sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Sobre ideologias



[na imagem acima, um africano judeu trajado de americano/inglês - símbolos das culturas degeneradas]


"As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios da produção material dispõe também dos meios da produção espiritual, de modo que a ela estão submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos daqueles aos quais faltam os meios da produção espiritual." (Marx e Engels, A Ideologia Alemã)

Ao analisar a luta de classes como um fator preponderante na história da humanidade, e considerando que os valores de uma determinada parcela se sobrepõem a outros, é interessante questionar se os desdobramentos desse embate também se refletem no que se entende por arte atualmente, ou se eles se aplicam apenas em determinados setores da sociedade, se existem áreas estão livres de influências políticas/ideológicas.

Em outras palavras, é possível considerar a produção artística (principalmente as mais recentes) como um resultado da luta de classes? Ao abordar esta questão, é preciso considerar se há uma ideologia de classe para delimitar o que é arte, e consequentemente seus desdobramentos nas relações de produção. Porque o que a gente gosta é de xingar burguês safado.

Por motivos de tempo (tamanho de texto, preguiça e fome), vamos adotar o conceito de ideologia como uma teoria geral para a explicação da realidade e dos mecanismos da sociedade na qual o indivíduo está inserido (seus valores, sua cultura), e, portanto, sujeita a alterações ao longo dos períodos históricos. 

No livro O Que É Ideologia, encontramos alguns trechos que reforçam esta ideia:

“Um dos traços fundamentais da ideologia consiste, justamente, em tomar as ideias como independentes da realidade histórica e social, de modo a fazer com que tais idéias expliquem aquela realidade, quando na verdade é essa realidade que torna compreensíveis as ideias elaboradas.

(...)

Além de procurar fixar seu modo de sociabilidade através de instituições determinadas, os homens produzem ideias ou representações pelas quais procuram explicar e compreender sua própria vida individual, social, suas relações com a natureza e com o sobrenatural. Essas ideias ou representações, no entanto, tenderão a esconder dos homens o modo real como suas relações sociais foram produzidas e a origem das formas sociais de exploração econômica e de dominação política. Esse ocultamento da realidade social chama-se ideologia.”

Basicamente, entendemos aqui que ideologia não é a relação atual do indivíduo com sua condição vida, mas a maneira que ele enxerga essas relações - e temos aí duas condições de existência, as reais e as imaginadas. Numa ideologia se expressam as relações imaginadas em seus princípios (conservador, conformista, reformista ou revolucionário). Existem concepções mais ou menos diferentes de ideologia ao longo do da história, dependendo da linha filosófica, mas esta é conveniente para o desenvolvimento da ideia que eu quero expressar aqui. 

Considerando a ideologia enquanto algo imanente à natureza humana, em sua necessidade de explicar a realidade e suas relações, voltamos à pergunta, se é possível podermos considerar que há uma ideologia de classe.

A dominação do homem pelo homem é explicitada na divisão de classes em um sistema. Uma classe social é uma parcela de indivíduos com o nível cultural, social, econômico e políticos similares: sua ocupação no sistema de produção social e suas relações com os meios de produção na organização social do trabalho. A partir destas relações temos classes exploradas e classes exploradoras.

Partindo do princípio que a história é contada pelos vencedores, assume-se que os valores também o são. Logo, se existem ideologias dominantes e que são derivadas das classes dominantes, há a replicação destes princípios para as outras classes, que as absorvem. 

Há sim uma série de valores estéticos aplicados à arte, e isto - querendo ou não, é uma ideologia. Uma cultura ou manifestação artística que é marginalizada é uma expressão que não reproduz os valores expressos nesta estética vigente - e, enquanto ideologia, é algo que tem seus valores alterados ao longo do tempo - por consequência, o que é rechaçado hoje pode não ser amanhã. Também é importante lembrar que a ideologização burguesa da arte vem na revolução industrial e não exatamente no início da formação da sociedade e esse é meu foco aqui. não vou me aprofundar em teoria nenhuma pelo amor de deus eu não sou especialista só quero reclamar um pouco me deixa (mas uma amiga me disse que Lukacs é mó legal, se quiser considerar esses paranauês)

Tendo isso definido, finalizo o texto com uma olhada por cima na questão do cerceamento à cultura, algo que tem sido bastante visto/discutido nos últimos tempos. Por que uma arte é considerada mais ou menos adequada? Qual o sentido dessa censura e marginalização do que é diferente? 

Vemos muito deste discurso principalmente em classes que não são dominantes, mas se enxergam como tal, tendo absorvido e replicado entre si os valores que lhe foram repassados. A ideologia das classes exploradoras serve antes de tudo para a manutenção do status quo, pois justificam as relações nas quais as pessoas estão inseridas. 

Se um determinado tipo de manifestação é excluído, considerado inferior à determinado estilo, é porque a ideologia expressa no primeiro vai encontro ao padrão estético vigente - um grupo marginalizado tende a fazer arte marginalizada, tanto por ser excluído das relações sociais, quanto devido ao fato de que o que é expressado no ideal dominante não contempla ou dialoga com sua realidade. Uma cultura não é menor ou menos importante só porque não se encaixa em padrões impostos, mas ela pode ou não ter uma influência e recepção maior, dependendo do meio onde está inserida. 

E, se a ideologia dominante define o que deve ou não ser mostrado, a arte censurada vai contra estes valores, um contraponto à bolha do isolamento: ela é, sobretudo, resistência e questionamento, posturas extremamente necessárias nos dias de hoje.


----


[Sobre a imagem no começo, segue esse texto da Wikipedia pra explicar o que era “arte degenerada”: 

"Arte degenerada" (em alemão, entartete Kunst) foi o termo oficialmente divulgado para a arte moderna, difamada com justificativas de teoria racial durante o governo nazista na Alemanha. O termo “degeneração” (Entartung) foi emprestado da medicina para a arte no final do século XIX.

