segunda-feira, 22 de novembro de 2010

E agora, José?

Um dia, a festa acaba, a luz apaga, o povo some, a noite esfria. José sabe muito bem disso, mas está inerte numa situação delicada que não lhe permite impedir esses acontecimentos

José é uma boa pessoa, quem o conhece afirma com segurança que ele é decerto um dos companheiros mais divertidos. Quem o conhece, porém, também afirma com segurança que Clóvis, alter ego de José, é totalmente desestimulante. Há inúmeras diferenças entre um e outro e todos são capazes de reconhecê-las facilmente. Saber quando José é José e não Clóvis também é fácil – o motivo pela existência do outro eu de José é bem visível: o namoro.

José, um dia, se apaixonou e foi correspondido. Conforme o sentimento aumentava, envolveu-se num romance. Eis que Clóvis surgiu. Este veio para suprir a necessidade daquele de agradar em todos os aspectos a namorada. Se José é liberal, engraçado, confidente e próximo, Clóvis caminha no sentido oposto: ele é contido, sério, distante e intimidador. Quem vê José, rapidamente deseja lhe dar um abraço e conversar com ele sobre os acontecimentos da vida. Quem vê Clóvis logo deduz que não haverá espaço para uma boa conversa.


A namorada de José o adora – afinal, com ela, ele é ele mesmo e também o outro, fazendo-a, portanto, muito feliz. Os amigos de José, no entanto, não sabem como se portar diante disso. Ora o vêem como aquele que conheceram, três anos antes; ora o vêem como o homem sisudo que veio em decorrência de uma sutil incompatibilidade entre as personalidades de José e de sua namorada. Os eventos em conjunto tendem à tensão: nunca se sabe se quem vem é José ou se é Clóvis - ou ainda se José se tornará Clóvis ao longo da noite. Uns preferem a presença de Clóvis à ausência de José, outros preferem sua total ausência à possibilidade da vinda de Clóvis. Não há consenso, nem todos concordam com a alternância de personalidade e nem todos discordam dela.

A namorada de José, todos deduzem, garante a ele: você não ficará sem mulher, não ficará sem discurso, não ficará sem carinho. Os amigos, inseguros em relação ao que devem e ao que não devem falar, pensam: o dia não virá, o bonde não virá, o riso não virá e nem virá a utopia, e tudo acabará, tudo mofará. Receiam, contudo, esse pensamento e optam pelo otimismo – até porque, quando saem junto com Clóvis, notam que suas personalidades são intercambiáveis e às vezes percebem que estão a falar com José por alguns minutos, antes de ele voltar a ser Clóvis. Vale ressaltar que José convive bem com Clóvis. José é consciente da existência do seu alterego, parece não ligar em sê-lo às vezes, e, na maioria das vezes, opta por ser o outro a ser ele mesmo.

Ninguém diz, mas todo mundo pensa: um dia, José poderá acabar sozinho no escuro, tal qual bicho-do-mato. E querem todos que ele não se iluda com falsas liberdades, com palavras gentis que confundam o seu discernimento. Querem apenas que ele dose bem os seus momentos como José e seus momentos como o outro, a fim de que sua festa não acabe, a luz não apague, o povo não suma, sua noite não esfrie e, por fim, ele tenha que perguntar a si mesmo: e agora, José?.

domingo, 21 de novembro de 2010

O Retorno

"- Passa a gilette na minha nuca?"
"- Hum, quer ficar bonito para quem?"
"- E desde quando eu sou bonito?"
"- Risos! Para mim você continua sendo..."
"- Humpf!"

A mulher pegou o aparelho de barbear e começou a raspar os pêlos que insistiam em crescer desalinhados na nuca do marido. Há tempos eles não tinham tanta proximidade física, pois estavam passando por um período em que cada um estava ocupado demais com seus próprios afazeres. Ela aproveitou-se do momento para roçar maliciosamente os seus seios nas costas dele que ficou meio sem entender suas intenções. Minutos depois:

"- Prontinho, está feito!"

Teso e tenso, o homem puxou com força sua esposa pelo braço que caiu sentada desajeitada no colo dele. Antes que alguém pudesse reclamar ou se manifestar, beijaram-se primeiro suavemente, depois com mais intensidade...

