sábado, 28 de fevereiro de 2015

cotidianização da violência

Recentemente, numa reportagem do dailymail, o Brasil ficou listado como o 2º pior país para mulheres viajarem. Alguns ufanistas ficaram indignados e chamaram a reportagem de tendenciosa, outros... culparam o PT (ultimamente essa galera anda xingando o partido até em notícia sobre buraco negro - notícia bem legal aliás, buraco negro gigantesco, massa 12 bilhões de vezes maior que a do sol e tal).



Entretanto, para as mulheres daqui isso não é nenhuma novidade. Nunca foi.

Não é novidade porque estamos num país onde Bolsonaros alegam que “só não te estupro porque você não merece” são chamados de mitos e salvadores da pátria, como se ser objetificada e classificada como passível ou não de merecer um estupro fosse algum tipo de mérito.

Este é o mesmo país onde Alexandre Frota conta num programa de auditório que violentou uma mãe de santo e é aplaudido. Os comentários sobre o vídeo onde há esta declaração, aliás, fazem perder a (pouca) fé na humanidade: pessoas alegando que, como ele não usou a palavra estupro, não houve a violência. A vítima não consentiu, pediu para ele parar e ainda desmaiou, tamanha a violência empregada. Mas não, não era estupro: era piada em rede nacional.

O apresentador do mesmo programa, Rafinha Bastos não fica longe: há alguns anos atrás declarou que “toda mulher que reclama que foi estuprada é feia” e que “o homem que cometeu o ato merece um abraço, em vez de cadeia”.

Ao passarem impunes por suas declarações, que continuam sendo internalizadas e repetidas no cotidiano, eles reforçam um ciclo: num país onde uma mulher é estuprada a cada 12 segundos, não é difícil compreender que uma estatística como essa é produto de uma cultura que valoriza e cotidianiza a violência sexual. Estas pessoas fazem atentar para a relatividade das leis, do quanto uma violência pode ser moldada para se encaixar numa noção deturpada de realidade.

Essa mesma noção fez com que, no dia 15 de fevereiro, uma adolescente de 13 anos fosse vítima de um estupro coletivo em Osasco. Estes homens, indo um pouco além de qualquer julgamento a respeito de suas personalidades, basicamente foram treinados, desde nascimento. Foram desafiados e educados a testar sua superioridade enquanto dominantes, “viris”, a olhar para uma mulher e não vê-la como um ser humano. A perversidade masculina é algo ensinado, algo que se aprende, e se aprende que “tudo bem, nada de mais”. E, justamente para garantir esse status é colocada a imagem da vítima enquanto merecedora de uma punição, um objeto de piada, afinal, quem mandou estar no lugar errado e na hora errada? Quem mandou falar demais? Você escolheu isto para você, agora sofra as consequências.

De fato, o Brasil não é um país recomendado para mulheres.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A medida do tempo


Qual a medida do tempo? Dias, horas, minutos, segundos. Pra que? Pra quem? Você se sente pressionado pelo tempo? Eu me sinto, a todo momento.

Como seria se não existisse a contagem do tempo? Estamos prontos para viver uma rotina de desordem? Guiados e controlados pelo dia e noite?

E se eu não soubesse que tenho 32 anos? Que não tenho que carregar tudo que enfiaram na minha cabeça com a idade? E se apenas o meu relógio biológico gritasse? Se eu, você e todos nós, pudéssemos acordar a hora que o nosso corpo desperta, seja com a luz entrando pela janela ou um OK de um corpo descansado? 

Uso boa parte do meu tempo para criticar o próprio tempo e a briga com o relógio, mesmo entendendo o caos que seria sem o controle dele.

Tempo é meu inimigo na maior parte do tempo, mas o tempo é meu único aliado para diminuir saudade, esquecer, amadurecer.

Aí, vem o Mário Quintana cruzando o caminho e gritando suavemente sobre o tempo com sua poesia:

O Tempo
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Da beleza das coisas tristes

Li em algum lugar, não sei onde, que só quem escreveu a "Love of my life" do Queen sabe realmente o que é sofrer de amor. Que qualquer outra pessoa estaria só se enganando. Isso me fez perceber que eu não tenho nenhum disco do Queen na minha coleção. Como grande parte dos homens da minha geração, eu atribuo as músicas que ouço às mulheres que passaram pela minha vida. Óbvio que não vou admitir isso publicamente, mas é a triste verdade. Mesmo que não sejamos personagens em um filme do John Hughes, as músicas são nossas trilhas sonoras pessoais e tocam no pano de fundo da nossa vida. Você não canta mentalmente tal música quando a menina está te dando um pé na bunda, mas a lembrança vai estar lá, enroscada no seu cerebelo, e você vai revivê-la quando a música tocar de novo. Não, isso não é só coisa de mulher, não. Acontece com a gente também, desde o começo dos tempos, e vai continuar acontecendo até quando não houver mais canção no mundo. 

