claras que tenho, é que ela sempre falou muito baixo, pra dentro, dizendo como se não quisesse dizer, guardando tudo para si, e o que sempre pareceu um traço de personalidade, hoje pra mim soa mais como a internalização de uma compreensão do papel da mulher que foi construída ao longo de uma trajetória em que sua voz não era solicitada, pelo contrário, era silenciada.

Foi silenciada pelo pai, que como ela contava, era rígido e não a deixou frequentar a escola; silenciada pela obrigação de criar os irmãos quando sua mãe faleceu; silenciada pelo julgamento por se casar com um homem branco; silenciada inclusive na foto que ilustra este texto, expresso na tentativa de embranquecer sua pele negra retinta; silenciada quando não possuía meios de subsistir na metrópole a não ser lavando roupas em meio às frequentes crises de asma; silenciada em conjunto com uma massa urbana pobre que habitava os cortiços; silenciada pelas violências sofridas por filhos e netos; silenciada por não perceber que poderia sim, reclamar, ainda que uma vez ou outra.

Muito provavelmente esse não seria o resumo que ela faria de sua vida, é unicamente a minha percepção, conformada em um contexto completamente diferente daquele em que ela viveu, em uma tentativa de encontrar uma narrativa que dê conta dessas vidas que hoje se confundem a tantas outras situadas historicamente e que só fazem sentido quando olhadas por esta perspectiva. Recontar (muito mal, reconheço) essa história me ocorreu quando assisti um documentário sobre Clementina de Jesus, “lida” como o “elo perdido entre a cultura brasileira e as raízes africanas”. Vejo muito de minha avó ali, suas histórias sobre as músicas cantadas nas fazendas, o costume do cachimbo partilhado na varanda, o “bater” as roupas no rio, o lenço na cabeça como proteção e respeito, entre uma gama de outros ritos, linguagens, costumes e modos de vida que foram se apagando no decorrer do tempo-história e que somente ela poderia narrar fidedignamente. Mas ouvindo Clementina falar, bem como as falas sobre Clementina, tive vontade de integrar a essa história afro-brasileira (que tem se tornado um dos achados mais bonitos da minha vida) a história da minha avó, e embora não tenhamos o privilégio de ouvi-la falar ainda hoje, talvez possa ser registrada através do meu olhar, de quem deseja que sua vida não seja apagada, na tentativa de oferecer, finalmente, direito à sua fala e toda potência que ela traz para os dias atuais, em que continuamos assistindo a mesma trajetória se impôr para muitas mulheres negras e pobres, cotidianamente silenciadas.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Para onde vão as memórias?

Dia desses fiquei observando-a sentada no sofá enquanto atentamente corria a agulha por entre os pontos formados pela linha. Estava fazendo crochê. Fiquei ali por uns quatro minutos, revivendo tempos passados quando ela dedicava-se a algum tipo de artesanato nas pausas de suas tarefas, das quais, muito provavelmente, ela não se lembra mais, e só consegui pensar para onde vão as nossas memórias quando a gente perde a capacidade de lembrá-las. Pensei que talvez elas se percam num limbo metafísico, daquilo que foi e já não é, porque não é acessado senão pelo sentimento, ou talvez fiquem guardadas em algum outro lugar que resiste ao tempo porque conformam concretamente o que somos, e não há maior concretude do que ser, ou não, já não sei. Seria quase o mesmo que pensar para onde vai o tempo que passou, e não faz muita diferença se lembramos ou não dele, mas quando é possível lembrar, de alguma forma ele existe, e se nunca mais for lembrado?
Fiquei pensando nisso ao longo do dia, e só à noite, depois de alguma reflexão, percebi que a resposta dava-se por si mesma, pois têm coisas que nunca se perdem: não era ela quem fazia o crochê, mas sim o contrário. Ela aprendeu com a minha avó, que deve ter aprendido com minha bisavó e assim por diante, e por mais que em algum momento da minha infância eu também tenha aprendido, hoje não me lembro mais como fazer, mas lembro bem da carga afetiva que traziam aqueles momentos em que as gerações se reuniam no quintal de casa para tramarem juntas aquelas peças, e ainda trazem.

