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domingo, 13 de setembro de 2009

Viagem

No muro da beira da estrada eu vi pichado o enigma:
Eu fui para Nicarágua
e recebi Jesus numa encruzilhada

E o carro corria solto feito o diabo

Era ponte
Barreira
Braço de rio
Lagarto estraçalhado
Entroncamento de estrada

A louca com carrinho de supermercado que tinha gatinhos tecidos na alma
instruía a moça cabeça-de-vento: “A paixão cega, minha filha”

E minha avó ensinando o papagaio a pedir esmola: “vai que eu lhe falte um dia.”

"Quem ama deixa."
- pregava a velha com catarata no peito.


"se quiser fugir, tropeça na primeira esquina"

[Tudo, sem saídas de computador]


Eu abasteci o carro e vi o céu azul de suely na pensão amaralina

Minha alma de segunda entendeu tudo
fiz o pelo-sinal-da-santa-cruz e passei a terceira marcha

Levantou um poeirão fenomenal

E eu vi Santana nunca mais me deixar, pelo retrovisor.





São Paulo, agosto de 2009

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

São Paulo - impressões 2009

Em São Paulo tudo é mais concreto. E não há horizonte à vista, pois há sempre um prédio bloqueando a paisagem, de modo que a cidade só é contemplável na perspectiva aérea, dos mil e tantos helicópteros que plainam diários sobre ela e que nos devolve, volta e meia (via satélite-cabo-tv) flagrantes policiais de violência.

*

Avistável apenas do alto, São Paulo só me vem à mente como paisagem vertical rapinada do terraço do Sesc Paulista. E eu descreio sempre daquele impossível mirante posto entre imensas antenas de transmissão que põem loucos todos os aparelhos eletrônicos último tipo made in Corea.

*

A cidade é aquele vento zunindo frigidíssimo na orelha, noturno e cinematográfico, fingindo-se possível o seu amor por nós. Aquela faixa cinzenta, que quando a umidade do ar é pouca, torna o dia mais noite, engole estrelas soturnas, e entope postos de saúde com crianças ávidas por ar.

*

E somos pequenos nas ruas, e solitários, e sedentos. A gente encarna sem querer aqueles personagens perdidos/pervertidos/melancólicos do Caio Fernando Abreu. Famílias terrivelmente felizes de Aquino, o inferno provisório de Ruffato, que hoje eu ando pensando que é aquele que sabe de tudo, e vai mais fundo do que qualquer pézinho de Mirisola julgue poder ir.

*

E eu queria ver ovnis lançando raios do alto do Masp, fazendo tremer o vão onde turistas fotografam o vazio. Ovnis que incendiassem a mata obscena do Parque que há em frente, com suas árvores cobertas de fuligem; e o sensabor daquela natureza cercada, castrada, escassa e inútil.

*

Eu pensando comigo que esse povo elegeu Kassab para fazer São Paulo mais triste. Mais burocrática e repleta de proibições. Sem altdoors numa cidade com vocação para pôr-se à venda. Meretriz feliz, a quem agora arrancam da boca o cigarro, obrigando-a a voltar para casa, sóbria, pois os bares fecham mais cedo e não há bingo onde possa jogar fora o pouco valor que lhe resta (ela é das que se perdem por uma ficha). Por consolo, não lhe sobrará nem mesmo a possibilidade do álcool, para arrebentar os cornos bêbada num poste.

Querem impor-lhe o fim do vício, uma pureza de legislação, a virtude a seco. E ela vai acabar louca, metendo a cara dentro da passagem estreita da privada da quitinete no cantinho da Augusta, alugada por uns 1.500 reais, o dedinho premendo a descarga. Imagino o bilhete suicida falhado no espelho com batom: "Ka, filho da puta, essa morte é para tua estatística cidade-limpa. Logo tu Brutus, eu que já fui musa-rebordosa, e a favor de todas as minorias viadas, como tu."

*

Há sempre um viaduto sobre todos nós. Um cão ganindo ao pé de um mendigo, um pedinte e um cego, um menino encardido da cabeça aos pés. Há sempre o engrolar anasalado de um coreano, um turco doido, um judeu que passa sisudo, uma banca de jornal com suas news, carros desfilando egos, filmes cults nos camelôs à porta do Unibanco, sebos com últimos cults, emos efeminados e garotas iludidas com delineador que destilam estilosas neo-melancolias.