Do alto da minha opinião de merda de pós-adolescente que nunca tinha namorado de verdade, eu achava que amor era aquele que fazia as pessoas sofrerem. Olhando agora, acho que era um resquício da cultura cristã, tão intrincada na minha família. Porque só depois que o sujeito sofreu e sofreu e sofreu e apanhou e foi surrado e humilhado e agredido e sofreu pra cacete um pouco mais é que pode salvar a humanidade e, enfim, conhecer o pai. O que só me faz pensar que filhos adotados realmente sofrem. (E não sei se posso dizer que ele foi conhecer o pai biológico, mas essa discussão fica pra outro dia e pra outra mesa de bar.)

Ironicamente, o rádio começou a tocar Skank. Skank, cara! "Balada do amor inabalável". Praguejo e mudo. Sister Hazel. Ok, vamos lá. 

Durante a época em que eu fui mais feliz ao lado de uma mulher foi também a época em que ouvi uma das frases que mais desgraçaria minha vida: "só enquanto eu respirar vou me lembrar de você", em um êxtase de martírio pelo cantor. Deus do céu, como aquilo fazia sentido. Fazia sentido, repito, na minha opinião de merda de pós-adolescente que não sabia ainda o que era se relacionar com uma mulher todos os dias. Mas a merda é que fazia sentido. Estava plantada ali a semente da minha destruição pessoal. Porque eu só conheceria o amor de verdade, o Um-Amor, se me permite, quando sofresse por ele. Quando o perdesse, quando fosse tirado de mim, quando passasse noites e dias e noites de novo acordado, sofrendo pela ressaca de um sentimento cujo sabor eu ainda sentia nos lábios, mas que estava já impregnando o chão sujo de um banheiro qualquer. Vários, vários banheiros. Acho que eu sempre tive uma alma de escritor - ou isso é somente o meu cérebro tentando me convencer a encontrar beleza em mais uma coisa triste. Às vezes ele faz isso. Tudo, tudo que é verdadeiramente triste possui algo de belo em proporção igual ou até maior. Parece distanciamento da realidade, mas acho que é um mecanismo para justamente nos aproximarmos da humanidade e não vivermos o tempo todo à parte dela.

Eu ouvia aquela maldita frase daquela maldita banda e pensava que só quem consegue escrever algo assim, cantar algo assim é que viveu algo assim. E que isso era viver de verdade. Muito boa essa condição: sofrer é viver. Sofrer é amar. Eu era um jênio - um jegue genial.

Para fins de comparação, existe um abismo enorme entre o Queen e o Teatro Mágico, mas não vou me apegar a isso agora ou sou capaz de abrir a janela e me atirar do sexto andar com um sorriso no rosto.

Claro que hoje sei que relacionamentos possuem mais tons de cinza (uma parte de mim morreu por essa referência) do que a visão dos animais, bem diferente do que acreditava antes. Nada é tão maniqueísta quanto a imagem daquilo que não conhecemos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Geração X

Tenho muitos amigos de 30 e poucos anos que jogaram tudo para cima (emprego, carro, namorado/a, família) e foram para a Austrália, EUA, Canadá... e não pretendem voltar.
Seja qual for a desculpa (trabalhar, aprender inglês, ano sabático), todos eles estavam de saco cheio.
De saco cheio de viver do trabalho para a casa e da casa para o trabalho.
De se matar para conseguir comprar um carro e depois se matar mais ainda para mantê-lo.
Eles perceberam que o apartamento, o carro, as roupas bacanas, a academia badalada, a tecnologia de última geração, os jantares caros, etc os prendem num emprego medíocre.
Perceberam que nunca poderão fazer ou descobrir o que realmente gostam e querem.

Mas eles também perceberam que talvez seja possível adiantar a aposentadoria.
Ser feliz hoje. Com o que já conquistou. Não perder mais tempo querendo mais.
Valorizar o que realmente importa.
Que o que te faz nobre não é o carro ou o apartamento que você ostenta.
Que sucesso é o brilho que você tem nos olhos.
É a felicidade que você irradia quando consegue se libertar e ir atrás do seus sonhos.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A moça do sovaco cabeludo

Naquele dia, a moça decidiu que não depilaria as axilas. 

Nada aconteceu de extraordinário à rotina daquela moça que a fizesse tomar aquela singela decisão. Fazia sua toalete como de costume, mas subitamente retraiu o braço quando este ia em direção ao depilador. Há coisas nessa vida que fazemos sem grandes elucubrações, sem consultarmos pai, mãe, tarólogo ou lugares recônditos de nossa consciência, apenas o fazemos. E assim move-se o mundo. 

