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quarta-feira, 22 de maio de 2019

Matilda e o filme que já foi visto


Estou lendo Matilda pra Júlia, minha filha de 6 anos. Ele foi escrito por Roald Dahl, no País de Gales, em 1988. Eu o li pela primeira vez no fim dos anos 90 e, apesar de ter adorado o livro, achava os pais de Matilda caricatos demais, não achava que aquilo podia existir de verdade, que ninguém precisava ter que explicar para alguém o que a Srta. Mel, a professora de Matilda, explica para eles. Até que, relendo o livro agora, dou de cara com um diálogo que acompanhamos todos os dias no sombrio Brasil de 2019. Como é triste perceber o quanto retrocedemos. Reproduzo as páginas abaixo.

De todo modo, apesar desse triste reconhecimento num livro caricato escrito há 3 décadas, recomendo muito a leitura de Matilda e de toda a obra de Roald Dahl (A fantástica fábrica de chocolate, por exemplo). Ele escreve respeitando a inteligência das crianças e permite discussões importantes, como essa trazida nas páginas a seguir.


sábado, 28 de fevereiro de 2015

cotidianização da violência

Recentemente, numa reportagem do dailymail, o Brasil ficou listado como o 2º pior país para mulheres viajarem. Alguns ufanistas ficaram indignados e chamaram a reportagem de tendenciosa, outros... culparam o PT (ultimamente essa galera anda xingando o partido até em notícia sobre buraco negro - notícia bem legal aliás, buraco negro gigantesco, massa 12 bilhões de vezes maior que a do sol e tal).



Entretanto, para as mulheres daqui isso não é nenhuma novidade. Nunca foi.

Não é novidade porque estamos num país onde Bolsonaros alegam que “só não te estupro porque você não merece” são chamados de mitos e salvadores da pátria, como se ser objetificada e classificada como passível ou não de merecer um estupro fosse algum tipo de mérito.

Este é o mesmo país onde Alexandre Frota conta num programa de auditório que violentou uma mãe de santo e é aplaudido. Os comentários sobre o vídeo onde há esta declaração, aliás, fazem perder a (pouca) fé na humanidade: pessoas alegando que, como ele não usou a palavra estupro, não houve a violência. A vítima não consentiu, pediu para ele parar e ainda desmaiou, tamanha a violência empregada. Mas não, não era estupro: era piada em rede nacional.

O apresentador do mesmo programa, Rafinha Bastos não fica longe: há alguns anos atrás declarou que “toda mulher que reclama que foi estuprada é feia” e que “o homem que cometeu o ato merece um abraço, em vez de cadeia”.

Ao passarem impunes por suas declarações, que continuam sendo internalizadas e repetidas no cotidiano, eles reforçam um ciclo: num país onde uma mulher é estuprada a cada 12 segundos, não é difícil compreender que uma estatística como essa é produto de uma cultura que valoriza e cotidianiza a violência sexual. Estas pessoas fazem atentar para a relatividade das leis, do quanto uma violência pode ser moldada para se encaixar numa noção deturpada de realidade.

Essa mesma noção fez com que, no dia 15 de fevereiro, uma adolescente de 13 anos fosse vítima de um estupro coletivo em Osasco. Estes homens, indo um pouco além de qualquer julgamento a respeito de suas personalidades, basicamente foram treinados, desde nascimento. Foram desafiados e educados a testar sua superioridade enquanto dominantes, “viris”, a olhar para uma mulher e não vê-la como um ser humano. A perversidade masculina é algo ensinado, algo que se aprende, e se aprende que “tudo bem, nada de mais”. E, justamente para garantir esse status é colocada a imagem da vítima enquanto merecedora de uma punição, um objeto de piada, afinal, quem mandou estar no lugar errado e na hora errada? Quem mandou falar demais? Você escolheu isto para você, agora sofra as consequências.

De fato, o Brasil não é um país recomendado para mulheres.


domingo, 14 de julho de 2013

Tratado de/ Manifesto de Tordesilhas

(Algodão, uma planta brasileira?)

