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terça-feira, 27 de setembro de 2016

Oração

Crepúsculo. Alto de um cruzeiro. Peregrinos do mundo todo passam pelo local. Uma velha senhora oferece velas coloridas para cada graça a ser alcançada.

Joaquim se aproxima da velha e faz sinal com os dedos de que quer três velas. Paga, agradece e vai embora.

Num pequeno oratório, Joaquim coloca em pé as velas uma ao lado da outra: branca, amarela e vermelha. Olha em volta para verificar se não estava sendo observado e então acende a vela vermelha, talvez o amor possa lhe acontecer durante a viagem. Acende a amarela, porque dinheiro nunca é demais e, por fim, a vela branca, sua antiga e persistente busca por paz interior.

Joaquim se agacha para orar. Quando as três velas estão acesas, um vento forte apaga as velas amarela e vermelha. Ele as acende, calmamente, de novo. Um novo vento forte assopra e a vela amarela cai e derruba a vermelha. A branca permanece de pé.

Joaquim se enfurece, levanta e vai embora do cruzeiro. A vela branca permaneceu acesa.


sábado, 7 de abril de 2012

Domingo é Páscoa e resolvi escrever algo a respeito.  Queria um texto que não fosse exatamente confessional, mas que abordasse a tônica, o sentido e a essência da data.  Resolvi recorrer ao meu baú e ressuscitei esse textinho, originalmente publicado no "Diz Que Fui Por Aí", em abril de 2009.  Confiram:

NÃO APODREÇA... RENASÇA!



Fim do primeiro período na faculdade. Provas, entrega de trabalhos, notas... A disciplina era Antropologia Cultural e a professora lembrou da resenha para ser entregue no próximo encontro. Como se tivesse caído de paraquedas no meio da sala de aula naquele instante, perguntei prum amigo que diabo de resenha era aquela. Ele me explicou que era sobre um livro do Roberto DaMatta. Vergonhosamente, nem o nome do livro eu sabia. "O que faz o brasil, Brasil"- foi a resposta.

Desesperado e, detalhe, duro igual a um coco, procurei alguém que me emprestasse o tal livro. Nenhuma alma caridosa se prontificou a me ajudar. Muito mal me deixaram ler a orelha. E em cinco minutos, eu tratei de resumir o que o autor pretendia ali.

Na aula seguinte, lá estava eu, mais cara de pau que nunca, entregando o trabalho conforme pedido pela professora.

Semana seguinte, ela entra em sala, falando que as notas haviam sido muito baixas. A impressão que tava é que ninguém havia lido o livro. Gelei. Crente que era esperto, fui pego no pulo.

Ouvi então meu nome. A professora, em sua mesa, me esperava; o calhamaço de folhas suspensos no ar em minha direção. Aproximei-me, sem graça. Ela, só sorrisos.

"Parabéns! Seu trabalho está ótimo! Nota dez!"

Sim, queridos. Nota dez. Não pensem que me orgulho disso, mas minha trapaceira manobra me garantiu um CR digno no fim daquele semestre. É claro que mais tarde me redimi e li a obra doDaMatta. O livro levanta a questão da identidade nacional. Há algo no Brasil que nos faz únicos. E é disso que quero falar nesse Domingo de Páscoa.

Mas, peraí... Páscoa, O que faz o brasil, Brasil? O que tem a ver uma coisa com a outra?!?

Páscoa é uma festa cristã. Melhor: é a festa cristã por excelência. Melhor ainda: é a festa judaico-cristã por excelência, afinal, ela já era comemorada antes da passagem de Cristo pela terra.

Para os judeus, rememora a fuga do seu povo do cativeiro do Egito. É a passagem da escravidão para a libertação.

Para os cristãos, celebra-se a vitória de Jesus sobre a morte na cruz. Três dias depois, o túmulo de Jerusalém estava vazio e Cristo ressurgia em toda sua glória.

Portanto, meus amigos, não importa que fé você professe - ou que deixe de professar. Vivemos num grande caldeirão de culturas (esse era um dos temas do livro) e, mesmo que a festa de hoje pra você, seja vazia de significado, os ovos de chocolate e as felicitações de Feliz Páscoa não faltarão. É um daqueles tempos em que tudo se impregna, mesmo que seja pelo forte apelo comercial que a data carrega.

De qualquer jeito, fica a mensagem: que o dia de hoje sirva de reflexão. Renasça. A água estagnada apodrece.

Friedrich Hegel (1770-1831)filósofo alemão, interno no seminário protestante em que estudava, durante uma Sexta-Feira da Paixão, teve um insight valioso: a Páscoa nos revela a dialética objetiva do real - tese, antítese e síntese. Viver é a tese, morrer é a antítese e ressuscitar é a síntese. 

Pensa sobre isso, entre um ovo e um bombom... E uma grande Páscoa pra você e pra todos os seus!

domingo, 28 de novembro de 2010

O invisível e o curioso

Nossas vidas são construidas através de imagens. Momentos que vivemos, que gostariamos de viver, coisas que foram inseridas em nosso cotidiano sem nos darmos conta. São esses resquícios que, em comunhão as impressões que sobram depois da experimentação, formam as visões de mundo, o caráter e constróem nosso repertório.

Muitas vezes não somos nós que juntamos todas essas fagulhas e transformamos em coisas palpáveis, pertinentes com a rotina necessária para nosso reconhecimento em sociedade. Somos também moldados por tudo que nos é dito, repassado, direcionado. A vivência de outrém muito interessa na constituição do sujeito. Para sermos indivíduos, precisamos nos rechear de coletividade.