Hoje não - pensou - e naquele dia não houve depilação.

Nem no outro.

Nem no outro ou no outro ou no outro. Os pelos, como se sabe, não crescem assim do dia para a noite, de modo que foi somente pela manhã do quinto dia que eles começaram a aparecer com força. E a moça achou bom. Não que os achasse bonitos, garbosos, sedosos... definitivamente não. Apenas achou bom. Era confortável tê-los ali. Lembrou-se até de uma famosa frase que dizia: "Pelos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos, como sabê-lo?" ou algo assim, já não estava bem certa agora. 

O filho caçula foi o primeiro a perceber.

- O que é isso mamãe? - disse apontando o sovaco da mãe.
- Pelos.
- Como os do papai?
- Sim, como os do papai.
- Ahh.. - deu-se por satisfeito o menino e saiu pela casa atrás de sua bola amarela.

Durante o café da manhã foi a vez do filho mais velho:


- Mãe! A senhora está bem?

- Sim, filho... e por que não estaria?
- É que tem pelos ali, embaixo de seu braço. A senhora viu?
- Sim, pelos. Acaso também não os tem?
- Sim, mas é que eu sou... bom, estou atrasado, mãe. Acho melhor ir agora - e se foi, evitando olhar para a mãe.

Ao marido, que àquela hora já acordara e se arrumava para o trabalho, tampouco lhe escaparam os novos pelos da esposa. Foi com indisfarçável espanto que a questionou:


- Você vai sair de casa assim?

- Assim como?
- Ora, assim... com estes pelos à mostra. Se acabaram-lhe as lâminas, me diga que eu lhe compro outras. Acaso algum dia deixei faltar algo nesta casa?
- As lâminas estão em perfeito estado...
- E então?
- Simplesmente não as quero usar. Não as vou usar. Deixarei os pelos tal como estão aqui, assim como você deixa aí os teus.
- Ahh, mas é que eu sou HOMEM! - disse e se foi, batendo a porta atrás de si.

A moça também logo se foi e, dia quente que estava, foi com os pelos à mostra. Aos poucos, como que por algum magnetismo, todos os olhares dos transeuntes pareciam repousar em seu sovaco, agora sensivelmente cabeludo. A moça, sempre tão discreta, não se recordava de alguma ocasião ter sido alvo de tamanha curiosidade. Na verdade, ela sempre pareceu caminhar invisível. Agora não, agora ela tinha pelos.


Foi quando aconteceu.


Enquanto caminhava, rumo ao trabalho, a moça sentiu que algo lhe passava. Primeiro deixou de sentir as pernas, motivo pelo qual parecia que flutuava. Depois foram os braços que passaram a lhe faltar. Súbito, foi-se o tronco e a cabeça, de modo a só lhe restar o sovaco. Assim, já não era mais uma moça, mas apenas um sovaco cabeludo. E foi assim, ainda tentando entender e se adaptar a esta nova e insólita situação, que a moça - agora resumida a suvaco - seguiu pela rua, sempre ouvindo dos que passavam:


- Veja ali, que coisa, um sovaco cabeludo!


No escritório foi o mesmo. Até mesmo os que nunca lhe notavam, não deixaram de notar o sovaco.


- Ora, vejam! Um sovaco... e cabeludo!


Ela tentava retrucar, como fizera com marido e filhos, mas sovaco não fala - ao menos até que se prove o contrário - então tampouco a escutavam. Se pudesse, teria-lhe dito que eram pelos, apenas pelos, mas não podia.


Ao voltar pra casa, uma surpresa. O filho caçula a recebeu com um abraço.


- Vem, vamos brincar mamãe!

- Como assim? Não vê que sou apenas um sovaco? - perguntou e, ao fazê-lo, espantou-se por ouvir o som de sua própria voz.
- Do que está falando, mamãe? Vem, vamos brincar!

O mesmo não se passou com o filho mais velho e com o marido.


- Olha só, pai... um sovaco cabeludo!

- Sim, filho... sim... vamos, vamos jantar...

E assim passaram-se os dias. 


Todas as noites, o marido olhava para o lado da cama outrora ocupado pela esposa e via aquele sovaco cabeludo, cada dia com mais pelos a lhe enegrecer. Até que certa vez, no meio da noite, o marido se levantou para ir ao banheiro. Fez suas necessidades como de costume mas, subitamente, algo atraiu sua mão em direção ao depilador. Ficou estudando o pequeno objeto por alguns instantes e, quase maquinalmente, começou a depilar o seu próprio sovaco.

Há coisas nessa vida que fazemos sem grandes elucubrações, sem consultarmos pai, mãe, tarólogo ou lugares recônditos de nossa consciência, apenas o fazemos. E assim move-se o mundo.

