sexta-feira, 22 de maio de 2015

Os livros de minha filha (parte I): Chapeuzinho Amarelo

Uma das coisas mais legais dessa história de ser pai é poder revisitar a infância. E quando falo em revisitar quero dizer participar do universo infantil só que, desta vez, pela perspectiva do adulto. A literatura infantil tem sido uma dessas revisitas, quiçá a mais interessante. Quando leio um livro pra minha filha (ela tem 2 anos), na verdade, estou lendo pra mim também. É incrível como tem coisas que ela percebe e que às vezes passa batido pra mim. E é igualmente incrível como agora eu percebo coisas e "piro" em detalhes que, quando era criança, simplesmente não me diziam nada. É triste pensar que se os livros para crianças forem lido só por crianças, todo esse tesouro de pirações será negligenciado. Pensando nisso, fiz uma seleção de alguns livros de minha filha que proporcionaram "pequenos momentos de iluminação", como diria a senhora minha esposa. Não são necessariamente os melhores, não são necessariamente os que ela mais gosta e tampouco são necessariamente os que eu mais gosto, mas são aqueles que proporcionaram tais momentos. Comecemos por Chapeuzinho Amarelo!

Chapeuzinho Amarelo

São poucas as histórias que ganharam mais versões do que o clássico conto de "Chapeuzinho Vermelho", a menina de capuz vermelho que foi incumbida de levar doces para a sua idosa avó. Vinda da tradição oral, a história demorou para ganhar uma versão escrita. A primeira compilação (séc. XVII) é catastrófica e pertence ao francês Charles Perrault. Nessa versão não há final feliz: a menina e avó são devoradas por um lobo faminto e ponto final.  A segunda compilação (do séc. XIX, acredito que a mais conhecida) é bem mais atenuada e é de autoria dos irmãos alemães Jacob e Wilhelm Grimm. Aqui aparece a figura do caçador, macho alfa que retira avó e neta vivas da barriga do lobo (ahãn... claro, claro) e levam o pobre animal à morte ao colocar pedras dentro de sua barriga. Mais recentemente, surgiram versões mais ousadas, como a de Orlando de Miranda (intitulada "Chapéu Vermelho II - as bocas do lobo), em que Chapeuzinho, após seu fatídico episódio com o lobo, mudou-se para a cidade grande (São Paulo) e precisa levar medicamentos psicotrópicos para sua avó (que numa dessas também tinha mudado para a paulicéia desvairada), tendo que, para isso, atravessar o Largo do Arouche a noite, com muito cuidado para evitar cair nas armadilhas do "lobo" (aqui representado pela violência urbana). 

Em meio a todas essas versões acredito que existe sempre a ideia moralizante do "bom caminho". A menina de traje claramente comunista só se complica, faz crer a maioria das versões, porque se desviou do caminho sugerido pela mãe, enfim, porque "não andou na linha", o que nos remete à tão recorrente prática da culpabilização da vítima, que foi estuprada porque andava com roupa curta demais, que foi assaltado porque andou por um caminho sinistro demais e por ai vai. Perpassando todo este moralismo está a chamada "cultura do medo", o medo que cada um tem dos "lobos" de nosso cotidiano.

A dupla de gênios Chico Buarque e Ziraldo conseguem resgatar essa essência no clássico "Chapeuzinho Amarelo", a menina que tinha medo de tudo, que era amarelada de tanto medo e que deixava de fazer tudo nessa vida por conta do medo (o que nós deixamos de fazer por conta do medo, hein?). E, entre tantos medos, não podia faltar o medo do lobo, que era seu "medo mais que medonho". E mesmo com tanto medo do lobo (ou seria medo do medo de encontrar o lobo?) um dia Chapeuzinho acabou se encontrando com ele, assim como nós que, sem hora marcada, acabamos por topar com nosso medos por aí.

A grande sacada do livro é mostrar que o medo de uma coisa geralmente é muito mais aterrorizante do que a coisa em si. Ao se deparar com o lobo, Chapeuzinho acaba por achá-lo inofensivo, sobretudo ao compará-lo com o medo que tinha dele. O "lobo" virou tão inofensivo quanto um "bolo". Transformação semântica feita por Chico. Transformação gráfica magistralmente feita por Ziraldo, na ilustração mais incrível do livro (reparem que o vazio deixado entre um lobo e outro vai formando, paulatinamente, a figura de um bolo. Algo parecido acontece quando se repete muitas vezes a palavra "lobo", que com o tempo vai se confundindo com a palavra "bolo").

O casamento perfeito entre texto e ilustração (Ziraldo inspiradíssimo) fazem deste livro um clássico, uma das versões mais interessantes que já li da tão revisitada Chapeuzinho Vermelho. E é por isso que o tirei por alguns minutos da estante da minha filha para mostrá-lo a vocês.

Ah, coloquei abaixo um áudio-livro com a história na íntegra!

...

Autor: Chico Buarque
Ilustrador: Ziraldo
Ano da primeira edição: 1970 (a primeira edição ilustrada por Ziraldo é de 1979)
Editora: José Olympio Editora



quinta-feira, 21 de maio de 2015

Melhor deixar como está.

Olho pro relógio.

01:53 da manhã.
O quê teria eu pra dizer à você?
Lembro do olhar... Do sorriso...
Não. Melhor deixar pra lá.
Melhor deixar como está.
Pensei em ligar. 
Mas já deixei aquela mensagem no seu Facebook.
Que, aliás, você nem visualizou.
Como assim não visualizou?
Você usou essa bagaça. Te vi online.
Sei lá.
Preferi deixar como está. Melhor não complicar.
Pra quê arriscar? Tá bom do jeito que está.
Bem... Bom não tá não!
Preferia você aqui, do meu lado, na minha história.
Mas acho que você nem se dá conta disso.
Pra quê complicar, né? 
Eu aqui, você aí. 
A vida já tem tanta complicação.
É uma ideia que existe na cabeça,
E não tem a menor obrigação de acontecer.
Melhor deixar como está.
Você na sua história.
E eu... Na minha.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Hôôôôôôôôôô... MOFOBIA!

Naquele jogo de futebol, tenso e eliminatório, o goleiro do time visitante corre para bater o tiro de meta. Ao fundo, em meio a toda torcida adversária, alguém teve a ideia de provocar. Quando o pé do guarda-meta tocou a bola o torcedor gritou “macaco!”. Alguns amigos ao redor riram. No segundo tiro de meta foram dez a gritar o mesmo insulto, no terceiro cem, depois mil. O goleiro ficou indignado, gesticulava para que as câmeras filmassem o que estava acontecendo. Clima de tensão no estádio. Os jogadores do time da casa, alguns negros, correram para a arquibancada atrás do gol pedindo para que a torcida parasse. O time foi punido. Perdeu mando de campo, alguns queriam que fosse excluído do campeonato. Onde já se viu? Somos todos macacos!