No Regime Nazista, foram consideradas "arte degenerada" todas as obras de arte e movimentos culturais que não estavam de acordo com a concepção de arte e o ideal de beleza dos nacional-socialistas, a chamada Deutsche Kunst (arte alemã). Estes movimentos incluem: Bauhaus, Dadaísmo, Cubismo, Expressionismo, Futurismo, Fauvismo, Impressionismo, Nova objetividade e Surrealismo. Além disso, todas as obras de artistas de origem judaica foram classificadas como degeneradas. ]


----


Referências:
  • A Ideologia Alemã, Marx e Engels - Editora Boitempo
  • O Que É Ideologia, Marilena Chauí - Coleção Primeiros Passos, Editora Brasiliense
  • Art History and Class Struggle, Nicos Hadjinicolau  - Pluto Press, 1979

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Antropoceno


Ano passado fui pela primeira vez ao Museu da Casa Brasileira. Vi a exposição “Remanescentes da Mata Atlântica & acervo MCB”  e saí de lá melancólica. Por meio de painéis fotográficos, recortes de jornal, a exposição apresenta memória do que foi a Mata Atlântica e o fato de que muitas espécies nativas só existem agora enquanto objetos, inclusive, na sala ao lado da exposição estão dispostos alguns exemplares desses móveis. Vidas inteiras (vegetação e animal) reduzidas a uma estante empoeirada...

Antropoceno. Termo cunhado para indicar que entramos num outro período geológico a partir das interferências humanas no ecossistema. Há uma mudança em curso e o que para alguns é descrito como o “fim do mundo”, para outros é o nascimento de outra era. O que tem lá na frente não sabemos, mas é certo que estamos caindo, como diz Ailton Krenak.

Há muito tempo tenho interesse pelos conhecimentos produzidos por comunidades tradicionais, mas agora estou particularmente interessada porque me recuso a permanecer em desespero. Para aqueles que viram o mundo acabar com a invasão e saque dos europeus, existe muita sabedoria acumulada em como continuar existindo e buscando uma vida boa.

O pânico cega. Parece que no cenário de opressão e catástrofe só nos resta encontrar um abrigo qualquer para não ser tão atingido. Esquecemos de questionar as opções: quem decide e dá as opções das nossas vidas? Como o tempo deixou de nos pertencer? É preciso olhar pra cima e respirar para não morrer sufocado. Respirar...

Pra mim, o mais triste de envelhecer está sendo perceber como fui deixando de sonhar. Ausência de sonhos, de imaginação, de utopia. Não é um problema meu, particular, mas ao que parece das sociedades capitalistas no geral. É como a máquina funciona manipulando nossas subjetividades dentro do labirinto que nos abre um caminho determinado a seguir. E segui-lo parece inevitável, independente se você se está feliz ou triste. O desafio, portanto, é conseguir encontrar meios de recuperar a capacidade de sonhar e lutar para construir uma era diferente. DORIME. AMENO.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

E daí?

Ética. Conceito que surgiu na Grécia antiga. Abstrato e complexo, duas pessoas podem desejar agir com ética seguindo caminhos bem diferentes, dependendo das referências que usem. Tendo surgido há tanto tempo, é bem provável que para o Jair é melhor jogar fora essa velharia.

Kant, notável pensador da ética, não era muito adepto da ideia de facilitar as coisas para seus leitores, os comentadores do filósofo deram uma força. Reduzindo quase no nível da autoajuda (perdão, Kant), agir com ética seria agir como gostaríamos que os outros agissem. Ou ainda, se alguém não puder saber o que você está fazendo, não faça. O motivo da pessoa não poder saber é o mesmo motivo que te impede de fazer. Difícil acreditar que o Jair compreenda, por mais didático e simplificado que deixemos.

Com minha pós em jornalismo recém concluída, presto mais atenção nas críticas feitas à imprensa. Jornalismo também tem ética. É dever do jornalista divulgar informações de interesse público e isso gera conflitos inevitáveis. Geralmente o interesse público bate de frente com o interesse de quem vira notícia, tipo o Jair.

George Orwell, autor do clássico 1984, uma distopia cada vez mais parecida com realismo, dizia que “jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”. Frequentemente esse “alguém” é o governante, portanto conflitos entre governo e imprensa são inevitáveis. O que Jair não entende é que podemos lidar com conflitos de forma ética e responsável. Difícil esperar essa compreensão de quem sequer chegou à maturidade.

Jornalistas não têm o direito de investigar e publicar falcatruas do governo, têm o dever de fazer isso. Claro que na prática isso não é tão simples e pode dar margem para que o jornal atue em interesse próprio, fomentando um golpe do qual também sofrerá consequências. Jair não é mais que um dejeto inesperado desse golpe.

Quando a ética não basta, pois a pessoa sequer compreende o significado, só restam as leis, que Jair já vem desrespeitando desde quando servia no exército, de onde foi expulso. Já no congresso encontrou terreno fértil para agir como uma criança mimada, que ao ser repreendida pergunta “e daí?” e tudo fica por isso mesmo. Até que um dia, seguidos “e daí?” começam a criar constrangimentos, entraves e problemas.

Se o jardim de infância também for conhecido como Palácio da Alvorada, os problemas podem atingir níveis internacionais, comprometendo o país todo. Resta saber quando e quem dará limites à criança mimada de 64 anos.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Chevening: o passaporte para o UK

Caros leitores, 

No meu post de boas vindas (disponível aqui), prometi compartilhar as minhas experiências na terra da rainha. Hoje eu quero contar como fui parar lá.

Meu passaporte para o UK foi uma bolsa de estudos chamada Chevening, o programa de bolsas do Foreing and Commonwealth Office Britânico (algo como o nosso Ministério de Relações exteriores, eu diria). Todos os anos, o Chevening seleciona pessoas com perfil de liderança e networking para ir fazer um mestrado no Reino Unido. Os candidatos precisam ter a intenção de voltar para o seu país de origem após os estudos, carregando a missão de fortalecer as relações entre o UK e o seu país.

O processo seletivo costuma ficar aberto entre agosto e novembro todos os anos. Então, save the date e fiquem ligados no site Chevening (https://www.chevening.org/scholarship/brazil/).  

O processo seletivo tem três fases:
1) Triagem
2) Entrevista
3) Comprovação de aceite na universidade e proeficiência em inglês

Na primeira fase do processo, é necessário preencher alguns formulários com seus dados pessoais, histórico acadêmico e profissional. Também é necessário escrever mini redações sobre:
- como você mostra habilidades de liderança e de networking
- o porquê de ter escolhido o UK
- indicar três cursos/universidade por ordem de preferência
- o porquê se ter escolhido o seu curso específico (que precisa ser um mestrado de um ano; também tem a opção de MBA, mas com financiamento parcial)
- como o que você quer estudar poderá fortalecer a relação entre Brasil e UK

Parece difícil, certo? E é mesmo! Eu diria, que para ser aprovado, você precisa saber muito bem o que você quer. Eu mesma fui reprovada na primeira vez porque estava perdida. Depois que me encontrei e convenci a mim mesma de que eu era boa em networking e liderança e sabia bem o que queria estudar, fui aprovada. 