Na manhã seguinte, era novamente sua esposa que estava na cama com ele.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

A alegria vem ao amanhecer!

Olhe pra sua vida!
Siga!
Mesmo em meio às dificuldades, acredite que tudo dará certo!

As complicações surgem para todos nós!

Saiba em quem e à quem confiar seu coração!
Não se esqueça que a presença mais pobre é a física!
E que importa que moremos no coração de alguém e que alguém more em nosso coração!

Todos podemos amar alguém, mesmo na distância!
Supere a saudade! O amor sempre falará mais alto!

Siga! Não desista!
No fim, tudo dará certo!
Tempestades surgirão sempre. Às vezes, todos os dias! Até todas as horas!
Mas Deus nos ajuda em meio às tempestades!


Ame incondicionalmente!
Ainda não sabe essa arte?!
Também estou aprendendo!

Saiba que se está amando esperando algo em troca, então isso não é amor.

Mas nunca é tarde para aprender a amar!
Começar do zero?! Por quê não?!

Siga! Comece! Lute! Não desista!

A tristeza pode durar uma noite!
A alegria vem ao amanhecer!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A culpa é de quem?

Uma das coisas que mais chama minha atenção em relação ao comportamento das crianças é o imediatismo de suas ações, que anula as relações de causa e efeito. Quanto menores mais claro é esse comportamento. Se querem algo o mundo ao redor parece sumir, daí a importância de alguém por perto para evitar uma tentativa súbita de cruzar uma rua movimentada, jogar um objeto frágil no chão em troca de um brinquedinho de plástico ou escalar uma cristaleira para tentar pegar uma borboleta.

Outra curiosidade no comportamento dos pequenos é a sede de vingança contra os objetos inanimados. Um leve descuido é suficiente para toparem com uma cadeira e começarem um choro, mais de indignação do que de dor. Basta um adulto dar um tabefe na cadeira, seguido de uma bronca, para que a criança manhosa pare de chorar e esboce um sorriso de vingança.

Quando crescemos costumamos melhorar um pouco o senso de causa e consequência. Sem dúvida algumas vezes a desatenção se sobressai e fazemos alguma coisa estúpida, mas ao menos em situações cotidianas conseguimos nos virar sem o auxílio de uma babá depois de adultos, ou pelo menos a maioria de nós consegue.

Se o dedo mindinho vai de encontro ao pé da mesa o palavrão subsequente, dito ou pensado, surge para alívio psicológico. No máximo xingamos o objeto inanimado numa tentativa de aliviar a culpa que no fundo sabemos que não pertence ao alvo das blasfêmias.

Em situações que se espalham por um período mais longo parece que seguimos com a dificuldade de enxergar o todo. Felizmente nesses casos a ação individual costuma ser muito restrita. Não é como um descuido do pai, permitindo que a criança atravesse a rua correndo.

Independente da força da ação de cada um, as redes sociais deram notoriedade para essas características. Antes nossos deslizes ficavam mais restritos, agora aquele amigo reacionário do serviço comenta no post do amigo neo-hippie da faculdade, que choca os padrões morais da tia-avó, que posta as fofocas da família na sua time-line, sem saber que o conteúdo é aberto para todo mundo ler.

Há quem diga que as coisas vêm piorando. Pessoalmente simpatizo mais com a ideia de escala. Se antes, quando topávamos com uma cadeira, apenas os adultos próximos viam que ficávamos satisfeitos com a bronca naquela malvada que acertou nossa testa, hoje fazemos questão de expor nossa sede de vingança, nossa satisfação quando a cadeira leva bronca e nosso imediatismo.

Dizer para uma pessoinha que com um esforço homérico consegue dar os primeiros passos que ela ainda tem que desviar dos obstáculos seria muita pretensão. É difícil, complicado, chato. Melhor dar um tabefe na cadeira e isentar a criança de culpa.

E como dizer para uma pessoa recém-imersa na tendenciosa e superficial discussão política, que a violência endêmica tem raízes históricas e sua prevenção é complexa, porém mais eficiente que o combate com mais violência? Mais fácil pedir a redução da maioridade penal – tão eficiente quanto um tabefe na cadeira. Não obstante, quando é que essa pessoa vai crescer e aprender a desviar dos obstáculos?

Esperar que uma criança que mal consegue levar a chupeta à boca – não deem uma chupeta para uma criança, é só uma ilustração – tenha a consciência de que primeiro deve por o objeto que carrega em um local seguro para depois segurar alguma outra coisa, é esperar demais de um raciocínio em desenvolvimento.