O relato acima não aconteceu, mas seria plausível. É crescente a indignação com casos de racismo contra jogadores. Não há nenhuma virtude nessa indignação, é o mínimo que se espera de uma sociedade que pretende ser civilizada. Por outro lado é um avanço, se pensarmos que há menos de cem anos negros eram proibidos de jogar futebol profissionalmente.

O relato real, cada vez mais popular nos estádios, é o goleiro bater o tiro de meta ao som de “Ôôôôôôôôôôô... BICHA!”. Gritado em coro, o som é facilmente captado pelos microfones das emissoras, mas não merece sequer menção por parte dos narradores.

Juridicamente há uma grande diferença entre esses dois exemplos. Enquanto racismo é crime, ainda que poucas vezes punido, a homofobia não é. Não há nada de ilegal na atitude das torcidas e muitos encaram como uma provocação normal, inerente ao futebol, sobretudo nos países sul-americanos, onde a catimba é quase indissociável do esporte.

Futebol é mesmo lúdico. É provocação, é sacanear o amigo sabendo que na próxima rodada pode ser a vez dele nos sacanear. Às vezes o futebol é capaz de dar uma liberdade incomum, criando espaço para descontração em um ambiente normalmente formal, mas isso não quer dizer que não deve haver limites para o que pode ser feito em nome do esporte.

Há alguns meses vi no programa “A liga” uma matéria sobre a homofobia no futebol. Entrevistado, um torcedor alegou não ser homofóbico, mas – vale uma interrupção para ressaltar que nada de bom pode vir após esse “mas” – se algum homossexual jogasse em seu time, teria que sair. Ao ser indagado se isso não era homofobia o torcedor explicou que se aceitassem homossexuais os torcedores dos outros times iriam fazer piadas com eles.

Não precisamos refletir muito para perceber que nunca houve espaço para homossexuais assumidos no futebol, o que não impede que provocações gerem brigas, por vezes fatais. A mesma hipocrisia quase irracional do torcedor que tenta justificar o injustificável, barrando os homossexuais, atua na maior parte da sociedade, que felizmente não tolera o racismo escancarado nos estádios, mas aceita normalmente a homofobia.

Por trás de uma “inocente” provocação na cobrança do tiro de meta existe toda uma repressão social, que insiste em classificar o futebol como coisa de macho. As justificativas são inúmeras. É só brincadeira, é para evitar brincadeiras dos adversários, é só para desconcentrar. O fato é que homossexuais seguem sofrendo agressões físicas e psicológicas, que nada têm de inocentes ou brincadeiras.

Não é o grito de bicha a cada tiro de meta que me preocupa, mas a passividade com que aceitamos, quando não participamos, desse coro. Quando um ato de racismo gera revolta e indignação temos um fundinho de esperança. O ideal seria que a reação fosse a mesma em relação às outras discriminações. 



terça-feira, 19 de maio de 2015

O dia em que ele não morreu

Eu nunca tive ainda um contato muito próximo com a morte. Não tive que me despedir de nenhum membro muito próximo da família e nenhum amigo partiu ainda, me deixando pra trás. Não tenho, portanto, uma noção muito clara de como será passar por tal situação quando esse momento triste chegar para mim.
Era 6h30 da manhã e meu celular tocou me acordando. No identificador de chamadas vi o número da minha mãe, e pelo horário, já imaginei que fosse uma notícia parecida. Minha avó me veio imediatamente à cabeça, já que ela está sofrendo muito na luta contra o câncer. Ao atender, já preocupado, ouço minha mãe chorando peguntando se eu estou bem. Respondo que sim e pergunto o que aconteceu. A ligação cai. Quando ela me retorna está ainda mais alterada gritando por mim e perguntando como eu estou. Eu respondo que estou bem mas ela parece não ouvir e a ligação cai novamente. Quando o celular imediatamente toca de novo, ouço a voz dela me chamando. "Meu filho, é a mamãe... você está bem?". Respondo que sim e ela me da a notícia que eu não esperava jamais ouvir. Segundo ela, ao entrar no facebook pela manhã, havia visto a notícia da morte de alguém que ela sabe ser muito importante pra mim.
As lagrimas começam a escorrer como se já estivessem armazenadas ali há tempos esperando por esse momento para caírem. Eu só consigo dizer que não é possível que seja verdade e sinto tudo girar. A sensação de desmaio veio de uma vez e minha mãe me disse para deitar novamente, o que o fiz imediatamente.
Ao desligar o telefone e entrar em minha página do facebook, ainda deitado para me recuperar, a primeira imagem que aparece é o sorriso que ocupa o ranking invencível de sorrisos mais lindos da minha vida. Ao lado dele, uma mensagem de um suposto amigo avisando sobre o acidente fatal que havia supostamente levado para sempre as gargalhadas que eu sempre adorei ouvir. Desnorteado eu começo a ler os comentários. Alguns dos amigos mais próximos se questionando da veracidade da informação e ninguém com notícia concreta alguma. Liguei para o celular dele umas duas vezes e comecei a ligar para os meus contatos em busca do endereço dele. Enquanto rezava para que fosse uma pegadinha imbecil de alguém que havia achado o celular dele perdido e decidiu destruir minha manhã de terça feira, já chamava um táxi a caminho da casa que nunca tinha conhecido, apesar dos convites já feitos anteriormente. Quando a voz irreconhecível do outro lado do interfone finalmente respondeu, a sensação de desmaio veio novamente tamanho o alívio que se apoderou de mim. Ele estava bem. Vivo. E dormindo.
Não foi dessa vez que o dono do relógio amarelo se foi. E espero que ele não se vá nunca. Pelo menos não antes de mim. O mundo sem o som daquela gargalhada com certeza seria um mundo menos propício a ser feliz.
Uma vez, quando já não éramos mais um casal, eu disse a ele que o amava. Na ocasião ele não soube entender, ainda chateado com o rumo que as coisas haviam tomado para nós. Reitero hoje o que eu disse. Meu amor por ele nunca acabou, e nem diminuiu. Existem milhares de formas de se amar uma pessoa... e eu ainda estou descobrindo isso.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Confidentes