- Quem descobriu o Brasil foram os ingleses! É. Não foram os portugueses.-"aqueles caras"
-Como assim? Então mentiram para mim na escola e na faculdade? Tá bom, talvez eu não tenha prestado atenção naquelas aulas....-"o sentimento de culpa"
-Quem descobriu foram os índios!-"a vermelha cor de rosa"
-E os holandeses?-"nordestinos"
-Foram os portugueses! As caravelas! Peludos, barbudos, cheios de roupas e coroas. E padres!-"a lembrança da escola"
-Foram os japoneses! Ou chineses! Eu nunca consigo diferencia-los muito bem....os koreanos também....enfim, os índios tem olhos puxados e tal...-"a tentativa"
-Puta como a gente é burro!-"ela"
-E vc acha que alguém sabe? Claro!Os professores universitários sabem..... Ah, tá!-"aqueles caras"
-Os índios.....-"nostálgico"
- A gente não sabe é de nada. As histórias são uma mentira política. Você precisa acreditar em algo para ser controlado -    "pensa que é ateu"

- Não foi descoberto por ninguém, ainda. Ou foi descoberto e escondido e descoberto de novo a muito tempo atrás. Escondido atrás de folhas de bananeiras, protegidos por jiboias e coros de cigarras. - Eu.

-Ainda não foi descoberto. Ainda nem nasceu. Dorme em tantas utopias universais. O Brasil não existe. É uma metafísica. Um aroma. Um desenho abstrato. Uma vontade.- Eu mesma.

- Brasil é uma ideia nazista, fascista, nacionalista, europeia...Racista e homofóbica! O Brasil ainda é uma colônia. O Brasil ainda está no mapa. Em alguma garrafa. Boiando em algum oceano. Em um sonho de uma criança do futuro.- Eu.

- Ah mas o que está por traz da nação? O que você está procurando? O que é puramente brasileiro? Havaianas? Feijoada? Batata, algodão, cravo-da-índia? Poodles, Puggys? Girassóis?-Eu mesma.

-Não importa! Tudo hoje é coca-cola, leite moça, carne de soja, Mac......sei lá. Não sei para o que isso importa efetivamente.....
Digo, isso não dá dinheiro, dá? Nem como literatura, né?-Eu.

-Acho que isso é a coisa mais importante do mundo. A nossa identidade, sem separatismo, nem "sectarismo". Somente o subjetivismo, a idiossincrasia......A história dos indivíduos na galáxia, sem sentimentalismos.....-Eu mesma.

-Tá, mas eu realmente não estou segura do quanto vale a pena falar sobre isso em um blog às 22:58.

Pessoal: meu dia foi ótimo! Eu espero que vocês tenham tido um ótimo domingo. Acordei tarde. Improvisei uma salada de fruta. Fui no mercado. Almocei sopa de bardana. Recebi meus tios. Assisti uma aula de bolo de cenoura. Ouvi música. Ouvi. Abracei. Beijei. Conversei.Dei risada. Comi e bebi! E desisti de postar um texto falando da minha semana de alta gripe.   

sábado, 13 de agosto de 2011

Enfermo

Hoje fez um dia lindo no Rio de Janeiro. Um sábado de sol reluzente e céu bem azul. Me disseram pois não vi. Passei a tarde toda num hospital.

Fui apenas refazer um exame de sangue que tinha feito na quarta-feira para confirmar os efeitos da picada daquele mosquitinho sacana que voa por aí fantasiado de branco e preto.

Entre a minha chegada e todas as outras etapas passaram se quatro horas e meia.

A maior parte do tempo passei sentado, lendo Um estranho no ninho e escutando um tipo de bingo de nomes narrados por um computador com sotaque lusitano.

As cenas foram todas tristes; Várias senhoras precisando de atendimento, pessoas que foram assaltadas e agredidas, gente com dor e várias outras querendo atenção para suas enfermidades.

Durante a espera, o seu nome é chamado várias vezes numa tela com a indicação de onde você precisa ir. Você fala com várias pessoas e nenhuma delas toca em você, inclusive o médico que escuta os seus sintomas olhando para a tela do computador e digitando tudo sem parar.

Em horas como essa você fica frágil com a situação e triste com de tudo o que vê. Sem o peso dos 28 anos eu penso alto:

- Eu só queria minha mãe.

Mas nessas horas também você se sente humano ao extremo, se coloca no patamar de todas as outras pessoas independente de qualquer coisa. A dor e a doença nivelam.

Ao sair do hospital ainda escuto uma das atendentes dizer que é uma afronta trazer Copa do mundo e Olimpíadas para o Brasil na situação que a saúde se encontra. Eu concordo e saio.

Nessa hora o sol do dia bonito no Rio se foi, mas lá de dentro, entre sangue, tubos e agulhas, eu imaginei a praia, o mar, as ondas e pensei que tudo poderia ser pior.

Ao voltar para meu livro leio “a imaginação é capaz de atravessar qualquer prisão”.

Tchau sábado 13.

Bem-vindo Agosto.