E esperar que um adulto que restringe sua participação política ao voto bienal, por mera e amaldiçoada obrigação, se disponha a seguir o fio da meada do emaranhado formado pela corrupção secular do país, seria esperar demais de uma democracia reumática, apesar de jovem. Coloque a culpa toda em um dos partidos, se for muito amplo, em um dos políticos; soltamos um fardo de problemas que se espatifa espalhando cacos e seguramos o bastião da vitória – de plástico, made in China.

Ao contrário da criança que tem muito tempo para aprender a manipular objetos, nossos problemas sociais já tiveram seu tempo. Não faltam ardilosos que visam impor seus próprios interesses em detrimento do bem estar social.



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Maturidade frágil

Ele pediu um hambúrguer com bacon e muito cheddar. Ela, um milkshake de pistache. Ele enxergava um lado muito maduro nela apesar da pouca idade, mas também a considerava tão imatura às vezes... era difícil dizer qual dos dois o atraía mais.
Ele a achava prepotente de início, parecia que não relaxava nunca na tentativa de estar sempre um passo à frente. Sempre argumentava demais e expunha exemplos e fatos... mas sua argumentação era tão frágil em tantas situações.
Ela: O que você perguntaria a Deus, se pudesse fazer uma pergunta diretamente pra Ele?
Ele: Não sei... pra quê eu pensaria em algo assim?
Ela: Nossa, você não é nenhum pouco curioso. Você poderia perguntar qualquer coisa... imagina!
Ele: Não tem nada que eu gostaria de saber nesse nível.
Ela: Eu perguntaria porque Ele existe.
Ele: Porque diabos você perguntaria algo assim?
Ela: Porque ia ser incrível. Eu acabaria com Ele.
...
E ele percebeu ali que preferia quando ela era mais madura mesmo.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A filosofia do “ele quem?”

Minha mãe é nordestina e virginiana, o que a torna um misto de praticidade e dureza que não me era fácil entender quando criança. Aquele sentimento materno de doçura, compreensão e colo em qualquer circunstância era lindo... Na televisão. Eu achava bem difícil não poder chorar, nunca, nunca, nunca, pois nada era suficientemente ruim para merecer meu sofrimento. Eu vi minha mãe chorando duas vezes. DUAS. Na vida. E uma foi no enterro da minha nonna (sua sogra), mesmo assim ela só chorou um pouquinho. Isso não quer dizer que minha mãe não sofre, quer dizer que minha mãe é forte.
Eu sou escorpiana, tenho ascendente e Lua em Peixes, portanto, sou só água. Isso quer dizer que água verte dos meus olhos desde sempre. Choro muito. Vivemos toda a vida assim. Não deixei de chorar, minha mãe não deixou de ignorar meus choros. Sou bem grata a ela. Acho que não endureci, mas aprendi que chorando ou não, a vida tá aí, sempre a postos para me pregar umas peças, dar-me uns pequenos desgostos e, com lágrimas ou não, tenho que adotar posturas práticas diante das coisas que me fazem sofrer. Posso demorar mais ou menos para parar de chorar. Mas vou parar. Isso não é uma escolha. Sendo filha da minha mãe, essa é a única opção.
Esses dias eu caí uns tombos sentimentais e sofri bastante. Minha mãe tem o péssimo hábito de não mensurar muito o meu sofrimento, na cabeça dela é uma coisa que sempre vai passar. Acho que na cabeça dela eu é que sou forte. Não se trata de desrespeito, trata-se apenas de pular a parte das lágrimas para a crença que vou tirar de letra. Como dessa vez chorei bastante, mais que de costume, minha mãe ficou um pouco mais atenta. Como sempre, nunca deu corda para o sentimento, apenas perguntava, bem mais que de costume, se estava tudo bem. Foram vários e vários dias assim, ela perguntando, eu respondendo que não, mas que ia passar. A conversa logo seguia outro rumo, minha mãe nunca deu atenção demais a sofrimento. Em outras palavras, minha mãe nunca revira nada de ruim. A vida que dê conta.
Moderna que só, semana passada me mandou um whatsapp: está melhor? Respondi que sim e, como foi a primeira vez que eu disse sim logo de cara, ela respondeu: graças a Deus. Expliquei que estava melhor porque percebi que não havia o que eu poderia fazer, que fiz o meu melhor e que cabia a mim respeitar as escolhas que ele fez. Quis explicar a minha mãe, detalhadamente, meu pensamento prático em relação a uma situação que tinha me feito sofrer tanto. Achei que ela bateria palmas (ela está viciada em manter conversas apenas com emoticons), ou dissesse outra coisa que mostrasse que estava feliz pelo fato de eu estar agindo, não sofrendo. Que diria estar contente por eu ter saído dessa, que eu a orgulhava.
Minha mãe respondeu apenas: ele quem?
Fiquei olhando para a tela alguns segundos. Não era ironia. Nunca é. Minha mãe estava falando sério. Ela estava perguntando, realmente não sabia. Tinha esquecido, isso não era mais importante para ocupar bytes de sua memória. Minha mãe não lembrava mais e, na hora, percebi que também não me importava mais lembrar. Recordar a gente recorda sempre, mas remoer, martelar, chorar e sofrer, aprendi com a minha mãe: não. Os ‘7,0’ que tirei nas provas, os ralados no joelho, as falas erradas no teatrinho, os tombos, as brigas na escola, a colega pentelha, a professora sem noção, os cortes, os objetos perdidos, as tormentas que pareceriam não ter fim, as desilusões, as pequenas derrotas diárias... Fracassos tão pequenininhos que hoje olho e me esforço bastante para lembrar: quem? quando? onde foi mesmo?
Sábia mãe. Essa filosofia pode ser adotada para um monte de pequenos sofrimentos que não valem a pena serem levados adiante. É uma sábia escolha. Espera. Não é uma escolha. Sendo filha da minha mãe, essa é a única opção.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Ir e voltar