- Seja você esquece o blá blá dos outros.
- Pois é... Mas me sinto mal. Estou cada vez mais sozinha. 
- Isso é porque eles te veem, mas não te enxergam. 
- Os significados das palavras pra ela são diferentes. 
- Você foi egoísta ou ela fez como se sentisse uma? 
- Eu não os reconheço, não pertenço mais a eles. 
- Tenho medo de me tornar distante. 
- Ela ficará com a razão, mas sem o amigo. 
- Peguei pesado, mas porque sabia que iria mudar em relação a isso. 
- Eu disse: "Olha em sua volta". Ela disse: "Você é uma pessoa má". 
- Eles dizem o que sou... Como me veem. 
- Ela diz que é uma pouca-vergonha e que o mundo está perdido. 
- Porque tem determinação. 
- Viemos sozinhos e voltaremos sozinhos. 
- Desapega. 
- Mas eu queria aprender e não deixar apenas conflitos. 
- Posso soar um pouco frio. 
- Vive no automático, isso me irrita. 
- Será algo que eu tenha que enfrentar e superar? 
- Para de se sentir culpada. 
- O que é isso?? Vai viver menina... Vai viver!!
- A vida é uma só, não tem volta. 
- Ele escolheu o que ele vive hoje, Ele! Não foi eu. 
- Eu acho que não devemos desistir das pessoas. 
- Apesar de tudo desejo que sejamos felizes. 
- A vida é isso, um ciclo. Mas curte o momento. 
- Pessoas saem e entram em nossas vidas a todo instante. 
- Eles um dia irão embora. 
- Sinto as pessoas distantes... Mas de perto me dão medo. 
- Não diz isso, porque é em você que mais me encontro. 
- Será que eu sou uma pessoa que não consegue amar as outras? 
- Esse é o problema. Não pensar em ninguém, só em si próprio. 
- Mostre o mundo a eles. 
- Você sabe o que é o amor? 
- Somos uma imensa descoberta. 
- Encare a vida, você está com medo, mas é isso ai. 
- Acho que somos para sempre. 
- Estou com medo de ficar sozinha... Só isso. 
- Eu jamais faria isso com você. 
- Sinto que precisamos um do outro. 
- Somos basicamente um só. 
- Trocar ideias e experiências é evolução, é um ato de amor. 
- Me sinto especial agora. 
- Te amo. 



quinta-feira, 14 de maio de 2015

Tempero Especial

O casal sentado à mesa do restaurante, ambos olhando o cardápio. Ele relaxado por natureza, ela naturalmente ansiosa.

– Lelê, parece que o polvo grelhado com risoto de brócolis daqui é imperdível.

– Polvo? Não como polvo, Mário Sérgio. Me recuso a comer um bicho mais inteligente do que eu.

– Bom, Lelê.. por essa lógica, metade do pessoal lá do escritório não poderia comer carne de vaca. Acho que nem de galinha, só folha mesmo.

– Olha que tem umas samambaias bem inteligentes.

– Hmmm, escuta só, Lelê: “camarão graúdo em molho de tomate com manjericão guarnecido de arroz de olivas negras”.

– Camarão, Mário Sérgio? Você já esqueceu daquele jantar na casa da sua tia? Minha garganta fechando, a pele coçando. Você estava muito bêbado, Mário Sérgio.

- Bom, que tal uma massa então? “Fetuccine ao funghi”. Não tem frutos do mar, só creme de leite, funghi e tempero especial.

- Tempero especial? Como assim, tempero especial? O que tem de tão especial assim nesse tempero, Mário Sérgio?

– Devem ser ervas finas, relaxa.

- Ervas finas? Sei. Tipo ervas que não falam palavrão. Então deveria estar escrito aqui “Fetuccine-ao-funghi-com-molho-de-ervas-finas-que-não-falam-palavrão”. Olha aqui, Mário Sérgio! Eles descrevem todos os pratos. Gergelim torrado. Amêndoas na manteiga. Purê de maçã. Batatas coradas. 

- Mas então... - ele tenta interrompê-la, sem sucesso. 

- Arroz de castanha. Cebolas caramelizadas. Creme de espinafre. Por que não descrevem o tal do tempero especial? Que espécie de tempero é esse? Já pensei numas três coisas nojentas que podem ser especiais nesse tempero, Mário Sérgio. Se tem uma coisa que eu de-tes-to na minha comida é mistério. Mistério não funciona em nada que a gente precise engolir. Quero ver você tomar um remédio para gripe com paracetamol, vitamina c e "substância especial". Quero só ver.

– E a graça da vida, Lelê? (cantando) “Dois hambúrgueres, alface, queijo, mo-lho es-pe-ci-al!”

Lelê fecha o cardápio.

– Quero um ovo, Mário Sérgio. Um ovo.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Por que?

Impressão ou tudo está um caos?
Só as minhas redes sociais estão cada vez mais assustadoras ou a de vocês também estão?
Realmente o mundo está ao contrário e ninguém reparou? (ou o reparou) 
Ninguém se pergunta por que? Por que? Por que? Por que?

~ milhões de vasos sem nenhuma flor ~

Quando, nos dias atuais, as perguntas dizem mais que as respostas, Drummond sempre se faz mestre:

                                                              "Como pode o homem
                                                              sentir-se a si mesmo,
                                                           quando o mundo some?"


terça-feira, 12 de maio de 2015

Velhice precoce

Alguém me disse uma vez que eu era uma alma velha. Isso explicaria um certo cansaço que tenho quando olho as coisas que acontecem ao meu redor. 

Mas não explica mais nada. Porque se eu fosse uma alma velha, até acho que sou, deveria ter um sentimento maior pela humanidade, uma compaixão, uma tolerância. O meu olhar deveria ser como de quem vê crianças brincando, brigando, caindo e levantando. Mas não tenho esse olhar com o mundo. Pelo contrário, olhar me enche de tédio e angústia. Sempre tem alguém que diz – Você ainda tem tanta coisa para viver!

E respiro fundo. Não sou mal agradecida, a vida sempre se agradece, mas vou fazer o que se morro de tédio a maior parte do tempo? Até tento e se existe Deus, ele sabe como eu tento. Me concentro em coisas que gosto. Tento sempre entender o mecanismo do mundo, que faz essa vida para muitos tão excitante. Já me falaram que se eu fosse milionária não teria tanto tédio. Na verdade se fosse milionária estaria mais distante do que estou, porque colocaria todo meu dinheiro para trabalhar no resgate animal. Estaria ainda mais longe das pessoas, vivendo só com os animais. E eles às vezes me indicam o caminho. Quando o tédio me come viva, acontece alguma coisa, vaza petróleo em algum lugar do planeta e aparecem aquelas imagens tristes de animais cobertos pelo petróleo e morrendo lentamente. 

Penso nos milhões de animais sofrendo, agonizando, de novo pela ambição humana. E o tédio vai embora e sou invadida pela angústia, pela visão do mundo caindo na frente de todos nós. E talvez o tédio indique que minha alma é velha mesmo, mas é a angústia que avisa que minha alma ainda está viva.


segunda-feira, 11 de maio de 2015

Visco Arterial

"Eu quero é me apaixonar, preencher o vazio daquele que vasculariza meu corpo, amolecer o ressecado de tuas veias e aquecer o visco e frio rubro líquido que, sem escolha, tem que por lá passar."

sábado, 9 de maio de 2015

O amor de Puuung


Recentemente vi alguns amigos compartilhando no facebook (sempre dedicando aos seus parceiros amorosos) uma postagem que divulga ilustrações super fofas do artista coreano Puuung.

As ilustrações mostram a rotina de um casal, valorizando o amor presente em atos corriqueiros, que poderiam passar despercebidos facilmente. O artista busca encontrar o significado do amor no cotidiano e transformar isso em arte.