Sinto constante necessidade de reconhecer nela vestígios daquela força e criatividade e confesso que ela voltou a fazer crochê por incentivo meu, pois já nem se lembrava dos barbantes esquecidos no armário. Hoje é mais difícil, faz, refaz, faz errado, volta, perde a página da “receita”, me chama pra ajudar, faz de novo e quando volto a “fiscalizar” está no início mais uma vez. Mas apesar da tristeza que sinto ao perceber essas dificuldades, é fascinante ver como as memórias se resgatam naquele fazer em que linha e agulha tramam sua própria história e ancestralidade, resgatando as lembranças daquilo que não se perde porque se transmite pelo amor. Ali, entretida em seu trabalho, por diversas vezes chegou a se lembrar do pai, das tias, dos frutos mais bonitos que ficavam no alto dos pessegueiros e eram difíceis de ser alcançados.

Minha avó fez crochê até uma idade avançada. As últimas peças não ficaram perfeitas como as que havia feito ao longo da vida, a visão já estava dificultada, mas minha mãe as guardou, incapaz de dizer que estavam erradas. Só parou quando a cabeça assim a impôs, não percebia que já não passava a agulha pela linha construindo pontos, simplesmente tomava os bolos de sobras e as enrolava até dizer que estava cansada de fazer crochê, guardava tudo na sacola para dali a quinze minutos voltar a tomar as linhas novamente em suas mãos, como se aquilo fosse a única coisa que preenchesse o vazio de lembranças presentes. Não sei se, ou quando, isso irá acontecer com a minha mãe, temo que vá, mas espero ter tempo bastante para que ela possa continuar a tecer essas tramas que nos ligam de forma tão simples e ao mesmo tempo tão complexa, pra que ela possa seguir enfeitando a sala, o banheiro, meu quarto e a minha vida.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

As teias da vida

E de repente... ali estávamos nós. Depois de tantos anos nos reencontramos com tal intimidade de quem nunca havia se separado. Foram tantos livros começados, difícil até reordenar as folhas soltas escritas à mão no papel já amarelado. Mas também estavam aqueles “filhos da tecnologia crescente”, impressos, bem grampeados, mas com algumas rasuras feitas em caneta preta com indicação das páginas que deveriam ser reimpressas. Tantos capítulos 1, incontáveis enredos de histórias, o mesmo sobre as personagens bem descritas (idade, cor dos olhos, nacionalidade, ocupação, traços da personalidade)... e que saudade de quando eles ocupavam grande parte dos meus dias nas horas vagas da escola. E eram muitos!

Hoje à tarde todos eles me fizeram companhia, revistei aquela Fernanda que, aos 11 anos, escreveu um romance adolescente (esse terminado!) chamado “Dias de Tempestade”. Também a Fernanda que 1 ou 2 anos depois rascunhou suas primeiras impressões sobre a política brasileira como algo a ser explorado, em um esboço que ainda tem uma linha de título a ser preenchida, e que seria uma história contada durante o Regime Militar. O primeiro capítulo, chamado "Manifestando Idéias" (sim, ainda era acentuado), tomava lugar em 1964, na Praça da Sé, e tinha em seu primeiro parágrafo “Era um domingo de sol, uma barulhenta manifestação reunia estudantes e trabalhadores. Era a época do regime militar, conhecida como Ditadura. Foi uma reunião de decretos, repressão policial e intimidação política. Época em que se modificaram as leis trabalhistas, as censuras teatrais, literárias, e principalmente a imprensa. Foi também aí que apareceram revoltas, comícios para todas as opções e uma grande queda no fim da indústria do café”, sendo que esta última frase aqui grifada, foi atenciosamente colocada entre parênteses com um ponto de interrogação ao lado, como fazem os professores dedicados não somente a corrigir mas, sobretudo, incentivar seus alunos, como o fez minha professora de português na época, a quem pedi uma leitura da minha “mais nova grande obra”.