Com a chama do desejo acesa, ambos se lembraram porque tinham resolvido namorar e depois engatar o relacionamento em um casamento. Não entenderam porque tinham se afastado tanto. Em instantes, as mãos já estavam entrando por dentro das roupas e vasculhando partes úmidas de seus corpos até atingirem o clímax quase que simultaneamente.

De repente, lembraram-se do compromisso:

"- Que horas são?"
"- Quinze para o meio dia..."
"- Puta que o pariu! O táxi está aí desde às onze e meia!"

Desceram correndo os lances de escada do prédio que estava sem luz. O taxista estava com a costumeira cara amarrada de sempre:

"- Toca pro metrô mais próximo, xará!"

Chegaram na estação sorrindo e de mãos dadas, mesmo tendo pago alguns minutos a mais na corrida.

sábado, 20 de novembro de 2010

Estrelinhas

Quando eu era criança, sempre que fechava meus olhos, na hora de dormir, tinha o breu dos olhos fechados invadido por milhares de pequenos pontinhos multicoloridos, parecido com estrelinhas, que ficavam rodopiando e navegando como cardumes sobre a escuridão.

Toda noite era assim. Depois de chegar da escola e passar as tardes pulando entre as árvores e brincando com os animais que meu pai criava no quintal da minha casa, eu me recolhia na noite e não tinha medo. Pois sabia que as estrelinhas, que era como eu as chamava, estariam lá para embalar meu sono.

Mas uma noite elas não apareceram. E depois e depois. Nunca mais me encontrei com as estrelinhas e descobri que isto era crescer.

Toquei a vida, comecei a construir meu caminho e atender ao chamado das expectativa de todos que me cercavam. Primeiro pai, depois mulher e enfim, filhos. Fui consumido pela rotina, embriagado pelo tempo, trabalho e dinheiro mas, ao conversar com minha filha, descobri que, todas as noites, as estrelinhas a visitavam.

O mundo girou ao meu redor e percebi – acho que a tempo – o que estava fazendo com a minha vida. Entregando meu tempo e inspiração por um punhado de moedas, em troca via, pela janela, passar meus dias mal vividos, como um espectador distante.

Voltar a brincar foi estranho, mas era preciso... logo estava pensando em como pude deixar de fazer isso com minha filha por tanto tempo. Minha filha enfim estava re-ensinando a viver e eu, um bom aluno.

Na noite passada estava preocupado com o que poderia publicar neste blog, mas quando fechei os olhos percebi que as estrelinhas voltaram.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

19 Again

Ando com vontade de fazer uma experiência no melhor estilo Julie & Julia, ou seja, cozinhar todas as receitas de algum clássico da cozinha nacional e blogar a respeito. Não seria muito original, é verdade, mas acho que já passei da idade de querer ter idéias novas e brilhantes o tempo inteiro (a privação de sono me envelheceu 20 anos nos últimos 11 meses). Já até escolhi possíveis vítimas: "O Livro de Receitas de Cláudia" ou "Comer Bem" (aquele com a Dona Benta na capa).

Acontece que não sei cozinhar nada e sempre tive a forte impressão de que essa é mais uma daquelas habilidades-armadilha que te prende mais do que liberta. Além disso, tem o problema das calorias. Nunca conheci nenhuma da qual não tenha gostado, mas estar acima do peso é algo que não me faz bem (e não sou do tipo de mutante intergalático e lendário que, diante de comida boa, come pouco ou adora fazer exercícios).

Acho que essa vai entrar pro rol das coisas que eu não fiz. Tipo postar mês passado. Foi mal.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

DDA e outros déficits

Eu não tirei a outra via do cartão, não experimentei o paletó, não aprendi articoli determinativi, não vi o gol do Marcos Assunção, ainda não sei o que aconteceu com o Silvio Santos, não organizei os livros no acervo, não comprei a passagem, ainda não fui pra casa do Bola e nem almoçei.
É que eu estava pensando em você, pelada.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Intolerante à intolerância


- Mãe, quem são eles?
- São ciganos.
- Quem?
- Ciganos, vai me dizer que não sabe o que é um cigano?

Nesse momento, escutei atentamente a mãe italiana explicar ao seu filho de 6 anos “o que eram os ciganos”.