Gostei do trabalho, achei de muita sensibilidade e, mesmo estando solteira, pude me identificar com várias cenas ilustradas, afinal, o amor não está presente apenas em relações de namoro ou casamento.

 Eu posso ver o amor quando faço um almoço gostoso com minhã irmã...
ao receber um carinho quando estou doente...
quando minha mãe me serve um prato especial...
enquanto arrisco despretensiosamente uns passos de dança com um amigo...
ou ao passear de bike com outro.
Vejo o amor quando minha tia faz chá pra mim a noite...
 durante uma sessão de cinema ou de séries em casa com irmãos ou amigos...
 ao consolar uma amiga em um momento difícil...
e até nos mais sonolentos momentos de estudo em grupo.

Só faltou uma ilustração das personagens tomando uma cerveja numa mesa de bar rs. 

Acho que o amor, em resumo é isso: o cuidado, o carinho, a cumplicidade... o querer bem, querer estar perto, querer participar. Temos a opção de viver com amor ou sem (no sentido de perceber, demonstrar e valorizar a presença do amor em momentos cotidianos). Mas com amor, nossa vida fica mais leve e mais feliz.

E vocês, o que acharam dos trabalhos do Puuung? Também se identificaram? E sobre o amor, o que pensam? 


Música: Do amor - Tulipa Ruiz


sexta-feira, 8 de maio de 2015

Bolo

 O pai de uma colega minha tinha cirrose.

  Ele não viveria mais de uma ano embora ainda tivesse uma qualidade de vida relativamente boa, e um dia a dia relativamente normal.

  Um dos sintomas tinha a ver com a alimentação,que era muito restrita, doces por exemplo nem pensar, sobrecarregavam seu organismo e um pedaço de chocolate podiam fazê-lo dormir por dias, inclusive fora assim que descobriram que sua doença.

  Claro que não poder comer porcarias não diminuia sua vontade, muito pelo contrário.

  Acontece que esta minha colega, tinha tido duas meninas gêmeas ano passado, eram as duas primeiras e últimas netas do tal senhor que as adorava.

  Sabendo que o primeiro aniversário delas seria o único com a participação do avô, ela fez uma festa em casa com a família com direito a bolo de festa.

  Com a casa cheia, o velho encontrou espaço para comer escondido um grande pedaço de bolo, e foi embora bem para a casa com a esposa.

  No dia seguinte claro, dormiu profundamente, o dia inteiro, e o dia seguinte, e o outro.

  No terceiro dia a esposa acordou e o marido não estava na cama, procurou na casa toda e não encontrou, preocupadíssima ligou para o a filha, contando que o pai doente havia sumido.

  A filha no telefone, preocupada já ia sair as ruas procurando o pai quando ouviu a campainha tocar, pediu a mãe que esperasse no telefone. 

Na porta estava seu pai, que achando ter dormido só uma noite, foi cedo na casa da filha e a primeira coisa que perguntou logo depois do bom dia, é se havia sobrado um pedaço de bolo.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Então, é isso. Ou: um tchau, apenas.

Eu queria escrever meu melhor texto para sair do grupo. 
Uma saída apoteótica, todos desejam, quem não?
Mas eu não consegui.

Eu reli todos os meus textos. Percebi o quanto de mim deixei nessas postagens. Houve vezes que escrevi por escrever e o feedback foi excelente. Ao contrário, houveram vezes que textos que considerava brilhantes foram esquecidos, ou pior, risíveis. 
Faz parte de mostrar-se. Escrevemos para o outro.

Eu não consegui escrever meu melhor texto. Amanda Palmer diz que temos três pontos, como criativos: a coleta, a conexão, a partilha. E eu estou na fase da coleta. Algo virá, mas não agora.
Depois de muitos plágios, muitas decepções, muito muito por demais, eu percebi que eu preciso de um tempo. De me reinventar, de me reescrever.
Mas o show não pode parar, e eu não tenho condições para escrever coisas tão pessoais quanto as que já escrevi aqui. Alguém tem que ocupar o meu lugar.
Foi fascinante viver a experiência, mas está na hora de deixar alguém com mais a dizer tomar o dia 4 para si.
Vida longa ao próximo. 
A minha foi na medida.


Obrigado ao grupo, estarei sempre à disposição. Esse é que é um momento atípico, que pede decisões duras. Como largar o osso, por mais saboroso que ele seja.

Beijos para quem é de beijo, abraço para quem é de abraço. Até a próxima, até breve, até.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

teoria da conspiração

Ocupo para informar duas coisas: a primeira que lugar cedido gentilmente não deve ser desprezado, nunca, jamais em situação alguma e nenhum momento; a segunda é que venho por meio desta avisar que vou ali e volto já.

Mais ou menos assim: vou agora sonhar, depois acordo às 06h20min saio no máximo às 07h: 00, e devo chegar às 14h00min, daí me organizo para estar por aqui neste horário porque no máximo às 15h00min saio de novo e devo voltar às 17h para em seguida lá por volta de 18h30min sair e chegar apenas às 23h30min ou 00h12min e sonhar.

Mas uma coisa é certa, eu volto. Ah volto viu!

Como dizem por aí: é nois que tá.


Voltei hoje 02.05.15, às 13:30 por que ontem foi dia de afazeres aqui no moquifo e do curso.


E aí todos no interior sendo mordidos por muriçocas e pernilongos, forrando o bucho com cachaça, cerveja e churrasco ou salgando o rabo na praia? Que bom, os trabalhadores merecem, algo assim ou mais. Agora, se porventura tem duros (as) por aqui arrastando pragatas pela casa sem um tostão furado e inteiro nas calças, seguimos.

No ritmo de conversa de bar, rua, viela, grupos diversos (religiosos ou não e sem preconceito) ou de buzão sabe. De forma descontraída de quem nada quer se não o que é de direito, falar do que nos interessa e contempla de fato.

Nos últimos anos e principalmente meses tem ocorrido uma série de defesas que na verdade sempre existiram, mas ultimamente com maior afinco e agressividade. Elas acontecem sempre com “violência” e desrespeito no intuito de expor opiniões, autoritárias de que o certo é como está, é o que deve ser.  E os ajustes na política e economia servem para aqueles que devem ter a devida atenção, por exemplo, o setor empresarial, que segundo os próprios são os que mais empregam e movimenta a economia no mundo.

 O interessante é perceber em qual momento desta ordem econômica nunca teve atenção e reivindicações atendidas, por que afinal, não vivíamos e não vivemos no socialismo ou comunismo e menos ainda no anarquismo. Então alguém explica, por que anda muito difícil compreender as coisas erradas de sempre, aliás, minto anda difícil aceitá-las, pois se sabe que países escolhidos para exploração de mão-de- obra hiper barata (não é o da força que se diz sindical?) e recursos naturais bem como consumidores não poderão se colocar e se assumir como potencia mundial. Entenda de vez, em mundo de explorados por poucos (lembra dos 67 premiados?) não existe espaço para que todos sejam ganhadores. 