Hoje, revisitando esse texto, num momento em que venho tentando deixar fluir essa energia criativa engavetada por tantos anos, percebo que a mágica repousa justamente na ingenuidade daquela menina de 13 anos que misturou a Era Vargas com o Regime de 1964. Quanta coisa mudou desde aquela época! Talvez aquela menina nunca pudesse imaginar seus futuros caminhos, não fazia ideia que se dedicaria a estas questões, que o Regime Militar (e a política de uma maneira geral) emergiria com tanta força ao longo dos anos, a ponto de se tornar sua escolha (mais difícil) de vida.

Mas não foi somente isso que veio à tona junto com as memórias e o cheiro das folhas antigas, reencontrei uma Fernanda que acreditava que tudo aquilo era muito importante, aliás, “a coisa mais importante a se fazer na vida”, sentada no fundo de casa, com os cadernos e folhas no colo, inventando inúmeras histórias. Isso significava reinventar-me também, buscar outros lugares, novos mundos, era como criar para mim diferentes personalidades a cada nova personagem, num período da vida em que estamos buscando nos colocar no mundo. O que não podia ser previsto, claro, era que esses papeis se inverteriam, a menina que ingenuamente escrevia sobre o Regime Militar sem ter a mínima noção do que se tratava (para além de perceber aquele período como algo muito odioso que deveria ser discutido) se tornou a mulher que amadureceu tudo aquilo profissionalmente em troca de relegar à prisão a poesia da escrita.

domingo, 24 de maio de 2020

Recomeços

Ela acordou, sentou-se na cama com pouca coragem de começar outro dia. Olhou para a janela fechada e viu a luz que passava pelas frestas, invadindo o quarto sem ser convidada. Em questão de segundos todas as demandas diárias passaram como um filme em sua mente, desencorajando-a ainda mais. Ao mesmo tempo, enquanto olhava a janela, sentiu certa satisfação pessoal pelo potencial poder que se figurava à sua frente naquele momento “não preciso abrir, eu decido o que entra ou não em minha casa”.

Assim, decidiu que naquele dia manteria todas as janelas fechadas. Tomou seu café, assistiu o noticiário, cumpriu seus deveres com o trabalho, fez um bom almoço, escutou música por algumas horas, preparou um chá no fim da tarde, e à noite, preparou o jantar, tomou um vinho, um banho e se deitou. “Amanhã será melhor”.

Na manhã seguinte, a luz do dia precipitou-se por entre as frestas da janela, e mais uma vez ela decidiu que não a deixaria entrar. E assim se foram dois, três, quatro dias, uma semana, um mês, um ano, ou vários deles, já não se lembrava. As janelas permaneceram fechadas.

A vida passou repetida, os mesmos momentos, o isolamento, o resguardo, as tristezas abafadas, os fracassos engavetados, o medo de amanhecer no dia seguinte com o propósito de abrir as janelas, ser melhor do que no dia anterior e fracassar. As janelas fechadas a poupavam de tudo isso, poderia ser ela com ela mesma, fazendo planos imaginários, travando diálogos encorajadores, realizando tudo o que sonhava, sem precisar se preocupar com o que vinha junto com toda aquela luz dos dias que se passavam lá fora.

Mas nada é imutável.

Certo dia acordou, sem saber precisar há quanto tempo as janelas estavam fechadas. Olhou-se no espelho da penteadeira é só então sentiu que havia envelhecido ali, no escuro, sob as luzes artificiais. Aproximou-se da janela, passou os dedos sobre a madeira já empoeirada, segurou a tranca e a abriu apenas um pouco. Um leve rangido ecoou  e ela sentiu o ar muito frio e úmido invadir seu quarto e tocar seu rosto. Teve medo. Impulsivamente bateu a janela e voltou a trancá-la com toda a força. 

Chovia demais lá fora, não parecia seguro. Amanhã tentaria de novo.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

“E se...?”

