Mostrando postagens com marcador doença. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador doença. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Parar para ver o Outro

O rei invisível
coroado até no nome
Sem proferir uma palavra
Fez o mundo todo parar.

Parar para ver o Outro
o Outro que não é alheio
Já que tudo o que faz por ele
Atinge também a mim
Porque tudo se conecta
Se contagia
Tudo é viral.

Parar para ver o Outro
O Outro a quem sem demora
Se amará mais e agora,
pois a firme garantia no Depois
é coisa que ficou no Antes.

Parar para ver o Outro
O Outro a quem não se via
Os subnotificados
do dia a dia
mascarados de cara limpa
Sem home, mas com fome,
Sem office, mas com óbice.

Parar para ver o Outro
o Outro que também sou eu.

(...)

E já não há retorno
É um caminho sem volta
Para uma nova forma de olhar.
Para uma nova forma de ser.

(...)

O rei invisível
coroado até no nome
Fez o mundo ver,
enfim,
Que sem o Outro
Será o fim.











quinta-feira, 28 de julho de 2016

Anotações de uma pessoa depressiva e ansiosa

Não é fácil ter uma doença que você não pode ver os sintomas.

Uma das principais dificuldades é entender (e fazer entender) que um transtorno mental não é uma frescura, que é tão grave quanto câncer ou diabetes. Doenças como depressão e ansiedade são o inferno, tanto para quem vive como para quem convive. 

É desgastante acordar se sentindo um lixo e com a mente cansada, sem ânimo pra sair da cama, sentindo que tudo te ameaça e te atordoa. É complicado para quem vê de fora entender que estas sensações são verdadeiras, que naquele momento o pior que você pode fazer é usar sua dose de "verdades", chamando a pessoa de incompetente, preguiçosa, que está fazendo drama.

Basicamente, é uma doença que resulta de desequilíbrios químicos no cérebro. Ou seja, não é algo que você vence por "força de vontade" ou se você "se esforçar um pouco mais". Falar isso para alguém com este problema é tão eficiente e legal quanto falar para alguém com câncer que esta pessoa poderia tentar não ter o tumor, pra variar. 


Acredito que os piores momentos que passei durante as minhas crises, foram aqueles em que recebia críticas. É preferível ter um ataque sozinha do que com alguém (além de você) que te ataca por perto. E nenhum ataque era pior do que os que a minha mente produzia, eu sou meu pior inimigo.

É frustrante não conseguir mais focar em nada, e me sentir um estorvo. Tirando minha cama, não existe zona de conforto, nenhum lugar é seguro. Perdi a conta de quantas crises tive nos últimos anos. Tem épocas em que contamos nos dedos quais são os dias bons, porque os dias ruins podem ser esmagadores. 

Geralmente as pessoas se surpreendem com uma notícia de suicídio, porque acham que foi do nada, entretanto, é uma luta constante contra este pensamento. É um bombardeio diário de como seria mais fácil pra você e para os outros se sua existência acabasse.


Períodos de baixa já me abalaram a ponto de ficar no limite de repetir em matéria por faltas, por conta de dias em que não conseguia sair da cama, o que dirá sair na rua e ir para a aula. 

Já tive que ouvir de professor que era melhor desistir da matéria, se eu não tinha capacidade de lidar com pressão. 

Já tive que explicar meu baixo rendimento e ter que ouvir que eu era uma pessoa fraca, que era falta de esforço. 

Já fiquei me cortando porque achava que merecia ser punida, por ser alguém tão incompetente, tão lixo. E também ouvi que o que tinha era chilique, que eu era uma oportunista.

Já ouvi que depressão é doença de rico, de quem está com muito tempo livre.

Não é fácil ter uma doença que você não vê os sintomas, mas que atrapalha toda a sua vida. Que te inibe de cumprir suas metas, de resolver seus problemas ou simplesmente relaxar. Não é fácil sentir dor o tempo todo, tanto física quanto mentalmente e estar sempre cansada. 

Mas tudo isto fica imensamente difícil sem ter apoio. Se você é estigmatizado o tempo todo, por procurar ajuda, por usar remédios. Que você tem que se esforçar pra ficar sem eles, já que você está melhor - quando é a medicação que está te fazendo ficar mais estável.


Então gostaria de deixar esta observação pra quem está lendo, porque talvez você se reconheça em algum pedaço disso tudo: nada disso é fácil,  a nossa mente pode ser extremamente tóxica, e reconhecer estes problemas e procurar ajuda não é um sinal de fraqueza, é de sensatez. Não ser babaca com quem sofre disto já é meio caminho andado. 

E se você tem alguma dessas doenças, quero que você saiba: você não está sozinho.


sábado, 13 de agosto de 2011

Enfermo

Hoje fez um dia lindo no Rio de Janeiro. Um sábado de sol reluzente e céu bem azul. Me disseram pois não vi. Passei a tarde toda num hospital.

Fui apenas refazer um exame de sangue que tinha feito na quarta-feira para confirmar os efeitos da picada daquele mosquitinho sacana que voa por aí fantasiado de branco e preto.

Entre a minha chegada e todas as outras etapas passaram se quatro horas e meia.

A maior parte do tempo passei sentado, lendo Um estranho no ninho e escutando um tipo de bingo de nomes narrados por um computador com sotaque lusitano.

As cenas foram todas tristes; Várias senhoras precisando de atendimento, pessoas que foram assaltadas e agredidas, gente com dor e várias outras querendo atenção para suas enfermidades.

Durante a espera, o seu nome é chamado várias vezes numa tela com a indicação de onde você precisa ir. Você fala com várias pessoas e nenhuma delas toca em você, inclusive o médico que escuta os seus sintomas olhando para a tela do computador e digitando tudo sem parar.

Em horas como essa você fica frágil com a situação e triste com de tudo o que vê. Sem o peso dos 28 anos eu penso alto:

- Eu só queria minha mãe.

Mas nessas horas também você se sente humano ao extremo, se coloca no patamar de todas as outras pessoas independente de qualquer coisa. A dor e a doença nivelam.

Ao sair do hospital ainda escuto uma das atendentes dizer que é uma afronta trazer Copa do mundo e Olimpíadas para o Brasil na situação que a saúde se encontra. Eu concordo e saio.

Nessa hora o sol do dia bonito no Rio se foi, mas lá de dentro, entre sangue, tubos e agulhas, eu imaginei a praia, o mar, as ondas e pensei que tudo poderia ser pior.

Ao voltar para meu livro leio “a imaginação é capaz de atravessar qualquer prisão”.

Tchau sábado 13.

Bem-vindo Agosto.