Portanto, a maior dica que eu posso te dar é: olhe para dentro de você mesmo, descubra o que tem de bom aí (com certeza tem bastante coisa!), convença-se disso e depois vá a luta!

Quem foi aprovado na fase de triagem é convidado para uma entrevista em inglês com uma banca de três a quatro pessoas. A banca é formada por um representando do governo britânico, ex-bolsistas Chevening, um dos carinhas maneiros que tomam conta da Bolsa Chevening no Brasil. A entrevista é relativamente rápida e é basicamente uma repetição de tudo o que você escreveu na mini redações que comentei anteriormente. De novo, o que você precisa para ser aprovado aqui é estar muito seguro de si mesmo e saber bem o que quer. 

A última fase na verdade precisa correr e paralelo com as demais. Depois de enviar os seus formulários e mini-redações em novembro, você precisa se organizar para se inscrever nos cursos que indicou e fazer o teste de proeficiência em inglês. Então, caso você passe na fase 2 (entrevista) e seja convocado para a fase 3 (apresentação de documentos) você precisar ter esses dois documentos em mãos: 1) aprovação de ao menos um curso/universidade; 2) nota mínima no teste de inglês.

Para resumir, o processo seletivo todo leva uns 10 meses. Você começa a se inscrever em agosto e se for aprovado em todas as respostas, só fica sabendodo resultado final em junho/julho. Esse processo seletivo pe também um exercício de paciência. Mas acreditem: VALE MUITO A PENA.

Como já escrevi bastante por hoje, deixo aqui uma fotinho legal do meu evento de boas-vindas no UK. 


Nos próximo post, falarei sobre a frustração de ser reprovada na primeira tentativa e a alegria de ser aprovada na segunda vez.

Até breve.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Silêncio

Eu moro em São Paulo, a terra da garoa.
Há dois dias caiu uma chuva enorme, dizem que a última vez que choveu assim foi há trinta anos.
Tudo ficou debaixo da água. Tudo. Casas, carros, comércios.

Fiquei impressionada com o volume de água, mas nada me impressionou mais do que o silêncio das autoridades. O silêncio mortal do poder público. Nem ambulância escutei, depois fiquei sabendo que a central do SAMU, das ambulâncias, estava ilhada. Quem ajuda precisou de ajuda, mas não teve. Ficou ali isolada, com os funcionários lá dentro.

Não foi uma casa que se perdeu com a enchente, foram muitas. Até a Ceagesp, a central de alimentos, viu a água subir e assim sete toneladas de alimentos foram descartadas.
E o governador? Em Dubai, dizendo que estava trazendo novos negócios para a cidade. O prefeito? Disse que tudo o que era possível estava sendo feito.

Ninguém no governo pareceu se importar com o custo de uma enchente, seja de vidas, seja o custo econômico. São Paulo é um trem, precisa estar todo o tempo em movimento. 
Ver uma cidade parar e se afundar diante do silêncio de todos seus governantes me faz pensar que as pessoas que governam a cidade estão preocupadas com seu salário, seu dinheiro, não se sentem obrigados a trabalhar.

Água é uma manifestação barulhenta da natureza. Mas em São Paulo ela caiu em silêncio. Foi a noite mais quieta da cidade, debaixo da água, abandonada por todos.


domingo, 9 de fevereiro de 2020

9 lições que devemos aprender com os gatos

Qualquer pessoa que tem a sorte de conviver com gatos sabe o quanto eles são seres incríveis e maravilhosos. Acredito que nós, humanos, temos muito a aprender com essas criaturas e, por isso, hoje compartilho com vocês 9 lições que os gatos têm a nos ensinar:

1. Espreguiçar-se

Os gatos dormem muito, de 12 a 14 horas por dia. Ao acordar eles sempre se espreguiçam bastante, e estão cobertos de razão. Nada melhor do que ao despertar de uma longa noite de sono, espreguiçar-se, esticar os músculos e articulações até o ponto máximo, e em seguida relaxar. É como se você desse ao seu corpo a mensagem para ele se preparar para levantar depois de tanto tempo deitado. O movimento do gato se espreguiçando inspirou um asana na Yoga chamado espreguiçamento do gato (Marjaryasana) que tem vários benefícios e é muito fácil de praticar.

2. Dizer não


Os cães são famosos por sua fidelidade aos humanos. Já os gatos, são fieis a si mesmos. São livres e não se preocupam em sempre agradar e nem se forçam a fazer algo que não desejam. Se quiserem vir quando são chamados, eles virão. Se não quiserem, não estiverem a fim, apenas não virão e caberá a quem chamou lidar com a frustração.

Com os gatos aprendemos a dizer não e aceitar o não. A  valorizar a liberdade de si e do outro, e o livre-arbítrio de cada um.

3. Cair em pé

É muito interessante essa capacidade que os gatos têm de sempre caírem em pé. Tem a ver com o senso de equilíbrio desses animais aliado à suas vértebras maleáveis. Infelizmente nós humanos não temos o mesmo equilíbrio e maleabilidade, mas podemos exercitar essas habilidades no sentido psicológico, buscando ser pessoas mais tolerantes, flexíveis e equilibradas, para saber lidar bem com as quedas que teremos ao longo do nosso percurso.

4.  Ter autenticidade

Uma das coisas que eu mais admiro nos gatos é a autenticidade que eles possuem. É incrível como cada gato tem uma personalidade diferente. Por mais que possam se parecer no padrão da pelagem ou na cor dos olhos, sempre haverá alguma característica singular. Enquanto um é mais carinhoso e ciumento, podemos encontrar outro mais bonzinho e territorialista, outra mais desconfiada e exploradora, as combinações de traços de personalidade e idiossincrasias são infinitas. As pessoas mais interessantes, na minha opinião, são as autênticas, que não tem vergonha de serem quem são e não se importam com o julgamento alheio. 

5. Brincar

Os gatos brincam todos os dias. É uma ótima forma de gastar a energia, socializar com os outros gatos, treinar para caçadas e se divertir. E, diferente de nós humanos, eles não deixam de brincar depois que crescem. A vida adulta é difícil e em muitos momentos nos exige seriedade, mas é importante soltar as amarras e brincar de vez em quando, isso traz alegria e leveza para os dias.