“Fernanda, pelo contrário, procurou-a unicamente nos trajetos do seu itinerário cotidiano, sem saber que a procura das coisas perdidas é dificultada pelos hábitos rotineiros e é por isso que dá tanto trabalho encontrá-las” (Cem Anos de Solidão – Gabriel García Márquez)

A primeira vez que li o romance do García Márquez, tinha por volta de 19 anos, aproximadamente 1 ano e meio após a morte do meu pai. Fiquei apaixonada, tanto pela complexidade da história, que de tão complexa se torna simples, quanto pelo cíclico e interminável resgate de memórias, vivências e traumas familiares, e naquele momento estas questões eram muito importantes pra mim.

Reli o livro ano passado e ao mesmo tempo fui relida. Destacaria muitos trechos que trouxeram reflexões, mas sem dúvida esse com que inicio o texto, foi o mais profundo de todos. E o mais surpreendente é que esse excerto continua a se reatualizar e ressignificar muitas histórias e contextos na minha vida.

Quando estava relendo o livro, vivia o retorno de um relacionamento que desde o início esteve fadado ao fracasso, mas que estava ali, novamente impondo-se no meu cotidiano e ao qual ainda era apegada e tinha grande dificuldade em “deixar ir”. Era um recomeço, era como “encontrar algo perdido”. Ao mesmo tempo, sentia García Márquez conversando comigo (para além da coincidência entre meu nome e o da personagem), era eu tentando reencontrar a mim mesma, em meio a um turbilhão de sentimentos que se colocavam naquele momento em minha vida pessoal e profissional.

Talvez já esteja posto, ou ainda precisarei de muito tempo pra deixar isso minimamente mais claro, que os textos que coloco aqui trazem reflexões de mim mesma. “Claro”, qualquer um diria, “escrevemos para isso”. Mas não é somente isso, as reflexões sobre mim mesma estão muito relacionadas ao que sou, e a como me coloco e expresso no mundo. Uma de minhas maiores preocupações na vida é ter sentido, fazer sentido, e pra isso é fundamental conhecer a mim mesma.

Dito isto, voltando ao livro, e mais particularmente ao trecho que destaquei, penso, neste momento em que decidi fazer uma reflexão sobre ele pra postagem de hoje, que talvez as nossas concepções sobre os trajetos de nossos "itinerários cotidianos", nunca mais voltem a ser as mesmas. Seria ótimo, se assim fosse, por um passo adiante, o avanço de um degrau, pelo rompimento de algumas certezas às quais éramos apegados, etc.; mas como tem se dado, diante de uma crise mundial de saúde pública, forçosamente estamos tendo que reaprender e criar dia a dia um novo cotidiano que em nada se assemelha ao que tínhamos antes, quando tudo era previsível e racionalizado.

“E se...?” é o que mais tenho me perguntado nestes dias, sem conseguir definir planos e metas que ultrapassem dois, três dias, no máximo uma semana. Perdemos todos os prazos, adiamos compromissos, fechamos nossas casas e não sabemos como vai ser amanhã. É sensato, manter a mente tranquila, comprometidos com nossos afazeres, sejam eles quais forem, mas não há como negar que a insegurança quanto ao amanhã, como a chegada dos feriados esperados para nos reunirmos com aqueles que nos são caros, os aniversários dos amigos, os abraços apertados, as longas conversas na mesa do bar, os beijos apaixonados e o vai e vem cotidiano da vida não nos deixe tristes e assustados. “E se...?”.

Tenho me voltado muito pra mim, respeitando meus limites, os meus “quereres”, os meus pequenos talentos, capacidades para coisas que antes não sabia possuir, minha preocupação com aqueles que amo, com meu trabalho, enfim... tenho aprendido muito sobre mim mesma e isso, por si só, é grandioso. Mas como é difícil querer me encontrar fora dos meus “itinerários cotidianos”, em um lugar em que tudo é dúvida e incerteza. Talvez, se García Márquez fosse vivo hoje e estivesse escrevendo seu romance, Cem Anos de Solidão tivesse outro sentido,  com muitas “coisas perdidas” e poucos “hábitos rotineiros”.

terça-feira, 24 de março de 2020

Quando o nosso lugar não basta

Existem outros modos de experimentar a vida. Outros inusitados modos de se relacionar, de construir e, assim, modificar nossas próprias concepções, colocando em discussão tudo aquilo que superficialmente constitui-se concreto e imutável.

