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domingo, 27 de março de 2016

Quando a maré encher

A grande onda de Kanagawa - Hokusai
“Há marés no corpo”, acordou se lembrando do livro da Virginia Woolf. Que frase genial, era assim que se sentia. Se hoje o corpo não doía, estava ágil e pronto para qualquer desafio, ontem era diametralmente o oposto.

Luiza se levantou e cumpriu o ritual matinal de higiene. Enquanto bebia seu café, lembrou-se da recomendação de ir perguntar qual era o nome da planta que cuida da casa. Chegou próxima ao pé de hortelã e antes que pudesse formular a pergunta, ouviu em sua cabeça “Josephine”.

Até é possível viver sem objetivos. Mas para isso tem que se ter humildade em aceitar o prato que a vida lhe oferece, se o que importa é apenas “comer”. No entanto, Luiza, ao contrário, era ambiciosa e queria escolher, queria se destacar e ser boa em alguma coisa. No quê? Não sabia bem ao certo, mas sabia que a mediocridade não era pra ela.

Será que o amor por sua planta Josephine seria o suficiente para que ela vingasse e crescesse forte? Será que existe mesmo alguma relação entre a boa saúde da planta com o resto da harmonia da casa? A vida andava tão estagnada que Luiza estava acreditando em tudo: horóscopo, livros e palestras de autoajuda, conselhos de filósofos antigos, textos religiosos, enfim, avacalhou geral,  e todo tipo de superstição que passasse por seu conhecimento, nada era descartado.

Gabriela, percebendo a perdição da amiga, resolveu presenteá-la com uma consulta de cartomante. Era a primeira vez de Luiza. A cartomante não tinha o visual exotérico que ela idealizara, mas falava em tom severo e misterioso, como se pode imaginar. Parecia saber muito da sua vida (ou será que as moças que se consultam com ela estão imersas em problemas parecidos e os clichês são universais?). Independente de ser verdade, a mulher a intimidava e disse que sua energia poderosa podia mover o mundo. Que ela, a Luiza, era a responsável pelo travamento da própria vida, que era ela mesmo que estava se punindo, que tudo isso era desnecessário já que ela tinha muita sorte.

Não foi fácil pensar nas próprias feridas e sentir-se responsável por não ter o que desejava. Primeiro esbravejou contra a cartomante, depois se lembrou de que não acreditava nessas coisas. Por fim se voltou para uma das práticas mais antigas da humanidade: a meditação. Queria ficar quieta e ouvir o que Deus (ou algo assim) tinha para lhe falar, o que tanto fazia de errado na vida.

Na verdade, ela não conseguiu racionalizar o que aconteceu depois de algum tempo de prática meditativa. Mas era inquestionável que estava mais serena e não sentia mais ataques de ansiedade. Luiza começou a enxergar algumas possibilidades reais de caminho, estava mais sociável e parecia estar atraindo o tipo certo de gente.

Josephine que andava com poucas folhas, parecendo uma planta moribunda, de repente presenteia Luiza com novos caules e folhas. A moça não acredita muito nessas coisas, mas que um novo ciclo parece se iniciar, ah, isso ela não tem dúvidas.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Despedida e Boas Vindas


Hoje estou me despedindo. 
Este mês estou me despedindo.
Deixo aqui registrado meu adeus a uma fase de minha vida.
Fase que durou minha vida inteira.
Que teve tristezas, aventuras, alegrias e aprendizados.


E abro os braços para uma nova fase.
Abro os olhos para novos horizontes.
Abro o peito para novos desafios.
Sim, os 30 anos trazem consigo um peso.
Como já dizia o poeta*, fazer 30 anos é cair numa epifania.


Eu gosto de envelhecer...
Significa que estou viva, que meu corpo está funcionando, minhas células estão se renovando.
     Envelhecer é renovação.

Com o passar dos anos venho aprendendo a ser menos categórica, mais flexível, mais leve.
Assim como minhas células, deixo meus pensamentos se renovarem.
Observo mais, julgo menos,
Penso de forma mais livre.
     Sou mais livre.


A vida até os vinte e nove até que foi boa comigo.
Sinto-me grata por esses anos, que venham mais.