Tanto é que outro dia, ri sozinha, lá estava com o carrinho no hipermercado relacionando o que estava em promoção para comprar e pagar no cartão de crédito quando vejo: um rosto e a frase mais ou menos assim - que os herdeiros do plano real, ou seja, a elite empresarial vai às ruas e aprende política com o senhor do neoliberalismo no Brasil. Mas alguém, por favor, esclarece mais uma coisa aqui, tanto tempo ocupando e ainda não aprendeu? Será que não sabem ou disseram que criador não controla a criatura?

Mas vá lá, existe algum erro em propagar o posicionamento de direita? Claro que não, de forma alguma mesmo que dia a dia seja o que mais escutemos na tevê, no jornal escrito e etc e tal como também não é pecado, mal ou atrevimento dizer que existe possibilidade de melhorar a vida dos trabalhadores em escala mundial.

Então, seria importantíssimo que parassem de escavar as babaquices de sempre e de séculos atrás, de que há em curso uma tomada comunista, série de conspiração  ou que ainda resta resquícios do "mal" que ainda não existiu, sendo que nenhum país foi agraciado com esta experiência na gênese e de fato.

É ridículo dizer que ainda resta país com sistema comunista e que não se pode reclamar em qualquer momento, principalmente no dia do trabalho, pior ainda ridicularizar pensamentos e ideais de esquerda.

É bom lembrar que devido ao pouquíssimo tempo, limitado tempo, pequeníssimo tempo que nos resta, graças ao capital, os planos restringem-se em aprofundar a democracia, aliá-la ao social e mostrar as contradições e impossibilidade da junção entre bem-estar social com acumulação de bens materiais para poucos. Então a partir daí conceder as reais condições para que futuras gerações, talvez os filhos de meus netos decidam qual o melhor sistema político para viver com dignidade.

Por favor, não façam de palavrões como fizeram no passado e atualmente com os comunistas, os anarquistas, os socialistas, os movimentos sociais (legítimos, vindos de classes trabalhadoras extremamente precarizadas que enfrentam a ordem econômica e política vigente quando partidos políticos não os representa em reivindicações especificas, das classes subalternas sabe) os coletivos, os militantes, os estudantes, simpatizantes e agregados da esquerda, não demonize de novo porque o tempo e mecanismos, meios e veículos de comunicação são outros, ao passo que a direita pode se auto-organizar, nós também podemos e num piscar de olhos a qualquer momento pode acontecer o 1º de maio em escala mundial, porque tudo coopera para a perda de paciência dos trabalhadores e agradecemos muitíssimo aos criadores deste sistema de merda. 

E quando a esquerda diz que é possível, não mente, não agride e ofende ninguém. Existem possibilidades reais de melhorar a vida dos trabalhadores com outro sistema que de fato é uma verdade incólume.

Daí vem sempre algum desavisado e diz: mas o partido que está no poder não é de esquerda? Pois é, uns dizem que é outros não, mas que seja o que for ainda sim, pouco consegue fazer porque o sistema não altera, em qualquer parte do planeta globalizado e ajustado para poucos na ideia do mínimo para muitos, perdura.

Lembro-me do que disse certa vez um militante que infelizmente não recordo o nome presente numa palestra da Defensoria Pública em SP “pode ter o Che como presidente ainda sim, os movimentos sociais, à esquerda teriam que lutar”. Inteligente que só, ele conseguiu alumiar as ideias, ora se o sistema é o de sempre, achar que alterar apenas o cargo de presidente resolve tudo é ingenuidade não?


Ainda sim, não se deve desprezar a posição por que garante o mínimo do mínimo e precisamos sobreviver para fazer algo acontecer. Complicado? Também acho, mas significa dizer que o atual partido, da presidenta, que vem sendo duramente criticado por todos e com razão em algumas e várias críticas, desde que assumiu o cargo político mais importante, melhorou e muito a vida dos ricos, nunca antes no país os bancos lucraram tanto, bem como empresas e demais setores.O problema é que o bem-estar empresarial tem um tempo determinado, não pode acontecer em todos anos e séculos, caso contrário não existiriam apenas 67 agraciados mundialmente.

Mas diga-se também que o partido atual melhorou, mesmo que minimamente, a vida de gente extremamente miserável, e com críticas a parte deve-se reconhecer os programas sociais e outros que permitiram acesso as condições básicas para sobrevivência de muitos desfavorecidos.

E vamos combinar que até a ala conservadora ou classe média alta, os zes polvinhos sabe? tem reivindicado os programas, por que cobrar o financiamento de cursos (caros) em universidades privadas também é uma forma de reconhecimento né?

Sendo semelhante a quem disse no meu pé do ouvido que o partido que implantou o programa minha casa minha vida, cujo acesso permitiu que os fulanos comprassem o apartamento em que moram atualmente, não presta, que ia votar no essinho. Veja aí a contradição desgraçada! E meu pai do céu, a sicraninha aqui acaba de escrever o nome do futuro príncipe da colônia de exploração de forma totalmente equivocada. E agora? Quando vou parar na forca através da segurança nacional ou fogueira através da igreja cristã-capitalista?

E não vejo problemas em assumir que o partido atual fez algo para ricos muito mais que para pobres, e deixando críticas a parte para os pobres foi na base do mínimo, mas fez algo, o mínimo que todo estado moderno e burguês permite quando algum partido que se diz de esquerda consegue chegar lá.


E sabe o que é mais engraçado?

A disseminação constante de que existe uma conspiração de esquerda para tomar o poder, para virar Venezuela, Cuba e ex-União Soviética quando na verdade não existe. Reconheço que a Venezuela tem exagerado bastante em algumas situações, mas também reconheço que é difícil trabalhar com gavião querendo te nomear de inimigo nacional. A esquerda deve perceber que hoje as armas são outras, conforme dito por Pepetela (africano, comunista e ex-guerrilheiro) quando afirma de forma categórica que é necessário acompanhar o seu tempo e quando se refere ao movimento de ações revolucionarias.

Não conspiramos, não existe plano para tomar o poder através de armas, porque quando a química e tabela periódica se fez no mundo acabaram as chances disso acontecer. A nossa base de comunicação e articulação deve ser trabalhada na frase de Drummond “Lutar com palavras parece sem frutos, não tem carne e sangue... No entanto luto” aliada à ações e movimentos aqui e acolá lutemos e falemos abertamente sobre os pensamentos de esquerda e aceita quem quer quem precisa quem não acredita mais no mínimo do mínimo e isso não é crime. E se de fato é tão insignificante e inviável assim, por que temem? Qual é o problema? Porque a defesa tão escancarada?

E olha que ainda não visualizei possibilidades para já, não vejo condições objetivas de acontecer algo com relativa grandiosidade em escala mundial para logo. Então não consigo compreender tanta exatidão em ratificar as mesmas balelas de sempre, aquelas estórias das carochinhas que não causam efeito nem na vaca e menos ainda para o boi dormir. 

