domingo, 12 de julho de 2009

¼. Três.

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Roberto estava morto. Mas vi apenas seu pé esquerdo.

Era como se o cheiro me tivesse levantado da cama e me enrolado na toalha suspensa pela metade na cadeira giratória. A toalha cheirava.

Eu poderia caminhar até o quarto em frente, desvendar o corpo deitado e cobrir aquele pé que me chateava. Eu poderia. Poderia também ir até ele e checar sua respiração, seu pulso. Quem sabe não daria tempo de reanimar o seu corpo moribundo?

Aquele cheiro me prendia na sacada. Fechei o vidro com força. Com força traguei. Me acorrentava e me embolava naquele quatro por um.

Um dia, todos nós sofreremos com as agressões da morte, ele dizia em meu ouvido. E que coisa absurda de se dizer. Ninguém quer ouvir falar da morte de tão perto. Muito menos se dita ao pé do ouvido. Aos pés. Aquele pé esquerdo estava com as unhas por fazer. Tinha um casco grosso. E pude me lembrar dos dias que aqueles cascos encostaram-se nos meus.

Roberto estava morto. Pelo menos pra mim.

Acho que também pra você.
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