6. Ter curiosidade

"A curiosidade matou o gato". A curiosidade dos gatos é famosíssima, e apesar do caráter negativo do ditado, a curiosidade bem aplicada pode ser muito positiva. A curiosidade nos move para buscar conhecimento e aprender coisas novas. O cientista é, antes de tudo, um curioso.


7. Ter boa higiene pessoal 

Os gatos são muito limpos e asseados. Aprendem desde filhotes a usar a liteira, enterram seus cocôs pra não ficar cheirando mal e tomam banho várias vezes ao dia. Passam horas se lambendo e lambendo uns aos outros. Quem dera se todos os humanos fossem tão limpos quanto os gatos! Nosso olfato agradeceria :).


8. Saber ignorar 



Porque às vezes, o melhor a se fazer é virar as costas e sair lindamente.

Os gatos são mestres em ignorar. Muitas vezes é preciso apelar para o sachê para se ter a atenção dos bichanos. Se formos capazes de aprender essa técnica avançada de desprezo, quantas tretas poderão ser evitadas? Quantas pessoas escrotas deixarão de ter a atenção que nunca mereceram? Quantos cabelos serão poupados (seja de caírem, seja de embranquecerem)? Estou ávida por esse dia!

9. Não julgar antes de conhecer



Finalizo com esta lição porque muitas pessoas dizem que não gostam de gatos, mas nunca conviveram com um. Já possuem uma série de argumentos infundados contra os gatos, que podem vir acompanhados de um medo irracional. Para essas pessoas, gostaria de propor que se permitam conhecer o mundo dos felinos, ao menos um espécime. Vá na casa de algum amigo ou familiar que tenha gato(s) e fique algumas horas observando, interagindo. Depois volte aqui e me responde nos comentários se mudou de opinião.

E você, é gateiro ou cachorreiro? Comente alguma outra lição que você aprendeu com os gatos. 


sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Sobre os aniversários...

Os sapatos que antes ocupavam as prateleiras na despensa agora repousavam em qualquer pequeno espaço do quarto; as roupas sujas amontoavam-se escondidas atrás do móvel grande, enquanto as xícaras, copos e panelas na cozinha precisavam ser procurados dia a dia diante da necessidade do uso, já que poderiam estar em qualquer lugar. Há algum tempo a casa andava sem ordem. Era preciso lembrar do tempo, do espaço, do ontem, do anteontem e do banho de agora.
Passava apressada de um lado pro outro, tentando organizar o que fosse possível antes de ir trabalhar, recapitulando as obrigações diárias, o artigo a ser concluído, as datas das próximas reuniões, as compras a serem feitas no mercado, a próxima consulta médica da minha mãe, a torneira que precisava ser consertada, a cama velha que implorava ser trocada... ressentida pelo tempo que eu não tinha. Enquanto andava de um lado para o outro da casa, preocupada com o atraso, o ônibus que passaria dali a 20 minutos - que, caso perdido, imputaria a pena de esperar por outro mais ou menos uns 50 minutos - fechei, pelo menos por cinco vezes, a porta do armário-depósito que ficava embaixo da escada “Preciso trocar essa fechadura”. Dei alguns passos e a porta abriu novamente.
Instantaneamente parei na intenção de voltar para fechá-la de novo, mas permaneci imóvel. O tempo, a casa, as memórias, o passado, o presente e futuro de repente fundiram-se em uma grade névoa escura e densa que parecia pairar sobre a minha cabeça e me dei conta de que era meu aniversário. Voltei alguns passos ainda de costas em direção ao armário e a porta estava ali, entreaberta, como se debochasse da minha falta de atenção, do meu desleixo, do meu cansaço. Quis fechá-la, juro que quis, mas subitamente a abri e percebi que havia esquecido completamente do que tinha lá dentro.
Num primeiro momento só avistei caixas, entulhos, coisas quebradas que estavam amontoadas há anos esperando conserto, poeira, fios e cabos elétricos que eu já não fazia a menor ideia de onde eram. Mas ali, escondidos atrás de tudo aquilo, estavam meus cadernos antigos em que eu escrevia minhas histórias, os trabalhos da escola que ela havia guardado com tanto carinho, o vestido e sapatinhos do meu batizado que “depois que eu morrer você pode dar um fim”, os bonés antigos do meu pai, os álbuns de fotografia... enfim, estava tudo ali ainda, imóvel diante de um tempo que passa sem trégua, carregando tudo, mesmo quando você implora que ainda tem muita coisa boa pra tirar daquele momento. Ele não tem freio. No armário ainda estavam guardados todos os sentimentos acumulados (e ali compactados) de uma vida toda, de um passado que ainda era mais aconchegante e amoroso. E eu os conhecia todos, acompanhavam-me dia a dia diante da tarefa de continuar, de projetar e alcançar sonhos para na sequência desfazê-los em razão da urgência da vida; acompanhavam-me na solidão, no cuidado crescente para com a minha mãe (os papeis estavam invertendo-se), do medo de não conseguir, do cansaço da repetição dos menores detalhes. Mas ali, guardados no armário, estes sentimentos pareciam sorrir enquanto diziam que não precisavam doer, e que tudo bem que hoje ainda ferissem, amanhã e talvez depois de amanhã, mas que eles só precisavam de mim para serem ressignificados.
Olhei com pesar e tentei acolher todos eles em meus braços; por um momento tive gana de abrir todas aquelas caixas, desentulhar, desembaralhar, separar o que estava quebrado, procurar todos os velhos cartões de aniversários e sorrir pelos 35 anos de idade que se aproximavam, encontrar a força das mulheres da minha família que ultrapassaram tantos e tantos limites para ressoar em mim, trazer o ímpeto de reinventar sonhos, sorrir para o mundo, mas... tão instintivamente quanto parei para abrir a porta daquele armário, lembrei-me que o ônibus passaria dali a “uns 10 minutos, acho” e saí apressada, não sem antes beijá-la carinhosamente e perguntar o que ela queria para o jantar enquanto assistia sua autossatisfação por encontrar “amor” na revista de caça-palavras.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Só Bolsonaro não decepciona



Lá se foi 2019. Sabíamos desde 2018 que seria um ano de amargar, mas nutri algumas esperanças, ao menos para ter onde me apegar. Que ilusão.