Bem vindos, trinta!
Que sejam belos e gentis.
E quando não puderem ser belos nem gentis, que eu possa ter paciência e sabedoria.


Que venham mais e mais...



  


*o poeta em questão é Affonso Romano de Sant'Anna. Ele também escreveu sobre fazer 30 anos, você pode ler o trecho aqui

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

e se fingirmos que 2015 não aconteceu?

Faltando três dias para o final do ano, estamos aqui avaliando o que aconteceu nos últimos 362 dias. 2015 foi um soco no estômago de muita gente.

Colocando os pesos na balança, pra ver o que compensava ou não, cheguei à conclusão de que este ano o saldo foi positivo. Apesar de sentir muita falta da estabilidade ou de conseguir descansar enquanto durmo, melhor assim. Quando saímos da zona de conforto, percebemos que ela não era tão confortável, afinal.

Dizem que leva em torno de 27 anos para os planetas completarem um ciclo e se alinharem de uma maneira muito parecida como a de quando você nasceu. Dizem que este é o momento em que tudo desaba e você se encontra cara a cara consigo mesmo.

Faz dez dias que fiz aniversário. Há um ano e dez dias atrás, eu me lembro bem daquela manhã, eu não imaginava que estaria aqui. Não imaginava tudo o que aconteceria neste espaço de um ano, eventos que me transformariam numa pessoa completamente diferente daquela que acordava (mais tarde que o normal e com um pouco de ressaca) na manhã de dezoito de dezembro de 2014.

2015 não foi um ano fácil.  Lembro de ter várias vezes repetido que este foi o pior ano da minha vida, e não sei se estou tão certa sobre isto, mas asseguro foi um dos mais difíceis até agora.

Mas também foi um ano no qual descobri o quanto posso ser forte. Foi o ano no qual me conheci melhor, e até onde posso ir.

Neste período de um ano perdi vários elementos que me eram queridos e importantes. Perdi também a conta de quantas vezes não consegui parar de chorar, não consegui energia para sair da cama, achei muitas vezes que não tinha mais sentido, e de como estive à mercê de pessoas que me machucavam pela simples necessidade controle. Cada pessoa tenta reagir da melhor maneira que consegue, mas é quando você está no fundo do poço que percebe o nível de quem está por perto.

Sofri ameaças, fui roubada, perdi minha casa, perdi a confiança nos outros e várias coisas outras que me foram perdidas. Entre tantas outras coisas que aconteceram este ano, estas serviram para mudar drasticamente meu posicionamento e o modo como encarava tudo.

Por muito tempo me esforcei para levar em consideração e relevar muitas das coisas que eram feitas, principalmente as que me atingiam diretamente. Mas não era suficiente, nunca foi. E foi ficando cada vez mais agressivo e violento. A partir do meu primeiro não, comecei a lutar por mim. Foi um período em que me senti infinitamente sozinha. Logo eu, que tinha uma auto-confiança extremamente problemática, tive que encontrar coragem, acreditar e me forçar a ser mais resistente a cada momento.

Felizmente, foi quando percebi que era cercada por pessoas incríveis. Pessoas que não me deixaram, amigos queridos que me deram apoio, mesmo à distância.
Consegui um emprego. Não desisti da faculdade. Apresentei minha iniciação científica. Em São Paulo, fui acolhida por uma família incrível, que não me pediu nada em troca, só queriam que eu estudasse e conseguisse me acertar na vida. E a minha família foi primordial para eu continuar.  Voltei à terapia. Às vezes tive insônia, ataques de ansiedade e pânico. Ainda tive muito medo, também quis me esconder de tudo. Entretanto, isto não era mais uma opção.

“It would be wonderful to say you regretted it. It would be easy. But what does it mean? What does it mean to regret when you have no choice? It's what you can bear. There it is. No one's going to forgive me. It was death. I chose life.”

Em um ano minha vida se tornou algo caótico e doloroso.

Mas, como disse bem no comecinho, teve seu lado bom.