Ir.
Encontrar pessoas pelo caminho.
Dormir e acordar ouvindo o som da chuva.
Encher os olhos de belezas. 
Andar por muitas trilhas de pedronas e pedrinhas.
Não saber como descrever a sensação de estar ali no meio de tantas águas. 
CACHOEIRA. É como o próprio nome diz e não nos diz nada.
É o barulho que faz as águas se atirando desesperadas de cima das rochas.

Ir. Ver. Conhecer.Sentir.

Voltar.
Lembrar das preocupações.  Pensar em planejar. Pensar no futuro da rotina.
Voltar com saudades. Feliz de saber que existe na minha vida um lar, amigas e amigos e outras veredas.

Voltar.Rever. Reconhecer. Sentir.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

É carnaval!

Fui comprar um amendoim de uma marca que gosto muito e fiquei sabendo que a empresa faliu, paralisada pela constante falta de água e luz.
Tenho impressão, às vezes, que o Brasil vive debaixo de uma lupa, uma visão distorce a imagem e parecemos maiores do que realmente somos. Mas debaixo do vidro somos pequenos, atrasados, como aqueles países perdidos no mundo, onde os comerciantes e produtores não conseguem andar pra frente.

É tão longa essa história, tão antiga, tão arcaica. Empresas pequenas que tentam sobreviver, enquanto o governo se comporta como um tubarão  faminto diante delas.
A moça da loja de docinhos me disse que em apenas um mês cinco empresas deixaram de entregar salgadinhos e docinhos, fecharam as portas.

Mas quem pode resistir? De um lado os produtores são enforcados pelos altos impostos, inflação e burocracia, de outro a natureza aperta e diante de uma má administração a cidade fica sem água.

Ah,  é verdade, nada disso importa, é carnaval, dias de folia, felicidade e liberdade. Estamos vivos e com saúde para pular à vontade, é isso que conta, os manuais de autoajuda dizem que na vida o importante é ser feliz.
Segundo algum estudo que circula pelo Facebook, o Brasil é uma nação de pessoas felizes. Ainda bem, porque é a única coisa que o brasileiro tem, a sua felicidade. O resto, seus direitos e até a água já foram tirados. Mas bom carnaval a todos, pelo menos isso o governo não tirou. Ainda. 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Natural Matinal Que Me Atrai

Essa coisa do natural matinal que me atrai.
O rosto amassado, cabelo revirado,
Pijama roto, velho e abarrotado.
Ah! Essa coisa do natural matinal.
A preguiça que finda o expediente e não faz hora extra.
A ternura sem batom nem blush, sem esmalte nem sombra
Nem sombra de dúvidas que o cheiro da pura essência, do suor da sua noite
Também vem concatenada com essa coisa do natural matinal que me atrai.
Assim é que tem que ser
Assim é que se conhece alguém.
Na transparência de tua existência.
Do sorriso tímido à torção de teu corpo em nossos lençóis
Toda essa ausência de máscaras te torna ainda mais bela e tenra
E do meu tato à sua pele, ainda a macia e sedosa que conheci
Boceje essa beleza, espreguice essa fonte natural
E é isso que me atrai: O seu natural matinal.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O que eu quero