*

Em São Paulo, faltam os "S" e os "EMES" em todos os plurais, ninguém tem tempo para profilaxia linguística, prolixidade litúrgica. Ninguém atura sensibilidades alheias, delicadezas desinteressadas. Ninguém manda recado, a gente manda torpedos e explode via email messenger fax nossas mais intensas e irredutíveis paixões eternas.

*

Em São Paulo nunca nos perdemos, pois sempre estamos em algum lugar, embora nenhum lugar seja de fato nosso destino. Em São Paulo, todos paulistas estamos sempre de passagem. E de tão vista, no transitar, no ir e vir cansativo dos ônibus-trem-metrô casa-trabalho, nosso corpo tenso se eletrifica: a vida são vans impedidas de circular. Ela, a cidade com nome de santo atarracado, faz-se tão nitidamente espelhada e concreta que a gente não se vê quando a miramos, como se ela fosse o arquétipo da coisa: cidade em si. De tão dura e presente, ela, contraditoriamente, torna-se invisível, invisibilidade que nos estarreceria se antes ela não nos tivesse cegado.


E tateamos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

"Lis", ou "a imprescindível queda no degrau da escada"


O pai falava: não corre, porque senão você vai cair. Um dia caiu da escada. Então chorou muito. Chorou primeiro porque doía, e o coração disparara. Chorou, porque o coração parecia que não ia parar nunca mais, porque ao levantar tudo girava. Chorou por achar que tinha se quebrado, já que do joelho (que repuxava), o vermelho corria quente-rubro manchando meias brancas e sapatos, prêmios para um poder de andar recém-conquistado. Chorou porque teve medo de cair de novo. Porque o pai tinha dito para não correr. Porque tinha desobedecido ao pai, e ele a erguera, furioso, num só braço: Eu falei para você não correr! Chorou porque nunca mais ia poder correr, e tinha que, ridícula, suportar de pé a dor da queda, diante de um degrau feroz, impassível, que a mirava sem piedade. Chorou porque odiava-o, porque achava que teria que arrastar para sempre essa dor. Chorou por ver a irreconhecível cara do pai, cara que só devia ser cara de amor, não esse desgosto, esse dedo em riste, essa boca cheia de palavras. Culpava o pai, pelo que sentia (ela que sentia tudo intensamente), pois tudo era ainda tão novo, as mil possibilidades latejantes do existir: quem senão ele para impedir a dor da falha, o tropeço da queda? Ela quase que não pensava, só havia a perna, o sangue, e mais chorou. Chorou, porque queria continuar andando, porque ia precisar correr, porque tinha que cair para sempre. Chorou porque... Por que tinha ela que ter caído? Que outros caíssem, piores que ela. Ela não queria cair nunca mais. Chorou muito depois de ter caído. Chorou depois quando lembrou que tinha caído. Aprendeu a respeitar aquele ponto da escada. Ali, não mais corria. Aprendeu a correr de novo. Mas parava, com medo, diante do perigo (e não da ordem). Aprendeu a correr com medo. Aprendeu a cair e levantar. Aprendeu a cair e a chorar. A chorar sem cair. A correr sem chorar. E a chorar sem chorar*. Só parou de chorar quando o pai a tomou no colo e abraçou-a com força. Calma, ele disse. E ela foi com ele.


*[Nunca deixaria de ter medo, nem quando não houvesse mais um pai vigilante, um marido, um amor, um filho que pôr no colo, dar-lhe os seios da mulher que seria. Mas por enquanto, ela era apenas uma menina. E esta, a primeira lição.]

sábado, 13 de junho de 2009


I

Tércio-décimo dia do calendário, o número treze é grafado com dois algarismos primos, a saber: o 1 (um) e o 3 (três). Por extenso, ou letra cursiva, inclinada, reta ou curva, o treze há de possuir sempre cinco letras, duas sílabas, e na articulação (da boca), obriga a língua a parar na ponta dos dentes da frente, a fazer um movimento de recuo, depois um vibrar ligeiro e úmido, seguido de um assoprar abrupto com som saindo entre lábios contraídos; fazendo rugas à cara dos velhos, sujando o batom das moças.