E devido à preocupação enorme bem como a pressa em defender-se, posso concluir antemão que de fato nada do que dizem a respeito do final do sistema capitalista é mentira. Tiveram a coragem de fazer crises e não tem a hombridade de resolvê-las, sabendo que com a economia globalizada é impossível  acontecer crise em algum país e não reverberar noutros.

 Mas insistem em dizer que quando há fracassado em determinado globo terrestre o problema é de gestão; e olha vamos combinar é sim, a gestão dos criadores do capital, totalmente incompetentes, criam cúpulas e criam grupos dos mais poderosos e nada resolvem, a começar quando diz que determinado bloco se juntou para que volte a crescer e resolva o problema do desemprego em um país apenas. 

Trata-se de incompetência para mais de metro com tantos anos/séculos por aí, a começar pelo FMI que não projetou segundo estatísticas a crise de 2008, também por bancos e setores financeiros que recebem dinheiro público muitíssimo (e continua), mas sempre mantendo o discurso furreco com projeções fora da realidade de crescimento, de saída de alguns países da austeridade com desemprego em alta, mesmo sabendo que não existe mais espaço para crescimento desordenado de poucos com a extrema pobreza de muitos.

E, trocando em miúdos, os trabalhadores podem, tanto podem que os criadores do capital estão se defendendo a torto e direito pautados no argumento de conspiração comunista, socialista e anarquista que sequer começou.


Então, podemos, se não viver para ver acontecer, criar possibilidades para que próximas gerações decidam se querem viver sem o capitalismo ou apenas sobreviver no canto de muita dor com ele.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Os Animais



- Você fez bem em vir para casa, meu amor, se estava tão cansado.
- There's not a place like home - disse Oliveira.
- Tome outro matezinho, acabou de ser feito.
- Com os olhos fechados parece ainda mais amargo, é uma maravilha. Se você me deixasse dormir um pouco, enquanto lê uma dessas suas revistas.
- Sim, querido - respondeu Gekrepten, secando as lágrimas e procurando "Idílio" por pura obediência, embora se sentisse incapaz de ler o que quer que fosse.
- Gekrepten.
- Sim, amor.
- Não se preocupe com tudo isto, minha velha.
- É claro que não, meu bem. Espere que vou colocar outra compressa fria.
- Dentro de um instante levanto-me e vamos dar um passeio por Almagro. É bem possível que esteja passando algum musical colorido.
- Amanhã, meu amor, agora é melhor que descanse. Você veio com uma cara...
- São coisas da profissão, que posso fazer? Não se preocupe. Escute com o Cien Pesos está cantando, lá embaixo.
- Devem estar trocando sua comida, animalzinho de Deus - disse Gekrepten. - Está agradecendo...
- Agradecendo - repetiu Oliveira. - Agradecer a que o tem engaiolado.
- Os animais não se dão conta.
- Os animais - repetiu Oliveira.


J. Cortázar – O Jogo da Amarelinha 





sábado, 25 de abril de 2015

Dois pesos

Você alimenta o ódio. Eu alimento o amor.
Você grita o ódio. Eu exalo o amor.
Você ri do ódio. Eu choro com o amor.
Você não sabe o que fazer com o ódio. Eu quero te mostrar o que fazer com o amor.
Você diz que o ódio é seguro. Eu me jogo do precipício do amor.
Você se sente protegido com o ódio. Eu te desarmo com amor.
Você pergunta: "Ódio a que?". Eu respondo: "Que não seja ao amor".

Escrito ao som da voz que me acolhe.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Q&A a Day

Sou daquelas que adoram diario. Acredito que eles me ajudam a me conhecer melhor e a entender o que eu pensava em determinada época e porque tomei algumas decisões. 
O problema é que sou daquelas que nunca terminam algo. Já comecei mil diários e nunca levei nenhum pra frente. Alguns dias são corridos, outros não são inspiradores e quando eu paro pra ver passou muito tempo sem nenhuma nota e eu desisto (meu 8 ou 80 issue). O mesmo acontece com as promessas de dieta/ exercícios/ estudo... (lista infinita). Se for pra fazer meia boca é melhor não fazer e como não sou perfeita acabo não fazendo nada. Mas isso é tema para outro post.

Semana passada estava no caixa da livraria cultura quando vi esses dois livros e resolvi tentar mais uma vez:

Pirei. Os dois são para serem usados por 5 anos e tem uma capa dura linda. Cada página tem uma data e 5 espaços (você deve preencher um por ano). O Q&A faz uma pergunta por dia e o azul tem tema livre. Eles eram meio carinhos (uns 70 Dilmas cada), então comprei somente o Q&A porque achei mais interessante e mais fácil de cumprir.
A má notícia é que mesmo na Amazon o preço é esse, então acho que só vou comprar o azul daqui a 5 anos.. e vamos lá, porque ter dois diários ao mesmo tempo? Estou numa fase meio menos é mais, querendo parar um pouco de acumular tanta coisa na minha vida.
Esqueci de mencionar que os livros são em inglês, então eu recomendo fortemente para quem domina o idioma e para quem ainda não domina (será uma ótima oportunidade de aprender).

quarta-feira, 22 de abril de 2015

All in

Cada escolha carrega consigo uma renúncia. Você escolhe dormir cinco minutos a mais e renuncia a possibilidade de chegar cinco minutos mais cedo. Você escolhe a camisa xadrez e renuncia a azul marinho. Você escolhe viajar no feriado e renuncia ao prazer de ir ao aniversario da filha de seu amigo. Tudo muito simples quando o que se renuncia e o que se escolhe são praticamente equivalentes, quando o que está em jogo são médias com a chefia, camisas azuis ou brigadeiros. Em resumo, sua vida não mudaria substancialmente se a coisa renunciada passasse a ser a escolhida.

Agora, nem todas as escolhas são fáceis assim. As escolhas mais difíceis de nossa vida são aquelas em que para se ter algo que consideramos valioso de um lado, perdemos muito de outro lado. São essas as escolhas que geram mudanças substanciais se forem feitas, pro bem ou pro mal. É como num jogo de pôquer. Você pode passar a vida fazendo a aposta mínima com seu adversário, mas não vai sair do lugar se não der um all in de vez em quando. 

Mas não é todo mundo que tem coragem de dar um all in. Arrisco a dizer que boa parte das pessoas passam a vida sem dar um allinzinho sequer. É mais seguro, é verdade. É mais cômodo, concordo. Em alguns casos pode ser o melhor a se fazer, talvez. Só que é um marasmo só. Não há mudança sem escolhas grandiosas, sem escolhas arriscadas. Afinal, o seguro morreu de tédio.