Sugestão: ler ouvindo Canción ParaEl Viento de Perota Chingo





Quero fechar os olhos e sentir a brisa fresca brincando com meus cabelos e o sol aquecendo minha pele brandamente.
Quero cantar sem ninguém reclamar, quero bailar à luz do luar.
Quero que o sono venha rápido quando eu me deitar, quero acordar descansada. Quero beber sem ter ressaca.
Quero sonhar sonhos bons, quero enfrentar meus pesadelos.
Quero que o tempo passe devagar, quero sair sem destino por esse mundão.
Quero paz e quero paixão.
Quero ser desafiada, quero ser uma pessoa melhor.
Quero o bem. Quero o bom-humor.
Quero aqueles que amo perto de mim, quero distância do que me faz mal.
Quero dançar na chuva, quero correr ao encontro de um abraço apertado.
Quero o que não faz sentido. Quero sonho, quero um livro.
Quero ter pessoas cheirosas e agradáveis ao meu redor, quero tomar banho.
Quero um cachorro para correr comigo e lamber minha mão, quero um gato para se aconchegar na minha barriga. Quero porquinhos-da-índia que não fiquem doentes.
Quero um mundo sem medo e sem maldade.
Quero mais ciclovias pela cidade.
Quero fazer a diferença na vida de alguém.  
Quero sossego, quero ir além.
Quero ser mais decidida, mas é tanto querer que fico perdida.
Quero um pouco de loucura, quero um pouco de razão.
Quero nada, não. Também quero um pouco de solidão.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Inferno Astral

  Entrei no meu inferno astral.

  Sei que astrologia não tem fundamento nem lógica, mas se não fosse por ela, não teria esse pingo de fé que no final do mês as coisas se ajeitem.

  Tô aqui, só dormindo e trabalhando, ainda assim morrendo de sono e com uma dívida maior que eu.

  Comer engorda e meu peso é uma das únicas coisas da minha vida que eu ainda controlo.

  A crise da água tá tão tensa por aqui que agente toma banho com culpa, lava roupa com culpa, sempre que abro a torneira sinto que estou torturado um filhotinho.

  Tenho que terminar ( e começar) meu TCC. Estou com uma vontade louca de jogar tudo pro alto, a faculdade, o serviço, minha chefe, meus colegas.

  Essa semana passei o esmalte "equilibrista" e lembrei de que quando escolhia a tatuagem que nunca vou fazer, me identifiquei com um malabarista, desde a vontade de jogar tudo pra cima, até necessidade de pegar tudo de novo e dar um jeito de dar certo, entre outras pobres analogias...

Fazendo um esforço para manter a saúde mental, volto em março pra contar se era inferno ou se era vida.


imagem: pixmac.com.br

sábado, 7 de fevereiro de 2015

A substância que salva, irmãos!

Uns creem em Deus, outros no Diabo. Há até quem espero do capitalismo a redenção de nossas pobres almas. Eu acredito em substâncias. Analiso a tabela nutricional no rótulo dum chocolate com a seriedade dum exegeta, procuro verdades obscuras por trás da quantidade de calorias ou carboidratos dum suco de laranja como um rabino cabalista. Sei que, pela interpretação correta daqueles míseros gramas de fibras, sódio e fósforo, pode-se vislumbrar a verdadeira face de Deus.

Ou do Diabo. Se, na boca do povo, o demônio atende por nomes como Tinhoso, Cujo e Cão, nas tabelas nutricionais esconde-se sob a alcunha de gorduras saturadas, fenilalanina, colesterol, sódio e, duns tempos pra cá, gorduras trans. (Não se deixe enganar por esse nome simpático, com ar de disco do Caetano em 72: as gorduras trans, dizem os especialistas, colam feito argamassa nas paredes das artérias.)

Comecei a temer as substâncias depois da fenilalanina. Não tenho a menor ideia do que seja, mas faz alguns anos que a Coca Light traz o aviso, misterioso e soturno: contém fenilalanina. O McDonald's, ainda mais incisivo, colou um adesivo no balção de suas lanchonetes: "Atenção, fenilcetonúricos: contém fenilalanina". Desde então, toda noite, ao por a cabeça no travesseiro, imagino diálogos como "...pois é, menina, o Fabinho! Era fenilcetonúrico e não sabia. Fulminante. Tão jovem, judiação..."

O cidadão atento deve ter notado que o glúten , de uns anos para cá, também ganhou uma certa notoriedade nos rótulos. "Contém glúten", dizem embalagens de uma infinidade de alimentos, sem mais explicações. Qual é a do glúten? Faz bem pra vista? Ataca o fígado? Derrete o cérebro?

Como bom crente, sei que as substâncias matam, mas também podem salvar. Pelo menos, é o que espero do chá verde. e seus incríveis flavonoides, que venho consumindo com fervor e regularidade nas últimas semanas. Você sabe o que são flavonoides? Pois é, eu também não, mas o rótulo do tal Green Tea avisa, com grande júbilo (e um pequeno gráfico), que uma garrafinha tem quatro vezes mais flavonoides do que um suco de laranja e treze  vezes mais do que o brócolis. Diz ainda, à guisa de explicação, trata-se de poderoso antioxidante. Fico muito tranquilo: posso cair fulminado pela fenilalanina ou sofrer os insuspeitos estragos do glúten, mas de enferrujar, ao que parece, estou salvo!