II

Culpa é do Latim que pariu a palavra, uma composição de tre (três) e décim: tredécim. Tredécim> tredcim>trezim> treze. Algarismo de dois dígitos: número esguio, seguido de peitos (ou bunda) salientes de acordo com o ângulo, a predileção, o gosto de quem mira. Já a fama de mau dia, deve-se à azaração de Loki, espírito do mal e da discórdia, penetra na festa de Odim; ou à Friga, ressentida deusa nórdica do amor e da beleza; ou ao sempre apedrejável Judas, décimo terceiro a ocupar a mesa e dar beijinhos falsos em Jesus.

III

Já a numerologia diz que o treze, além de primo e irregular, não possui a nobreza e a exatidão dos doze meses, não gira na roda festiva do zoodíaco, chuta o cestinho da dúzia, não é duas vezes o sete, número mágico das fadas, das simbologias maçônicas, da perfeição litúrgica e sua lista de pecados e virtudes.

IV

Treze é número insolúvel, indivisível, o fim em si mesmo, a hipótese de uma má sina, de um destino desatinado, sem sossego. Ou desassossegado.

V

Feito um tal Fernando Pessoa, -- sujeito multíplice, ele e o outro, ele e ele mesmo, heterodoxo total, [que sorte do acaso e surpresa de quem pensa /digita /compõe /reescreve /bloga essa ode/parode] faria aniversário justamente neste 13 de junho. Ou seja, não fosse morto desde 1935, hoje faria por certo 121 anos, constituindo-se o poeta mais longevo de toda uma geração de modernistas portugueses, decrépito, mas vivo: pura maravilha em decomposição poética. Mas não quis a cirrose, o doce sabor amargo de ser triste e fingidor fazê-lo chegar a tanto.

VI

[Por isso presto aqui, para não fugir à ocasião, meu fiapo (também) de pieguíssima homenagem, antes de cair na subjetvia primeira pessoa do singular, que é afinal, a preferida dos blogues, mãe da Lírica e de onde provém, por certo, toda Filosofia, toda Literatura e Arte].

VII

De pronto, recuso-me a dar as caras do meu nome, pois, como mais que bem dito falou Julieta na pena de Shakespeare: “O que é um nome? A rosa, se tivesse outro nome, seria menos perfumosa?!” Eu que não sou de feder nem de cheirar, afirmo que o treze, de todo calendário, é o único dia que por si tem história para se contar. Tirando a sequência interminável de filmes ruins feitos em seu nome, sobrevive com ar de mistério, pondo pavor mundo afora.

VIII

Parascavedecatriafóbicos ou frigatriscaidecafóbicos são esta espécie raríssima de gente que se péla às sextas-feiras 13. Ainda mais infelizes são os triscaidecafóbicos, que morrem um pouco mais todo mês ao décimo terceiro dia. Não por acaso, no tarô é a Morte (prometendo também renascimento), e só dá sorte mesmo no galo, para quem aposta no jogo do bicho.

IX

Treze é torto, é vesgo, é sinistro, é o gauche drummondiano. Thirteen é o looser dos números. Por isso mesmo, cardinal que eu catei para mim, por vocação atávica de crer nos mistérios mais banais. Número da sorte de quem tropeçou anos e anos no az-zahar, flor árabe do jogo de dados que os franceses nomeiam hasard. Sujeito pensante, quieto, solitário, medroso. Mil rituais brotando na alma por conta do número. Mantra assoprado na infância combinado com três toques na madeira. Prisioneiro deste tique de riscar as páginas lidas dos livros da biblioteca Cecília Meireles, e marcar assim, sua existência míope: 13, 130, 133.

X

Mistério inaugurado no conto preferido de Andersen, a moça oferecendo-se ao príncipe que sucumbe à tentação logo na primeira noite.

XI

Dos treze, a melhor de todas as memórias: a inauguração da consciência exata do corpo. O febril orgasmo solitário numa noite sem data, escura e subitamente luminosa. A convicção maravilhada de uma infração gravíssima. A entrada definitiva no pecado, a se repetir com culpa declinante e gozo vida a fora.

XII

Dois algarismos, duas sílabas: nenhum mistério. Superstição sobrepondo-se a toda lógica, extensão tranqüila da divina providência contra toda ordem, certeza e práxis. Start de um mundo novo, possível, promissor. Treze é para mim violação profana do que não está instituído em nenhum livro sagrado. Promessa de todos os mistérios sem dogmas ou ciência ensejadas num só número.

XIII

E eu saúdo, muito artificial, nesses treze fragmentos, a inauguração do dia 13 no blog dos 30, para crédito e descrença dos que habitam o mundo dos sentidos.