Existem diferentes modos de olhar e perceber o outro, de dizer “estou no grupo das pessoas que te incentivam” com tal empatia como se fosse dito para alguém que se conhece desde a infância, em sua totalidade, como se fosse possível alcançar aquilo que há de mais profundo e oculto, quando na verdade, essas duas pessoas nunca se cruzaram no mundo real, onde tudo toma forma e verdade.

E isso faz parte de uma realidade moderna, em que nos aproximamos sem nunca estar e somos continuamente convidados a criar uma infinidade de conexões que tomam espaço de tal forma, que chegam a absorver nossas vidas em alguns momentos, tudo em um minúsculo espaço da tela, em que a discussão e o aprendizado são construídos e consentidos, ainda que na forma de uma conversa fluida que a gente espera que não acabe depois do “até amanhã”.

Mas qual o preço que se paga por abrir possibilidades e se aventurar nesses espaços? Talvez, o de romper as nossas próprias fronteiras ao agregar horizontes inquietantes – e nunca desbravados - à nossa rotina, simplesmente por ouvir deste outro que “o nosso lugar não basta”. E não bastam, mesmo no plural. Então, se nossos lugares não nos bastam, o que realmente nos define? O que define os limites dos papeis que assumimos ao longo da vida, o pertencer a tal ou qual lugar, o nosso vestuário, nossos gostos pessoais? Tenho feito essa pergunta desde, pelo menos, a minha adolescência e nunca é fácil responder. Nossos padrões e valores são tão arraigados que se tornam quase que um mantra, os quais não ousamos questionar, por medo, insegurança ou mesmo por considerar que eles não precisam ser revistos.

Mas, voltando à pergunta: e quando o nosso lugar não basta mais? Quando não basta - ainda que se queira, e se queira muito -  ser homem, mulher, mãe, filho, marido, estudante, médico, policial, e tantas outras personas que vamos adotando ao longo da vida e que vão, pouco a pouco, limitando cada vez mais o nosso espaço, para que possamos caber perfeitamente dentro daquilo que é esperado delas? Indo mais além, o que sobra se não somos a imaculada imagem que elas pressupõem? Se não sou a mãe amorosa, o estudante aplicado, o homem que não chora, a mulher que não gosta de maquiagem, ou o marido não-monogâmico?

Eu acredito que fica o que somos essencialmente, aquilo que de mais simples pode existir e que por isso mesmo é tão mais forte do que qualquer outra coisa, porque sobrevive ao que é ditado, nem sequer pede definição, porque é e vai sempre ser independentemente de qualquer outro papel que possamos adotar amanhã ou depois. E é justamente isso que está cada vez mais escondido, mas está lá.

Então, o que nos proíbe de reformular ou reinventar essas categorias, explorando as inúmeras possibilidades que cada um desses papeis pode oferecer sem que isso cause estranhamento, deboche ou mesmo desdém daqueles com os quais partilhamos nosso dia a dia? Isso eu não saberia responder de maneira simples e nem teria espaço aqui pra tal, mas é uma questão importante e que abre caminho para novos escritos. Entretanto, cabe citar que somos impedidos simbolicamente de seguir adiante porque não vemos respeitado o direito de desnudar a nossa real essência, seja ela qual for. O fato é que as possibilidades existem e as novas experiências e pessoas que chegam com elas, provam que é possível repensar os nossos limites quando entendemos que o nosso lugar não nos basta mais, só precisamos estar atentos e abertos pra isso.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Sobre os aniversários...