Acreditei que a justiça resolveria o assassinato de Marielle Franco, mas hoje faz 677 dias que me pergunto quem é o mandante do crime e quais as razões.

Pensei que eventualmente o PSDB acordaria do delírio de uma oposição irresponsável, que resultou em patéticos 4,76% dos votos para a candidatura milionária de Alckmin, mas seguem culpando o PT até pelos problemas de São Paulo, que governam desde 1995.

Quem sabe a grande mídia não aprenderia, ainda que na porrada – por enquanto simbólica – a importância de uma cobertura honesta dos fatos, mas continuam varrendo para baixo do tapete as injustiças que vêm cometendo desde a articulação do golpe.

Talvez a própria população caísse na real depois que a “Vaza Jato” escancarou o óbvio. Sergio Moro, pintado como acima do bem e do mal, tinha lado, viés, interesse pessoal e fez muita gente de trouxa. Mas o escândalo só serviu para domesticá-lo e deixa-lo na coleirinha pelo presidente.

Os nacionalistas decerto se revoltariam ao saber que Paulo Guedes gostaria de vender até o Palácio do Planalto. Que nacionalistas são esses, dispostos e destruir o país e aceitar o sucateamento da ciência, pilar de sustentação de qualquer país? Mas basta uma demão de verde e amarelo para o mundo permanecer cor-de-rosa.

Não adianta. Há pouco mais de um ano, só Bolsonaro não me decepciona. O presidente me lembra um episódio do Chaves, quando o Prof. Girafales, didático como só um professor pode ser, diz o que parece caber como uma luva no representante do Planalto:

“Talvez a vocês o trabalho dele parece tolo, inútil, comum, vulgar. Sim. Concordo. Mas é que devem levar em conta que se trata de um indivíduo sem nenhum preparo. De um pobre diabo que nem sequer concluiu o primário. De um pobre infeliz que mal aprendeu a ler e a escrever. De um reles... de um joão-ninguém...”

E correspondendo, finalmente, às minhas expectativas, surge Bolsonaro cumprindo o que dele se espera. Um trabalho patético, subserviente, entreguista e submisso, em uma realidade paralela, onde o comunismo é uma ameaça e os Estados Unidos a solução.

Cansei de ter esperança. Para 2020 minha única expectativa é a do governo patético de um pateta. Não é bem algo em que posso me apegar, mas na atual conjuntura, evitar frustrações já é um passo importante.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Na terra da rainha

O título desse post talvez faça você pensar que eu vou escrever sobre o Megxit. Especialmente porque estou escrevendo logo após a rainha Elizabeth ter rompido o seu silêncio e se pronunciado a favor da decisão do neto. 

Para você que não sabe o que é Megxit, uma breve explicação: o príncipe Harry é casado com a atriz Meghan Markle. Há alguns dias os dois decidiram se afastar da realeza, renunciando o salário que recebem em busca de independência financeira. Nobre decisão. O termo Megxit, é um trocadilho com o Brexit (saída do UK da união europeia).

Sinto decepcionar, mas não falarei sobre Megxit. Entretanto, recomendo aos interessados a leitura de um texto da BBC: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51071090

Esse post está inaugurando a minha chegada ao Blog das 30 pessoas. Confesso que estou extremamente empolgada com essa aventura de escrever para um blog pela primeira vez. Ok, mas o que isso tem a ver com a terra da rainha? Bem, eu morei um ano em Manchester, na Inglaterra. Foi uma das experiências mais incríveis da minha vida! Foi tão bacana que acho digno de compartilhar com o máximo de pessoas possíveis. Por isso, os 12 posts que farei ao longo desse ano serão todos relacionados à minha experiência lá fora, na terra da rainha.

Para começar, vou contar como fui parar lá. Desde menina sempre tive o sonho de fazer intercâmbio. Pensei em fazer high school nos EUA, ser Au Pair, trabalhar na Disney, estudar inglês, entre outras coisas. 

Um belo dia uma colega de trabalho me marcou num desses posts do Facebook. O post anunciava a abertura de inscrições para uma bolsa de estudos chamada Chevening. Era a oportunidade da minha vida! Isso porque o governo britânico estava se propondo a financiar um mestrado full time para pessoas com potencial de liderança e networking. O processo seletivo é árduo, mas vale MUITO a pena. Primeiro, porque a bolsa financia TUDO, tudo mesmo (visto, passagens aéreas, as mensalidades do curso, e ainda te dão um dinheirinho mensalmente). Segundo, porque a experiencia de viver no Reino Unido, de estudar lá, de conhecer gente de todos os cantos do mundo, muda a vida de alguém para sempre. Mudou a minha.

Ao contrário da Megan que deseja sair, eu daria tudo para voltar. Explico o porquê nos próximos posts.