Nesse contexto, observe a cidade de Mariana. Basta uma semana experimentando o lugar para que toda a bagagem que carregamos seja brutalmente modificada. Por trás dos casarões coloniais, das igrejas barrocas e de todo imaginário setecentista existe uma cidade comum, com problemas de infra-estrutura, com a rispidez dos moradores, com pobreza e violência.

A verdade é que a fuga é algo constante em todos. Lidar com problemas diariamente não é simples. A fluidez e a velocidade de tudo que nos cerca é, ao pé da letra, um labirinto. Assim, imaginar a paz interiorana e a perfeição barroca é uma espécie de fuga. Então fugimos. Para Mariana, para o colo da mãe. Paz de espírito é o "sonho da casa própria" da conteporâneidade.

Toda essa reflexão serve para amarrar um outro lugar de fuga, objeto de nossa pesquisa. Lugar que pode ser invisível ao desatento e inútil ao descrente. Escondida no fundo de um quintal, atrás de um supermercado e poluida por toda movimentação de um centro urbano, está a Ermida De São Geraldo. Construida em 1916, a capelinha é imponente para quem a descobre. Traz consigo pinturas em afresco, um jardim com árvores frutiferas, um pequeno lago com carpas e paz no meio do caos do centro da cidade. Existe ainda um mito: um provável osso do santo padroeiro, que aumenta a peculiaridade do lugar.

A São Geraldo Magela, padroeiro das mães e dos alfaiates, é atribuida uma qualidade aterradora, na ordem do super poder mesmo, a capacidade de ser bilocate, ou seja, estar em dois lugares ao mesmo tempo. Foi canonizado depois de uma vida humilde e injusta, com falsas acusações e a rejeição da própria Igreja Católica.

Mas foi um outro Geraldo o responsável pela construção do santuário. Geraldo Carneiro, que nos fundos da sua casa, segundo tradições passadas, ergueu a capela em homenagem ao santo homônimo. Desde então está aberta para visitação. E é muito visitada. Uma missa é realizada toda segunda-feira, excursões de outros lugares são promovidas e existe até um coral que lá se apresenta. E é estranho perceber que muitas pessoas conhecem o que você ainda não havia nem notado. Culpa da visão, que é usada apenas como sentido: ver. Já o olhar, que compreende uma especificidade muito mais humanizada, quase sempre sofre um revés no dia-a-dia das pessoas.

Uma vez dentro da ermida, a sensação de paz é imediata. Um estranho silêncio toma conta do lugar (que está no meio da eloquência dos pontos de ôbibus, comércios e trânsito efervescente, e ainda assim é silencioso), e só é interrompido pelo barulho de uma bica d'água, que só faz relaxar ainda mais.

Ao longo do tempo, as acomodações da capela vieram sofrendo ajustes. Aumentou de tamanho, anexou um sepulcro de Bom Jesus, abriu uma pequena loja de artigos religiosos. Tem fruta no pé, sombra, água de dois tipos: de mina e benta. Tem conforto religioso, para os crentes e conforto espiritual, para os necessitados.

O portão encoberto por plantas que mostra apenas um corredor estreito, e nada convidativo, esconde esse refúgio. Um refúgio que não faz propaganda. Que você só consegue fazer parte dele se receber um chamado boca a boca ou se tiver a curiosidade.

Mais do que uma entrada, o beco funciona como um portal. Depois de atravessá-lo, a primeira pessoa a ser vista é Seu José Efigênio, tratado por Zezé, uma espécie de zelador-faz-tudo da ermida. Acende vela, varre o chão, tira as folhagens e ainda vende imagens de santo na lojinha.

Apesar de muito solícito, Zezé diz que trabalha lá somente há dois anos. Logo, nossas questões não foram de cara respondidas, o que serviu de fermento para nossas pequenas dúvidas. Assim, começaram dois novos exercícios: observar e deduzir. Observar todas as faces que por lá passavam – os olhos fechados, os dedos pulando as contas do terço, sinal da cruz. Deduzir as angústias – as amarguras pelas quais essas pessoas buscavam conforto - ou as graças alcançadas, as bênçãos recebidas. Esses todos são mistérios, frutos também da nossa curiosidade.

É, no mínimo, um lugar diferente. Causa um sentimento estranho, de não pertencimento, e parece ser exigido que pertençamos a cada passo à dentro da instalação. É o incômodo do novo, misturado com o constrangimento do primeiro dia de aula em uma turma diferente. As coisas não estão óbvias. Não existe nada escancarado. Uma hipótese formada: talvez essa seja a prova de fogo para o conforto que os frequentadores assíduos parecem desfrutar.

E a boa resposta é aquela que gera mais dúvidas e, portanto, nos deixa mais curiosos. A curiosidade é algo muito difícil de se lidar. Ela é recompensada com o conhecimento. Porém, para alcançarmos esse resultado, é necessário antes que sejam derrubadas muitas barreiras, preconceitos e mitos já bem resolvidos em nosso repertório. Esse confronto é constrangedor, uma espécie de catarse.

E as perguntas ainda não foram respondidas. E tomara que nunca sejam. Pois quando se trata do homem, a simetria não é uma regra. E a certeza é só uma manifestação da preguiça de ser curioso.


Por Enrico Mencarelli e Tábata Romero


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