Ok. Não estou sugerindo que se arrisque como se não houvesse amanhã, que devemos arriscar tudo em toda e qualquer situação. Não é isso. Voltando ao pôquer, seria o mesmo que sugerir que alguém desse um all in no primeiro par de 2 (este é o único caso em que "par de 2" não é um pleonasmo, vejam só) que aparecer. O que acontece é que muita gente tem medo de arriscar mesmo com um full house em mãos, mesmo diante da possibilidade um bom caminho pela esquerda, há quem opte pela comodidade do conhecido caminho da direita. E de novo. E de novo. E de novo... o que torna a situação mais irracional do que dar all in em par de 2...

***

Como todos, tenho meus medos, meus apegos, meus comodismos, mas desta vez, ao menos desta vez, opto por arriscar...

- All in!


terça-feira, 21 de abril de 2015

Sobre uma tarde de feriado

Escrevo nesta tarde do dia 21, uma tarde preguiçosa de abril, feriado nacional, enquanto venta lá fora.
Sim, eu sei...
Deveria ter pensado no quê escrever há tempos. A bem da verdade, lembrei que dia 21 era somente hoje.
Decididamente, o emprego que eu tinha, no qual eu era obrigado a me "entreter" com datas e afins, era muito importante em relação à memória.
Pensei em escrever sobre o dia 11 desse mês, no qual fui sorteado pela vida para mais uma vez sofrer uma terrível cólica renal, oriunda de uma infecção urinária (fruto, por sua vez, da baixa ingestão de água), falar sobre o número absurdo de pessoas que estavam na fila do pronto-socorro com suspeitas de dengue. Com muita gente saindo com caso confirmado.

Não. Deixa isso pra lá.

Na verdade, à partir de amanhã, me verei como um forasteiro em minha própria cidade.
Gosto de imaginar minha vida como um filme. Acho que é próprio dos amantes da sétima arte.
Me verei numa cidade na qual preciso urgente de um emprego para me sustentar.
Sim. Trabalho na rádio ainda. Não saí de lá.
Mas preciso de um emprego para honrar minhas contas. Com esse preço subindo a galope, o custo de vida aumentou por aqui. E aí? Como está?

Contenção de gastos, redução de custos... Nunca tive problemas com isso, na verdade. Costumo dizer que o costume é um hábito que se ganha e que se perde. Se adquire e se abandona.

Não nascemos grudados com nada. Dá pra relevar.

Só não volto para o depósito no qual trabalhei tempos atrás devido ao medo absurdo que fiquei dos assaltos. Para se ter uma ideia, em junho agora irá completar um ano desde a minha saída de lá, e nunca  mais pisei dentro daquele estabelecimento.

Mas de boa. Sei que uma hora dessas, alguma porta irá se abrir.
O por quê do termo "à partir de amanhã"?!

É que hoje é feriado. E é meu primeiro dia com 35 anos. 
Foi meu aniversário ontem. E quer queira quer não, começo a imaginar e me deparar com a realidade de que ainda há muito " conquistar na minha existência.
Se Deus me der a graça de viver 70 anos, estou na metade de minha vida. Por isso, cuidando melhor, à partir de agora, da alimentação e tudo o mais.

Comecei tarde? Pode ser.

Mas tenho fé e esperança de que tudo dará certo.

A gente mata a saudade de "Drive", com The Cars.

Aquele abraço, e até o mês que vem.


segunda-feira, 20 de abril de 2015

E se...?

Hoje são tantas as grandes cidades e tamanha a supremacia do estilo de vida urbano que por vezes esquecemos o quanto é recente a sociedade vivendo fora do campo. O homem sempre viveu o mais próximo possível da produção agrícola, as cidades eram pequenos povoados se comparadas às atuais e serviam principalmente como pontos de comércio, para um consumo de produtos mais diversificados do que a própria plantação.

Foi com a revolução industrial que o fluxo migratório se intensificou e com o advento da linha de produção que a sociedade definitivamente encontrou um rumo aparentemente ideal. As indústrias precisavam de cada vez mais mão-de-obra e pouco a pouco desenvolviam máquinas para a lavoura, substituindo o trabalho do homem. As peças pareciam ter se encaixado. A maior parte da população passa a se concentrar nas cidades, que abrigam indústrias carentes de trabalhadores, enquanto um mínimo necessário permanece no campo, onde a produção agrícola aumentou mesmo com menos trabalhadores.

O paradoxo é que a tecnologia não tem limites e, sendo o lucro a principal meta de uma indústria, a mão-de-obra humana passou a ser gradualmente substituída por máquinas e computadores. Onde há pouco tempo grandes galpões reuniam centenas de trabalhadores para executar uma tarefa mecânica, hoje existe uma única máquina, mais rápida, mais precisa, mais eficiente, mais lucrativa.

As pessoas substituídas pelas máquinas não poderiam voltar para o campo. Lá a tecnologia já havia se desenvolvido há mais tempo. Plantadeiras, colheitadeiras, pesticidas. Para a produção agrícola em grande escala, quanto menos gente melhor. Na cidade foi mais fácil a diversificação de serviços, rearranjando a tecnologia e criando novas necessidades, mesmo sem ter sanado as mais antigas.

Fica cada vez mais gritante um efeito colateral do desenvolvimento desde a revolução industrial. As cidades, cada vez mais poluídas, abrigam uma infinidade de subempregos. Ainda que a taxa de desemprego não esteja alta, existe demanda o suficiente para que pessoas sejam mal pagas para pendurar uma placa de anúncio de novos apartamentos no pescoço e ficarem paradas em algum cruzamento movimentado.

No campo, economicamente, está tudo perfeito. Gastos cada vez menores e lucros cada vez maiores. Para aumenta-los ainda mais reduzimos as áreas de mata nativa, desenvolvemos transgênicos e se for preciso o governo ainda subsidia a produção, concentrando fortunas nas mãos de pouquíssimos latifundiários.

Poucos se arriscam a negar que do ponto de vista ambiental o desenvolvimento industrial e econômico foram desastrosos. O aquecimento global, as chuvas irregulares, níveis de poluição alarmantes, presença de agrotóxicos e metais pesados em lençóis freáticos, etc. Uma infinidade de fatores que levam alguns cientistas a afirmarem que não há mais solução e que os recursos naturais estão fadados a acabarem.

Mesmo com o clima do planeta cada vez mais maluco, há quem insista em priorizar o desenvolvimento econômico. Essa mesma economia que reúne nas mãos das 80 pessoas mais ricas do mundo o equivalente a toda renda dos 50% mais pobres (3,5 bilhões de pessoas).

Por mais benevolente que seja o olhar, só é possível considerar algum sucesso no modelo atual se abstrairmos uma quantidade estratosférica de fatores. E se as terras fossem minimamente repartidas, passassem a empregar a massa de mão-de-obra dispensada nas cidades para uma produção agrícola mais saudável, com menos agrotóxicos e sem transgênicos?