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Feliz aniversário. Ou: das dores que não passam.



Oi Vó. Hoje é teu dia, feliz aniversário!
A gente passou a comemorar dois aniversários por ano. Um quando você chegou, outro quando você partiu. E os dois me deixam assim, marejado. Deve ser porque faz pouco tempo que foi a festa da Rainha do Mar, ela mareja a gente também. Deve ser porque eu tenho um rombo no peito pro resto da vida que nada vai preencher. Nem ninguém.
Sabe, Vó, era para eu ter escrito no dia 4, mas pensar em sentir isso duas vezes na mesma semana seria doído demais. Seria pisar em caco de vidro, lembra quando eu cortei o dedão num copo quebrado e chutei o médico que ia suturar a ponto do avental dele ficar igualzinho ao de açougueiro? Pois é, eu lembro que caco de vidro assusta mais que dói, mas dói do mesmo jeito. Escrever no dia 4 iria assustar e talvez no dia 7 eu teria medo de doer.
Então, Vó, hoje a senhora estaria fazendo aniversário cá desse lado do Entremundos. A gente iria fazer um bolo, ou não, iria cantar parabéns, ou não, a gente iria renovar nossos votos de amor, inevitavelmente. Porque a nossa declaração de amor sempre foi a mais linda de todas e ninguém vai superar isso:
"Você sabe que eu te amo?"
"Sim, eu sei porque eu também te amo."
E assim a gente se sabia. Nem sempre a gente tava perto, nem sempre eu fui um bom neto, mas eu me esforcei, sabe? De verdade. Eu sei que a senhora entende isso. A gente se entende tão bem! Até hoje, quase três anos depois que a senhora viajou pro outro lado, eu ainda sinto que a senhora está aqui perto. Eu não sou espírita, então eu não tenho problemas em te manter comigo. Eu nunca te prendi, eu nunca te segurei do lado de cá, porque eu sei das implicações que isso causa; mas de vez em quando, sabe, eu fico com medo e queria que a senhora estivesse aqui comigo.
Vó, eu vou fazer trinta anos esse ano. Trinta! Veja só! Meu cabelo cresceu bastante, eu tô treinando bastante, a senhora tinha de ver! E o engraçado é que eu acho que agora que eu vou fazer três anos. Na verdade, a minha vida começou de novo quando a senhora partiu. Eu tive de aprender a andar, a comer, a dormir, a escrever, a ler, a viver sem a senhora. Eu tive de começar tudo de novo, e eu não queria, mas eu tinha de começar.
Sabe Vó, liga não pra eu estar chorando agora. Eu não gosto que me vejam chorar. Por isso eu falo pouco de ti para os outros. Só que hoje é o seu dia e eu posso. Engraçado como quando a gente fica adulto a gente tem que ter desculpa pras coisas né? Desculpa pra rir, desculpa para chorar, desculpa para fazer alguma coisa, desculpa para deixar de fazer. A gente fica velho e fica devendo obrigação até sem querer. Então é bom eu chorar, deixa, vamos conversar. São tão poucas vezes que a gente pode né.
Vó, eu sinto muito a sua falta. Às vezes, nos meus sonhos, eu sou teimoso e vou atrás de ti. Te caço nos lugares que sei que a senhora poderia estar nas minhas memórias. Mas é difícil encontrar alguém quando a gente tá tão envolvido. Parece que o coração da gente pesa na mochila e a gente não consegue caminhar veloz. Das vezes que te encontrei, lembra Vó, a senhora não queria falar comigo ainda. É justo, eu sou grudento né? Precisava de um tempo para eu não sofrer nem te fazer sofrer. 
Vó, eu vou me despedindo. Para matar um pouco a saudade, eu fiz aquela gelatina colorida que a senhora amava. Quase seis quilos! Levei para o meu trabalho, como se fosse comemoração. E era. O que a senhora me ensinou, ninguém nesse mundo pode tirar. Na verdade, ninguém pode tirar a senhora de mim. 
Eu sofro Vó, todo dia um pouquinho. Eu escolhi isso. Antes o resto da minha vida sofrendo de saudade que mais um dia de sofrimento teu por dor. Sabe, Vó, quando a gente ama a gente liberta. Porque só o Amor é capaz de deixar ir, e ainda assim se manter. 
Obrigado, Vó. Por ter feito de mim um homem, e mais que isso, um homem feliz. Eu carrego comigo o melhor da vida que vivi enquanto tinha sua companhia. Eu aprendi tanto contigo desse lado de cá! E, quando chegar o dia e a hora, a gente se vê de novo, não é?
Até lá, eu vou cuidando do jardim, fazendo a coisa ser o melhor que puder. 
O plano é a gente ficar bem.
Te amo, Vó. E você sabe.