Abraços,
Jacqueline.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

O dia em que quebrei os dentes

Em um sábado a tarde muito gostoso e ensolarado, recebi uns amigos em casa. Histórias, risadas, ideias, churrasco e cerveja até a noite. No final da noite acompanhei os amigos até o portão para me despedir. Eles se foram, eu fechei o portão e estava voltando para casa. Do portão até a casa há um longo corredor de cimento, com uma leve inclinação ascendente. Não sei até hoje o porquê (não tinha pressa, nem vontade de ir ao banheiro, nem apostando corrida e muito menos tinha deixado a panela no fogo), mas decidi subir correndo. 
Estava de chinelo, tropecei, e caí. De cara, ou melhor, de boca no chão. Além da boca e do nariz, ralei o joelho. Doeu, mas levantei rapidamente, preocupada em não ter sido flagrada em um momento tão vexatório. Olhei para os lados, nenhuma testemunha. "Ufa", pensei aliviada, quase sorrindo. Resolvi que já tinha sido o suficiente para o dia e fui dormir. 
Naquele horário em que você ainda não sabe se ainda é madrugada ou se já é manhã, acordei com a urgência do xixi. Após me aliviar, lavei as mãos e levei o maior susto ao me deparar, no espelho, com uma cara toda arrebentada! E os dois dentes da frente quebrados!!! DOIS!!! DA FRENTE!!! 
Não podia acreditar. Voltei para a cama e fiquei pensando que eu tinha arrebentado minha cara, que eu tinha que ser cancelada, que 2019 tinha que acabar logo, antes que eu falecesse... Comecei a chorar de arrependimento e humilhação e meu companheiro acordou, preocupado, com o choro. "Que merda será que eu fiz?" foi seu primeiro pensamento. Eu, chorosa, contei o motivo das lágrimas. Ele primeiro ficou aliviado por não ter feito nenhuma merda, em seguida tentou ver meu rosto sem sucesso, pois o quarto estava escuro, mas me abraçou e disse coisas reconfortantes, fui me acalmando e voltamos a dormir.
Ao acordar pela segunda vez, ainda arrependida, porém pragmática, tentei recuperar a história, porque não, eu não consegui me recordar onde eu tinha caído. Depois de um tempo eu lembrei, e fomos no corredor, procurar os pedaços de dentes, mas não achamos nada. Mandei uma mensagem pra minha irmã, que é dentista e agendou consulta para o dia seguinte, uma segunda-feira antevéspera de natal. No dia seguinte já estava com os dentes reconstituídos e com a satisfação de poder passar o natal em família sem precisar cobrir a boca, apesar dos ferimentos. Foi até engraçado ficar com a "janelinha" no dente por um dia (meu companheiro disse que achou bonitinho, coisas de casal), mas foi terrível e não desejo isso pra ninguém legal. 
"Mas porque você não colocou os braços na frente para proteger o rosto?" Você pode me perguntar. Algumas pessoas de fato me perguntaram isso, e a resposta é muito simples, meus amigos: Minha irmã é dentista, não ortopedista!  
Além da janelinha, ganhei lábios
que deixariam Angelina Jolie com inveja




sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

2019, o ano da coragem

2019 cumpriu sua promessa. Acompanhar as notícias de jornal virou uma espécie de tortura, uma sequência de catástrofes, mortes, desmatamento, desemprego, empobrecimento, todo o tipo de ameaça ao bem-estar presente e futuro da maioria da população.

Outro dia no Twitter rolou uma "corrente" na qual os usuários contariam sobre as coisas boas que lhe ocorreram neste ano. Algumas pessoas ficaram ofendidas porque não haveria espaço para celebrar nada num ano tão marcado pela destruição.

Minha percepção é que se assolou no país uma tristeza generalizada. Mesmo para aqueles que se identificam com o fascismo, ninguém me parece alegre ou satisfeito. Fora isso, temos o bom e velho capitalismo que exige cada vez mais das pessoas eficiência e dedicação plena à vida profissional. A competição extremada do mercado de trabalho gera angústia e instabilidade emocional. Muitas pessoas não conseguem sequer cultivar um hobby ou mesmo usufruir do seu tempo livre sem se preocupar em fazer algo útil.

A Companhia das Letras publicou uma palestra provocativa do Ailton Krenak chamada "Ideias para adiar o fim do mundo". Deixo aqui minha indicação de leitura para este final de ano. Fiquei muito tocada com o texto porque ele foi de encontro às minhas angústias com o fim do mundo cada vez mais próximo. 

Assim como eu, muitas pessoas se desesperam com o colapso ambiental e a luta homérica contra as injustiças sociais que parece não ter fim. O desespero leva ao pânico. Acho que é sobre isso quando o Ailton fala que não sabe se os brancos vão aguentar o fim do mundo. Mais de 500 anos desde a invasão portuguesa, mais de 500 anos desde o fim do mundo e ainda existem diversos povos indígenas no Brasil. E como eles resistiram?

Uma possível leitura é que eles resistiram criando sentido de viver em sociedade, gozando do prazer de estar vivo. Resistiram a ordem de integrar o "mundo dos zumbis", não permitiram que seus corpos ficassem tristes. Como disse o filósofo Deleuze, o poder necessita da tristeza porque é assim que consegue dominar: é pela alegria que temos potência de criar e resistir.

Termino o ano com essa reflexão: a urgência de recuperar a alegria de viver e a coragem para enfrentar a vida. Quando o mundo estiver pesado demais é preciso empurrá-lo de volta pra cima e respirar fundo. Se estamos nos encaminhando para o fim do mundo, podemos ao menos tentar adiá-lo como sugere o Ailton Krenak.

domingo, 22 de dezembro de 2019

Melhores livros lidos em 2019

Quem me conhece um pouco, sabe que sou apaixonado por literatura e por livros. Quem me conhece um pouquinho mais, certamente saberá que também sou um esquisito admirador de listas. Assim, não posso deixar de juntar estas duas paixões e, pelo terceiro ano consecutivo, publicar minha lista de melhores leituras do ano. Nunca é demais repetir que não se trata de uma lista de livros publicados em 2019, mas de livros cuja leitura fiz neste ano coxinha que já está terminando.

Minha lista é bastante tendenciosa. Nos últimos 4 anos meus interesses têm se voltado bastante para literatura brasileira e hispano-americana contemporânea, de modo que isso se reflete aqui também. De tempos em tempos, é claro, também leio autores mais clássicos (e dois deles se fazem presentes aqui), mas preciso dizer que são minoria. Bom, mas vamos à lista (que não segue ordem alguma)!

A uruguaia e Uma noite com Sabrina Love, ambos de Pedro Mairal (Argentina) - Mairal tem um grande poder de nos fazer empatizar com seus personagens e seus dramas. Não dá pra largar seus livros depois que lemos a primeira linha. É uma prosa viciante, com diálogos e reflexões com os quais gostaríamos de participar, de falar junto, torcendo por seus personagens, seja o quarentão Lucas Pereyra, tentando resolver seus inúmeros problemas pessoais enquanto deambula pelas ruas de Montevidéu, seja o adolescente Daniel Montero, em sua saga para chegar a Buenos Aires para passar uma noite com Sabrina Love, a estrela do canal pornô que sorteou seu nome, entre milhares, como nos programas de auditório tão comuns nos países latino-americanos.

A vegetariana, de Han Kang (Coréia do Sul) - Baita livro, o primeiro de uma escritora sul-coreana que li na vida. A grande questão de A vegetariana é mostrar o quanto as pessoas se sentem no direito de intervir em escolhas individuais alheias (sobretudo se envolvem corpos femininos, sobretudo em sociedades conservadoras - assim, tipo a brasileira). O livro é dividido em 3 partes, cada qual com um narrador distinto, cada um com uma narrativa acerca do fato da protagonista ter se tornado vegetariana. A grande sacada do livro é que nenhuma dessas narradoras é a própria protagonista. Só sabemos o que falam dela, nunca o que ela fala de si própria.