- São pessoas que não tem casa, moram em trailers e roubam. É isso que eles fazem, roubam.
- São ladrões? Não, ladrões são outra coisa né, mãe?
- É a mesma coisa.

Eu já ouvi dezenas de afirmações iguais ou piores que essa. Ao invés de ciganos, os alvos se transformavam em romenos, marroquinos, africanos. Os brasileiros também entram na lista. Mesmo quando a ouvinte sou eu, uma brasileira vivendo na Itália, portanto, também estrangeira. Não senti preconceito na pele, quer dizer, não fui xingada nem maltratada por vim de onde vim, mas já senti desprezo em olhares, já respondi perguntas absurdas e me indignei diante da imagem construída por muitos italianos do Brasil. Geralmente ela não é boa, posso garantir.
Se é correta a teoria que a arquitetura de um país diz muito sobre a cultura e a personalidade de um povo, algumas cidades italianas retratam bem porque o país é considerado um dos mais preconceituosos do mundo. Muitas das cidades onde estive têm imponentes fortalezas em seu entorno. Dentro dos muros, geralmente ainda intactos, está a cidade, protegida contra a invasão “dos outros”.
Zygmunt Bauman, em seu livro O amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos, explica que as pessoas assustadas pela misteriosa e inexplicável precariedade de seus destinos e pelas névoas globais que ocultam suas esperanças buscam desesperadamente os culpados por seus problemas e tribulações. Adivinha quem geralmente são os acusados? Os forasteiros.
Quando eu comento sobre essas situações com amigos brasileiros, a maioria vem com aquele argumento de que no Brasil é o contrário, já que “gringo, aqui, é rei”. Mas de que “gringo” estamos falando? Veneramos mesmo os estrangeiros? Então, quais são as imagens que construímos da África? E pra não sair do continente americano, o que pensamos de bolivianos, peruanos, equatorianos?
Difícil saber como o preconceito nasce, por que a xenofobia pulsa entre os povos, por quais motivos essas falsas imagens são construídas, disseminadas, cristalizadas. A conversa que presenciei entre mãe e filho na Itália é um desses inícios. Pode demorar para que o menino italiano encontre um cigano, mas algo muito forte dentro de mim diz que ele terá medo assim que se deparar com um. Infelizmente, ninguém vai roubar isso dele. Acho que esse é um dos piores males do preconceito. A cegueira não se cura. Leis são criadas no intuito de acabar com o racismo e a intolerância, mas esse é um dos “crimes” nos quais medidas autoritárias são pouco eficientes. Pior, são capazes de agigantar a raiva, a revolta contra aquele grupo marginalizado.
Enquanto o politicamente correto continuar polindo as afirmações em público e as aberrações continuarem a ser ensinadas dentro das casas, das escolas, das igrejas, enfim, o preconceito continuará mais forte (e mais propagado).
Mas não foi minha estada na Itália que me fez pensar nisso. Posso dizer, sem medo de errar, que sou intolerante à intolerância há muito tempo. Não digo que sou isenta desse mal, já que porto essa semente, germinada vez em quando outra, quando caio na tentação de generalizar outros povos, quando aperto a bolsa contra o corpo diante de alguém “suspeito” - que fala uma língua desconhecida e tem traços diversos - quando reduzo alguém a sua nacionalidade, como se identidade fosse só isso.
Esses dias, conversando com uma amiga, falávamos do preconceito sofrido por brasileiros na Europa. Eu lhe disse que nós também temos as nossas intolerâncias e que não podemos apenas nos colocar na posição de vítimas. No que ela respondeu: “ah, mas nesse caso não que seja certo termos preconceito, mas é uma coisa quase natural”. Meu medo é justamente esse. Viver em um mundo onde intolerância seja natural, quando respeito mútuo o deveria ser.
Não sou uma “nova engajada raivosa”, para usar uma das expressões que ouvi quando deixei pública minha revolta contra os comentários absurdos sobre nordestinos depois da vitória da presidente eleita. Não sou de levantar bandeiras, sou menos politizada do que gostaria e uma das minhas grandes frustrações é não ter nenhuma grande causa para defender.
É por isso que eu quis escrever isso aqui. No sentido de compartilhar uma ferida que não me cicatriza nunca. Se eu fosse mais evoluída, quem sabe, levantaria essa bandeira, de um mundo sem muralhas. Porque se derrubar nossos muros nos deixa desprotegidos, também nos dá a possibilidade de conhecer outros mundos, de igual para igual, ou seja, respeitando nossas enriquecedoras diferenças. Não seríamos divididos, mas inteiros.