Os sapatos que antes ocupavam as prateleiras na despensa agora repousavam em qualquer pequeno espaço do quarto; as roupas sujas amontoavam-se escondidas atrás do móvel grande, enquanto as xícaras, copos e panelas na cozinha precisavam ser procurados dia a dia diante da necessidade do uso, já que poderiam estar em qualquer lugar. Há algum tempo a casa andava sem ordem. Era preciso lembrar do tempo, do espaço, do ontem, do anteontem e do banho de agora.
Passava apressada de um lado pro outro, tentando organizar o que fosse possível antes de ir trabalhar, recapitulando as obrigações diárias, o artigo a ser concluído, as datas das próximas reuniões, as compras a serem feitas no mercado, a próxima consulta médica da minha mãe, a torneira que precisava ser consertada, a cama velha que implorava ser trocada... ressentida pelo tempo que eu não tinha. Enquanto andava de um lado para o outro da casa, preocupada com o atraso, o ônibus que passaria dali a 20 minutos - que, caso perdido, imputaria a pena de esperar por outro mais ou menos uns 50 minutos - fechei, pelo menos por cinco vezes, a porta do armário-depósito que ficava embaixo da escada “Preciso trocar essa fechadura”. Dei alguns passos e a porta abriu novamente.
Instantaneamente parei na intenção de voltar para fechá-la de novo, mas permaneci imóvel. O tempo, a casa, as memórias, o passado, o presente e futuro de repente fundiram-se em uma grade névoa escura e densa que parecia pairar sobre a minha cabeça e me dei conta de que era meu aniversário. Voltei alguns passos ainda de costas em direção ao armário e a porta estava ali, entreaberta, como se debochasse da minha falta de atenção, do meu desleixo, do meu cansaço. Quis fechá-la, juro que quis, mas subitamente a abri e percebi que havia esquecido completamente do que tinha lá dentro.
Num primeiro momento só avistei caixas, entulhos, coisas quebradas que estavam amontoadas há anos esperando conserto, poeira, fios e cabos elétricos que eu já não fazia a menor ideia de onde eram. Mas ali, escondidos atrás de tudo aquilo, estavam meus cadernos antigos em que eu escrevia minhas histórias, os trabalhos da escola que ela havia guardado com tanto carinho, o vestido e sapatinhos do meu batizado que “depois que eu morrer você pode dar um fim”, os bonés antigos do meu pai, os álbuns de fotografia... enfim, estava tudo ali ainda, imóvel diante de um tempo que passa sem trégua, carregando tudo, mesmo quando você implora que ainda tem muita coisa boa pra tirar daquele momento. Ele não tem freio. No armário ainda estavam guardados todos os sentimentos acumulados (e ali compactados) de uma vida toda, de um passado que ainda era mais aconchegante e amoroso. E eu os conhecia todos, acompanhavam-me dia a dia diante da tarefa de continuar, de projetar e alcançar sonhos para na sequência desfazê-los em razão da urgência da vida; acompanhavam-me na solidão, no cuidado crescente para com a minha mãe (os papeis estavam invertendo-se), do medo de não conseguir, do cansaço da repetição dos menores detalhes. Mas ali, guardados no armário, estes sentimentos pareciam sorrir enquanto diziam que não precisavam doer, e que tudo bem que hoje ainda ferissem, amanhã e talvez depois de amanhã, mas que eles só precisavam de mim para serem ressignificados.
Olhei com pesar e tentei acolher todos eles em meus braços; por um momento tive gana de abrir todas aquelas caixas, desentulhar, desembaralhar, separar o que estava quebrado, procurar todos os velhos cartões de aniversários e sorrir pelos 35 anos de idade que se aproximavam, encontrar a força das mulheres da minha família que ultrapassaram tantos e tantos limites para ressoar em mim, trazer o ímpeto de reinventar sonhos, sorrir para o mundo, mas... tão instintivamente quanto parei para abrir a porta daquele armário, lembrei-me que o ônibus passaria dali a “uns 10 minutos, acho” e saí apressada, não sem antes beijá-la carinhosamente e perguntar o que ela queria para o jantar enquanto assistia sua autossatisfação por encontrar “amor” na revista de caça-palavras.