Sombrio Ermo Turvo, de Verônica Stigger (Brasil) Este livro é uma aula de escrita em forma de contos. Nenhum deles passa perto de qualquer convencionalismo e sempre deixam o leitor com o disjuntor caído ao final. Mais um baita livro de Verônica Stigger!

O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Marquez (Colômbia) - Gabo é pra se ler em voz alta, sentindo o sabor de cada palavra. Este talvez seja seu livro mais poético, a história do amor obstinado de Florentino Ariza, que precisa esperar 50 anos para poder se declarar para Fermina Daza. Um grande tratado sobre o amor que, ao contrário de outros livros do gênero, não cai uma linha sequer em qualquer tipo de pieguice. 

Nocilla Experience, de Augustín Fernandez Mallo (Espanha) - Mallo se auto-declara representante de uma "literatura móvel" ou fluida. Em Nocilla Experience (que compõe com Nocilla Dream e Nocilla Lab uma trilogia) temos exatamente isso, trata-se de uma coleção de textos curtos, altamente povoados de ícones da cultura Pop - Nocilla nada mais é que a Nutella espanhola) que permitem uma leitura quando tomados isoladamente (quando vistos de perto, digamos, como quando nos aproximamos de um quadro) e uma outra leitura quando lidos em conjunto (quando vistos de longe).

Alguma Poesia, de Carlos Drummond de Andrade (Brasil) - Este ano resolvi parar de ler os poemas de Drummond no modo aleatório e lê-los de modo mais sistemático (não que seja ruim ler aleatoriamente, mas quis fazer essa experiência), lendo os 7 primeiros livros dele, de "Alguma Poesia" até "Fazendeiro do Ar". Poderia escolher qualquer um para estar aqui, mas escolho o primeiro, aquele que tem as bases da poesia de Drummond e que reúne os poemas que ouvi desde sempre, como "Poema de Sete Faces", "No meio do caminho", "Cidadezinha qualquer" e "Quadrilha".

O teatro da rotina, de Alex Xavier (Brasil) - Da nova safra de ótimos escritores brasileiros, Alex Xavier tem um repertório infinito de procedimentos narrativos em seus contos, onde consegue extrair o fantástico de situações mais rotineiras. 

Bonsai A vida secreta das árvores, de Alejandro Zambra (Chile) - Os dois primeiros livros de Zambra já tiveram edições separadas pela Cosac e agora aparecem em edição única pela Tusquets. Além de ambos terem a figura de árvores como referência, também tratam igualmente de desencontros amorosos. Além disso, os dois livros são narrativas curtas, de linguagem muito potente, que vale por si só. A primeira passagem de "Bonsai" já nos diz que a literatura de Zambra busca muito mais uma linguagem do que um grande tema: "No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre. O resto é literatura".

E você, quais foram seus livros favoritos de 2019? Cite aí nos comentários (nem precisa dizer o motivo...rs).

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Especial de Natal

Sobre o Natal guardo desde a infância a memória de uma época de paz, confraternização e a família quase se engalfinhando por conta da uva passa no arroz. Isso no fim dos anos 80. Os argumentos de cada lado eram defendidos com fervor, enquanto eu ficava pensando por que não fazer duas travessas de arroz separadas.

No fim dos anos 90 o debate anual seguia firme e forte, porém, entre uma uva arremessada nas costas do tio Alcínio e uma pimenta maldosamente mocozada no prato da tia Anísia, alguém resolveu elogiar a privatização da Vale do Rio Doce e da Telebrás, concluindo que isso acabaria com a roubalheira.

O debate foi acalorado, sem conclusão, mas intenso o suficiente para tirar o foco das pequenas pérolas negras que adornavam o arroz. Foi um marco. A primeira quebra no monopólio da discórdia.

Uma década mais tarde eu já tinha idade para participar das discussões, mas mantive minhas raízes de neutralidade. Mantinha minha passividade suíça em meio à guerra. Acreditava que a lenga-lenga da uva passa seria superada pela maçã que apareceu na maionese, mas alguém lembrou que, contrariando as expectativas do começo da década, o governo do PT vinha fazendo um bom trabalho.

Com a picanha na churrasqueira, teve gente que lembrou do mensalão e, com um copo de caipirinha na mão, chamou o Lula de cachaceiro. A Dilma foi chamada de feia, para desespero da minha prima, que fez um árduo discurso sobre o machismo do falso argumento.

Ano passado a coisa ficou mais tensa. Cheguei a acreditar que algumas questões fossem para as vias de fato. Entre promessas passadas, não cumpridas, e promessas para o futuro, impossíveis de serem cumpridas, as uvas passas até adoçaram um pouco, à contragosto de alguns, aquela ceia amarga.

E chegamos ao paradoxal 2019, que passou voando apesar de parecer ter 487 meses. A ceia de Natal passou a ser combinada pelo grupo de família no Whatsapp. Era tradição que a primeira exigência fosse as uvas passas no arroz, seguido do primeiro protesto, contra a presença das bolinhas negras da discórdia.

Neste ano a primeira pergunta sobre a ceia foi respondida com um “Quem votou no Bolsonaro que leve a carne”, seguido de “Não vou em ceia com quem defende presidiário”. O primeiro áudio veio depois que alguém perguntou “E cadê o Queiroz?”; mais vexatório que o gemidão do Whatsapp foi ouvir o tio Alcínio gritando “TÁ NO SEU CU, FILHO DA PUTA!”.

É a primeira vez em décadas que as uvas não são sequer mencionadas. Se por um lado as brigas familiares têm sido intensificadas nos últimos anos, fica o consolo de que com o tempo até a uva passa.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

A parte boa

2019 foi ~está sendo~ um ano desgraçado de muitas formas.

Para não chorar enquanto escrevo, nem para deprimir ninguém - e o dia chuvoso está ótimo para uma melancolia - pensei em fazer um exercício pessoal de gratidão.

Sem esquecer as lutas, porque elas são diárias; sem esquecer as perdas, porque elas são reais; sem esquecer os crimes, as injustiças, os percalços, os retrocessos; sem esquecer os nossos e os mais oprimidos, quero lembrar algumas coisas boas que aconteceram comigo em 2019. 