E teve seu saldo positivo, porque tive amparo. Porque teve gente que simplesmente surgiu na porta do meu trabalho com um agasalho, porque viu na previsão do tempo que ia fazer frio e ficou preocupada comigo. Teve gente que quis sair pra ficar conversando. Teve gente que ficou do meu lado quando tive medo. Teve gente que surgia pra dar apoio e comer batata frita. Teve gente que me acolhia em casa. Teve gente que me levou ao pronto socorro à uma da manhã, porque eu liguei bêbada e com a mão estourada. Teve gente que veio só pra dar um abraço. Teve gente que me ligava e ficava conversando comigo, até minha crise de ansiedade passar. Teve gente que mandou mensagem quase todos os dias, perguntando como eu estava. Teve gente que me fez rir. Teve gente que me ligou porque estava preocupada. Teve gente que fez planos mirabolantes comigo. Teve gente que me ajudou a trocar os curativos da minha mão. Teve gente que me deu os puxões de orelha que eu precisava. Teve gente que topava sair pra comer, quando eu chamava em cima da hora. Teve gente que chegou com chocolates. Teve gente que me chamava no Skype para contar algo novo. Teve gente que discutia livros comigo. Teve gente com quem compartilhei conversas. Teve gente com quem compartilhei silêncios. Teve gente que simplesmente estava lá.

No período compreendido entre o 18 de dezembro do ano passado e o deste ano, pessoas entraram e saíram da minha vida, outras ficaram apenas o tempo que foi necessário, e outras fizeram sua presença constante, mesmo estando longe.
Essas pessoas, pessoas queridas, não desistiram de mim, mesmo quando até eu já tinha desistido.

É para elas que deixo este meu muito obrigado, de coração.

Não teria conseguido sem vocês.


sábado, 28 de novembro de 2015

Não vão vencer

Marga coçou os olhos. Do terraço do centro cultural dava para ver uma parte grande da avenida. Não era alto o suficiente para enxergar a cidade inteira, mas era o suficiente para colocar os pensamentos em ordem. O vento bateu no rosto, empurrando as lágrimas e os cabelos ruivos. O dorso da mão rosada passava pelas bochechas cheias de sardas que compunham o rosto redondo.
Um casal passou de mãos dadas.
- Olha que vista bonita! Não sabia que dava pra subir aqui!
- É! Pouca gente sabe!
- Vem cá, vamos tirar uma foto!
Depois de observar a felicidade alheia, desviou os olhos do casal. Não estava afim de chamar a atenção com os olhos inchados. Ajeitou a gola da jaqueta jeans e tirou o cabelo do pescoço, ficou olhando as pontas.

“Red hair is great. It's rare, and therefore superior.”

Deu um sorriso bobo com a lembrança.
O que seria uma lembrança?

...

“O meio no qual você cresceu sempre foi hostil, violento...”

...

“Não é à toa que você é tão retraída, fechada no seu próprio mundo..”

- Meu próprio mundo – murmurou.

...

 “Me fale de quando você foi estuprada..”

...

“Essa violência era recorrente?”

...

“Alguém te ajudou?”

...

“É comum distorcerem o que você fala?”

...

“Quantas vezes você já pensou em se matar?”

- Todos os dias – sussurrou olhando para os pés e a vista depois da grade – todos os dias...

...

- E por que você não foi até o fim? – perguntou o terapeuta.
A sala era iluminada por uma janela. Uma cortina branca deixava luz difusa. Marga olhou de lado. O rosto mais magro. Curativos nos pulsos. Um cigarro na mão direita e as unhas roídas. Tragou o cigarro.
- Por que você está aqui, Margarida?
- Você não sabe? Sou fracassada. – Fala o que eles querem ouvir.
- Você é?
- Bom, é isso o que falam, então devo ser. – Não deixa eles saberem.
- E o que mais falam?
Falam que eu deveria ter sido abortada..
- Você sabe... – A voz saiu fraca. Merda. Não era pra sair fraca. Continue forte.
- Não, não sei, Margarida.

Filho da puta.

- Não gosto. Não desse nome. – Isso, boa. Continua desviando o assunto.
- Como você quer que te chame?
-... Marga. M-A-R-G-A. Não Amarga.
- Quem te chama assim?

