domingo, 12 de julho de 2009

¼. Quatro.

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Há um mês.

Havia um mês naquele quarto. Um mês antes de tudo que acontecia agora. Antes da morte. Se ele apagasse o cigarro no parapeito ou jogasse parabaixo e caminhasse até o quarto, constataria o computador amarelo de seta piscante gritando para que ali algo fosse digitado. O amarelão gritava: mande ela para o inferno sem escalas, mas fale algo.

Eu sentia que ela aguardava por um telefonema, um e-mail, por isso não dava sinal de vida. Aguardava, nem que por uma voz que desejasse bom dia no abre e fecha da geladeira no desencontro do café da manhã.

Ele precisava escrever pra ela, desabafar uma resenha de todos os poemas que havia lido nas últimas noites.

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Há um mês... e duas semanas.

E quando havia um mês e duas semanas, ele ainda lembrava de Aline, mesmo após um mês e duas semanas. Aline era assim... dispersa. Eu amava ela. Sempre dizia pra todo mundo que eu amava ela. Eu amo ela. Era completo. Era rústico. Era sincero. Eu amo ela. Eu dizia.

Aline tinha pele clara. Branca não, clara. Cabelo preto, mas que não deixava muita saudade. Não como sua altura, sentia saudade de cada centímetro de seus um metro e setenta e cinco, seus olhos quase verdes e suas calças, sempre escondidas por algum sobretudo, com cheiro e costuma de brechó. Ali, envolto por duas coberturas de pano e uma de seda, morava algo de cheiro apaixonante, que faria qualquer homem sonhar com seres de roupas brancas caminhando sem destino. Os olhos também eram levemente puxados, mas eu sabia que não havia nenhuma chance de um parente de quinto ou sexto grau vindo do oriente mundo. Eu a chamava de Winnie. Ela era magra.

Aline encontrou Luciano por aí. Nem lembra ao certo. Num começo de noite, a desculpa dele foi o frio. Ela, vinho. Procuraram por um bar de paredes claras perdido numa rua deserta do centro da cidade onde moravam. Encontraram e entraram e descobriram que precisavam comprar fichas numa portinha. Nada pior pra quem procura descanso.

Lição um: nunca beba num bar onde as fichas são compradas antes.
Lição dois: nunca coma num restaurante com fotos de pratos no cardápio.

A segunda lição ele havia tirado de um filme. Aline pediu o catálogo de vinhos da casa. Virou a garrafa e olhou com atenção mestra o rótulo do único vinho que havia por ali. Uma cara de quem se fazia entender cada ingrediente e corante ali descrito. Pediu como uma dama, como se tivesse o poder de negar e escolher pela marca adversária. Como se o fabricante estive atrás de nós, a taça veio. O barman entregou com tamanho gosto que parecia ter acabado de definhar as uvas. Meu conhaque também. Sem gelo. Há quem peça com.

Aline o beijou. Apenas após o segundo copo. Na sacadinha do bar para onde foram, foram se aproximando. Os pés se tocaram, as canelas também. Ela ainda pôde rir. Ele fez que não viu. O assunto ainda pautava, mas ele pouco ouvia. As coxas também e o tronco. Sua boca encontrou o pescoço, bem próximo a nuca. Os pêlos loiros levantaram. Ela se contorceu. As bocas se encostaram. Uma delas tinha os lábios secos. Tudo ficou úmido. Depois, molhado.

Após vinte minutos, estavam entrando em seu apartamento, número 51, com cuidado pra não pisar em alguém que dormia pelo chão da sala principal. Após vinte e um minutos, ele trancava a porta do quarto usando alguns livros técnicos de fotografia e ela destrancava sua calça. Ele, a dela. E o que havia parabaixo.
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¼. Um.
¼. Dois.
¼. Três.

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