Esse fim de semana participei de uma oficina na qual a facilitador fez uma rodada de apresentação na qual perguntava seu nome, sua motivação para fazer a oficina e algo pelo que você é grata. Quando pensei em "pelo que sou grata" hoje, a primeira coisa que me veio à mente foram os gatinhos que moram comigo. Oliver, com sua ternura infinita e suas visitas diárias, abriu nossos corações para receber em nossa casa, esse ano, duas gatinhas que precisavam de um novo lar... Rami-Sati e Nuala. Nem preciso dizer aqui o quanto os animais são generosos, incríveis e maravilhosos, e têm a capacidade de mudar nossas vidas, né? Mas digo mesmo assim porque eles merecem essa exaltação!

Além dos felinos, sou muito grata por meu corpo, que esse ano me levou a lugares as vezes necessários, as vezes belíssimos, e me levou até pessoas queridas. Através do corpo nos conectamos, abraçamos, tocamos, sentimos os cheiros, fazemos carinho e cócegas.
Meu corpo me permite correr, fazer exercícios, brincar com meu sobrinho e dançar, uma das coisas que mais amo! Esse ano não me lembro de ter ficado doente, fora um mal-estar ou outro, causados, na maioria das vezes, pela ingestão de lactose ou álcool (foi mal pelos vacilos, corpo!).

Sou grata pela meditação diária que venho praticando. Hábito muito valioso, que esse ano consegui incorporar em minha rotina, e me proporciona calma, concentração e auto-conhecimento.
E como ninguém vive sozinho, a melhor parte de 2019 são os meus companheiros de vida e de luta. Parceiro, familiares e amigos, sem os quais não suportaria todo peso de um ano tão difícil. "Ninguém solta a mão de ninguém!"

Sou grata por ter conseguido me qualificar no metrado esse ano, e pelo tanto de conhecimento que adquiri através do estudo, de leituras, conversas e sessões de orientação, de outras atividades acadêmicas e também de oficinas livres (como a que mencionei lá em cima), e coisas que vamos ouvindo aqui e ali, testando acolá e passando adiante, porque o maior sentido do conhecimento é esse, o de compartilhar.

Falando em compartilhar, que tal você, que leu tudo isso, não fazer o mesmo exercício e escrever nos comentários a sua parte boa de 2019? Estou curiosa para saber o que aconteceu de bom e pelo que você é grata/grato.




quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Perdoe a ausência e o mal jeito...

... mas gente...
Correria total hoje.
Cheguei em casa há pouco pra editar meu programa (podcast).
Prometo que vou, logo no início, mandar um salve pra vocês pra compensar não ter um post legal aqui hoje!
Para ouvir, clique aqui, logo após a meia noite, que é quando o programa estará disponível! 
Abração!
Quer dizer... Já tem vários disponíveis, mas a edição dessa sexta sai meia-noite ou pouco depois disso!
Abraaaçoooooo!

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Uma América hemofílica

O livro “As veias abertas da América Latina”, lançado pelo uruguaio Eduardo Galeano, em 1971, deveria ser leitura obrigatória para todo cidadão latino-americano. 

Não é um livro dos mais agradáveis, nem prende o leitor do começo ao fim. Isso porque Galeano não escolhe o caminho sedutor da opinião sem fundamento. O texto agradável do autor é recheado de referências histórias e documentais, que comprovam as informações da obra que, já no sumário, fala da “pobreza do homem como resultado da riqueza da terra”.

Com quase 50 anos, o livro parece ter sido escrito ontem. Lá fica claro como o período conturbado que os países latinos estão passando não é uma exceção a ser superada, mas uma regra, interrompida por curtos períodos de prosperidade, necessários para apaziguar a revolta do povo explorado há meio milênio.

Hoje o petróleo – brasileiro ou venezuelano –, o gás boliviano ou o cobre chileno são o sangue das veias abertas. Em outras épocas foram o ouro, a prata, o açúcar e, como diz Galeano, até a merda das gaivotas que cobria as encostas de pedra da orla peruana, exportada como excelente fertilizante aos agricultores europeus.

O que sobra da pilhagem de países ricos é a metade da população brasileira que sobrevive atualmente com 413 reais por mês, são as mais de 200 pessoas que perderam a visão em protestos no Chile, alvos de policiais provavelmente alinhados com os oficiais bolivianos que recortaram a bandeira indigenista da farda após a derrubada do governo.

Policiais indígenas negando a bandeira indigenista só é compreensível em uma região em que a exploração europeia começou há mais de 500 anos, culminando no oprimido desejando o status de opressor. É o que explica a existência de ao menos 334 células neonazistas – movimento ligado à farsa da pureza da raça branca – no Brasil, país símbolo da miscigenação.

As veias abertas da América Latina é um livro denso, cansativo, triste, às vezes deprimente, mas ainda assim indispensável, por mostrar as raízes da exploração perene em uma região que, com as veias abertas, parece hemofílica. O sangramento não irá estancar com o tempo e o esforço para que a cicatrização aconteça deve ser coletivo.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Jeito

Por que tudo parece normal, mas não está?
Não sei.
Quando eu era pequena meu avô dizia ''o Brasil não tem jeito''. 
Ele falava isso há anos. 
É uma frase que entrou na corrente sanguínea do país, as pessoas pensam que o Brasil não tem jeito. E quando tudo está errado, parece certo. E quando está certo, parece errado.

Um amigo que trabalha em um centro espírita me disse ''o Brasil é um lugar de expurgo''.
O padre da igreja diz ''tem religiões demais aqui, isso bagunçou o país''.
Economistas dizem que tudo é instável por causa ''da moeda''. 
Pessimistas falam que é assim mesmo por culpa da ''corrupção''.

E vamos indo, nesse mar de opiniões contrárias, ninguém se entende, ninguém conversa, mas todos concordam com uma coisa ''o Brasil não tem jeito''.

Essa frase entrou no inconsciente coletivo e contaminou toda a nossa percepção. Vivemos em um país rico em recursos naturais, justo quando o mundo mais sofre a falta deles, temos espaço e clima bom, tudo para crescer, mas cada vez mais diminuímos, guiados pela certeza de que ''o Brasil não tem jeito''.

Tem sim. Tudo tem. E começa com a extinção dessa frase, com a remoção desse pensamento. Tudo tem jeito, ora, não somos o  país do ''jeitinho''?
E justo agora que precisamos dar um jeito, não tem jeito?
Sempre tem. O jeito é acreditar que tem jeito.

Iara De Dupont