Os problemas do mundo não acabariam, mas essa medida reduziria a concentração de renda insana citada acima, empregaria muito mais gente e reduziria o preço dos alimentos ditos “orgânicos”. Diminuiria o impacto ambiental e seria um passo em direção a um estilo de vida mais natural – aquele que a humanidade cultivou por milênios, sem ameaça ao planeta ou de auto extinção. Mas isso já é conversa de comunista. Melhor chamar os militares para que eles evitem qualquer mudança no modelo atual.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Penúria é ser pombo às terças-feiras

João da Esquina joga búzios e lê tarô enquanto me encaminho para o almoço: cinquenta minutos de abstração, de tempo outro. As pulsões me levam com certo ânimo a textos engavetados, mas aqueles pombos... não adianta, não me saem da memória falida dos sonhos. Mastigo, avanço alguns parágrafos, e mais uma vez, eram tantos...invadiam a sala, bicavam o metal vagabundo da janela do quarto, suas doenças, retumbadas do caos construído por nossos defuntos - escravizados, imigrados - respingavam no sofá; num instante de maior atenção, lembro-me de ter visto piolho-a-piolho resvalando por entre penas tortas.

Dou seguimento as garfadas apenas por movimento robótico do corpo, deixo-me perder com mais afinco nas rememorações: aquela cagada na cabeça; a tarde em que papai, num espanhol canastrão, e o vendedor de rua, italiano, exerceram com maestria a não-comunicação; eu, pequenina, olhava-os agarrada ao saquinho de milho, dezenas de pombos farfalhavam ao redor. Fernando, anos mais tarde, repetia-se - para onde vão os pombos de noite? - noutro dia quase lhe mandei mensagem contando de alguns refugiados no velho assoalho.

Na medida em que me atrelo a estes fios mnêmicos, tento dar veracidade a quaisquer associações esdrúxulas, possíveis interpretações de meu pesadelo.  Rogo nesta busca por apaziguamento, embora meu desejo pareça sucumbir a camadas cada vez mais sombrias e ilógicas. Eu tento, meu bem, eu tento, mas me distraio com outros cigarro que encontro nos bolsos, o último dessa vez, só mais dessa, que é terça-feira, o dia mais longo, cê sabe.

A quentura reverbera do asfalto, os pombos & as calçadas escorregadias, os pombos & a fiação tomada por seus trinta-e-cinco centímetros de existência. Os pombos, afinal, servindo a analogia barata de quem tem paridade no bicho escorraçado, de quem também bica restos orgânicos pelas esquinas, de quem tem o voo preso no retorno contínuo do bate-cartão, de quem é matéria de mandinga e por isso bota os trocados na cesta de búzios, mas não tem culhão para ver no que vai dar.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Êêêêpa!



Eu, como adepta à política da boa vizinhança, cortesia e diálogo, evito o quanto posso bater boca. Minha mãe sempre disse que tenho o dom de machucar com as palavras, se é que isso seja um dom, e que palavras não podem ser desditas, o dano é irreparável. Mas tem gente que parece impermeável à assertividade e que adora praticar um bullying na meia idade. Como tenho intolerância à grosseria e dedo na cara, esses indivíduos acabam conhecendo a Vera Verão que vive em mim.

Dias atrás, precisei descer do salto e abrir o leque imaginário.  Um desses babacas cujo modus operandi consiste em puxar o tapete dos outros, dizer que se fosse ele faria melhor e usar o deboche para diminuir as pessoas (mas que na realidade é um grandessíssimo café com leite), resolveu questionar o meu posicionamento profissional – que estava correto, só não era conveniente para ele – sobre um assunto. Negando qualquer tentativa de diálogo inteligente, já na segunda frase o tom de voz dele subiu, o usual deboche deu as caras e ele começou a questionar a minha competência aos berros na frente de muitos colegas de trabalho.

Pois bem. Aconteceu o que acontece todas as vezes que recebo a entidade Vera Verão: eu fiquei roxa de raiva, acabei erguendo a voz também, usando o meu sarcasmo (que, modéstia à parte, é muito melhor do que o dele) e finalizando a discussão com uma pequena cutucada em uma ferida que eu sabia que ele tinha. Pelo silêncio que se decorreu, parece que eu venci o embate.

Isso não me impediu de cair no choro assim que ele foi embora e a minha adrenalina baixou. Eu não me sentia vitoriosa. Não queria precisar chegar a tanto. Só queria que ele calasse a boca e sumisse da face da terra. Por que ele não podia ser educado e entender que ele não é melhor do que ninguém?

Após muito desabafo no ombro de gente que sei que se importa comigo, aquietei a minha consciência e cheguei à conclusão de que ninguém precisa ser saco de pancadas de ninguém e que às vezes é preciso pegar pesado para não sair de capacho. O peso nos meus ombros diminuiu ainda mais quando soube que no outro dia ele contava a versão dele para quem não viu o nosso telecatch, retratando-me como a sem educação e prepotente da história. Já os que presenciaram a cena me deram todo o apoio, dizendo o quanto ele agiu de forma desnecessária.

Resumo da ópera: comedidamente, um dia de Vera Verão faz bem e lava a alma. Mas não adianta esperar que, assim como nos filmes, um babaca aprenda a lição, pois, babacas serão sempre babacas, sentem orgulho de serem babacas e sempre se aperfeiçoarão na arte da babaquice. 

terça-feira, 14 de abril de 2015

Última Postagem

Essa poderia ser só mais uma postagem, mas não quero continuar com isso.
Posso continuar escrevendo todos os dias 14, de todos os meses, por anos.
Escolho não.

Estou sendo sincera com vocês (caros e caras leitoras) e comigo também.

Sei o quanto estou insatisfeita com as minhas postagens, até mesmo por que não consigo ter a pretensão de melhorá-las. 

Não estou também envolvida minimamente com o blog. Raramente  leio outras postagens.

Escrever no blog virou para mim apenas um compromisso, que eu sigo porque tenho esse "hábito" (me falta palavra melhor) de fazer as coisas com as quais me comprometo. Era um compromisso para comigo, com a minha coerência...mas não era um compromisso que fazia muito sentido na minha vida, não se conecta com nada. Falta vontade, tesão...esse tipo de coisa que dá vida a um esqueleto, que ilumina e revela as cores.

É isso. Lá se vão minhas últimas palavras.... hahaha

Sem pompa, sem despedidas, sem adeus.

Sinto vontade de agradecer  minhas leitoras e meus leitores. Obrigada, sinceramente. Parece meio patético, mas....  e daí? Abusei desse liberdade que esse espaço me proporcionou! Posso dizer que 80% das vezes escrevi com liberdade e sem muitos julgamentos, devo dizer até que sem senso do ridículo algumas vezes.

Sem orgulho.....mas sem vergonha também. Foi! Foi uma entrega (algumas vezes mais, outras menos, e por fim apenas cumpria protocolo).

O desafio acabou. Não quero continuar arrastando textos...

Agora são 00:00hr....Meu tempo passou.

Que outras histórias, de outra vida, venha ocupar esse lindo dia 14!!!

Tchau!

Carol
Outra Carol