Minha mãe.

- Todo mundo.
- E todo mundo fala o que?

Merda. Cigarro. Cadê o cigarro? A mão tá tremendo. Desiste do cigarro. Foca na respiração. Fala como se não fosse nada importante.

- Falam que.. que quem está perto de mim não está por opção. 
- E.. você acha isto?
- Bem, eu.. acho que.. – para de embargar, voz maldita.. olha pro lado – eu acho que mesmo que eu seja digna de ser amada, ninguém vai fazer isso. Ninguém realmente nunca ficou, sabe? Então talvez eles tenham razão.. mas.. mas mesmo que isso seja verdade.. algum dia.. algum lugar.. – não chora.. não.. ch.. merda.
- O que você quer, Marga?

Ah, foda-se.. já tá chorando mesmo..

- Encontrar um lugar pra voltar. Onde eu não seja um desperdício de espaço. Mesmo que seja eu sozinha. É por isso que eu tento me matar e sempre paro no meio do caminho, ou sempre acabo voltando pra um de vocês.. porque eu tenho que ser maior que essa bosta toda, porque eu sei que vai ter algum lugar melhor. Nem que eu tenha que fazer. Não vou deixar que eles vençam. Não vou.

...

A risada do casal tirando fotos parou com a chuva começando.
- Ai, meu cabelo!!
- Vamos voltar pra dentro!

Marga olhou para cima, algumas gotas ainda leves caindo no rosto. Fechou os olhos e respirou fundo.
- Eles não vão vencer. Não vão.


Não. Não vão.


segunda-feira, 9 de março de 2015

Inferno astral e Retorno de Saturno

Saturno, por Nasa
Sugestão: ler ouvindo Hold on por Tom Waits

É fato: o inferno astral existe. E não é negando sua existência que você estará livre dele.
É aquele período antes do seu aniversário onde tudo tem 90% de chance de dar errado. Azar é pouco! 

Os astrólogos afirmam que o inferno astral corresponde ao período em que o Sol está transitando pelo signo anterior ao seu, quase terminando um percurso de 360 graus. Por estar no final do seu ciclo, ocorre um decréscimo natural das características solares, tais como energia, autoconfiança, estabilidade emocional e um sentido de direção. O que afeta as pessoas de diversas maneiras.

Neste meu inferno astral, fiquei doente. Como nunca havia ficado. Duas semanas de molho em casa, quatro kg a menos e sentimento de tristeza. Além das dores e fraquezas causadas pela enfermidade, bateu uma fragilidade emocional... 
Esse meu período de clausura e introspecção me permitiu uma reflexão sobre a minha vida, sobretudo dos meus relacionamentos. E, não coincidentemente, é isso que o inferno astral nos trás; reflexão e avaliação para o início de um novo ciclo!

Meu inferno astral é apenas uma demonstração de tudo que está por vir. Após meu aniversário estarei com as energias renovadas para um ano inteiro de avaliação, pois completarei 29 anos, período do primeiro retorno de Saturno. 

Saturno demora cerca de 29 anos para completar o ciclo completo em volta do sol e formar uma conjunção consigo mesmo. Para a Astrologia Saturno simboliza o limite. Assim, o retorno de Saturno pode ser compreendido como sendo o momento em que tomamos consciência de nossas limitações, daquilo que podemos ou não fazer e daquilo que devemos ou não manter conosco, sejam hábitos, objetos ou relacionamentos.

O sofrimento desse período vem do reconhecimento das nossas limitações e em ter que abrir mão daquilo que temos por costume, mas não deve permanecer conosco, o que gera frustrações. Mas, sabendo lidar com isso, tudo se resolve da melhor maneira possível (dedos cruzados rs). Com certeza será um ano foda, com muitas mudanças e desapego.  

No fim das contas, seja você um crédulo em astrologia ou não, ocorre de tempos em tempos essa necessidade de reflexão sobre a vida, o futuro, os relacionamentos.... e isso é sempre saudável, pois nos damos a oportunidade de mudar o que não está legal, e de investir no que realmente importa. Além disso, sempre tem algum aprendizado.