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Casamento

Como dispensar um amigo da sua lista de padrinhos?
Apresente a lista de padrinhos e informe que ele está fora, na lata, sem piedade. Explique que no seu matrimônio somente estarão as pessoas que você gosta. Como a esposa dele não é uma dessas pessoas...
Geralmente não temos nada contra as esposas de nossos amigos. Às vezes, os padrinhos são escolhas da noiva, bem como as cores do enfeite, as flores, os coquetéis, a marca da cerveja, do açougueiro que forneceu a carne, do DJ, do setlist e das fotos. Sim, somente às vezes. 
Se ele for muito seu amigo, o compense na despedida de solteiro, pedindo as participantes uma atenção bem especial. Ou melhor, duas participantes, exóticas, quem sabe uma negra e uma asiática numa mesma sessão com tatuagens nos pegadores. Recomende o uso do blue dream.
Se realmente é amigo, entenderá perfeitamente, poderá demorar um pouquinho. Poderá ocorrer somente depois de boas assistências no futebol de quinta. Quem sabe no truco, depois de maços em que você o deixará sempre abastado com casal maior.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sobre ser 8 ou 80, regida pelas leis de Murphy

Minha existência se resume a viver repetidamente duas situações: ser demais ou ser insuficiente. Nunca, jamais, sou em quantidade adequada.

Sinto-me muito urbana para viver na minha cidade de poucos mil habitantes e ao mesmo tempo caipira demais para habitar uma metrópole. Sou excessivamente alta para usar salto e demasiadamente vaidosa para me conformar com rasteirinhas e sapatilhas. Ou me considero culta em excesso ou uma completa analfabeta perto dos caras com os quais saio. Soo ser super fresca ao dizer as coisas que não como, ao mesmo tempo que aparento ser grosseira ao pronunciar meus gostos musicais e cinematográficos excêntricos. Sou patricinha demais para os meus amigos homens e largada demais para minhas amigas mulheres. Ou eu intimido por tomar todas as iniciativas, ou entedio por me comportar completamente passiva nas situações cotidianas. Sou experiente demais para as vagas de emprego menos remuneradas e, ao mesmo tempo, uma newbie master para os cargos que exigem experiência. Se filosofo sobre aquilo que sei pareço arrogante e se assumo desconhecer um assunto sou motivo de chacota.

Completamente deslocada e com um saldo exorbitante de fracassos pessoais, sociais, econômicos, profissionais e amorosos, só me resta dividir um pouco da culpa com Murphy, que criou as leis déspotas que regem minha vida. Pelo menos já sou experiente o bastante para saber que a única diferença entre as leis de Murphy e as leis da natureza é que na natureza as coisas dão errado sempre do mesmo jeito.
  

domingo, 14 de novembro de 2010

Meu nome é Heryslaine

-Como?
-Heryslaine. Com H.

Com H. Dizer que meu nome começa com H não explica nem o começo, só complica. Você pode até pensar que minha mãe me odeia pra ter me dado um nome assim, mas na verdade ela é uma pessoa amável. Meu pai é que me deu esse nome, ele sempre foi meio maluco, diz minha mãe. Não me lembro de quantos vezes eu quis trocar de nome durante minha adolescência, mas meu pai fazia uma cara de desolado toda vez que eu tocava no assunto, mesmo de brincadeira. Talvez fosse o fato de ele se chamar João da Silva, não quis que a filha fosse confundida a vida inteira com outra pessoa, com qualquer um. Chamar João da Silva é quase não ter nome. Heryslaine porém é o ápice da identidade. O substantivo mais próprio do mundo. Não posso reclamar que alguém jamais tenha me confundido com outra pessoa. Heryslaine é uma só.

Hoje digo, quase que com orgulho:

-Meu nome é Heryslaine. Mas pode me chamar de Lan.

sábado, 13 de novembro de 2010

Azul e branco



II


Na verde espessura
Do fundo do mar
Nasce a arquitetura.

Da cal das conchas
Do sumo das algas
Da vida dos polvos
Sobre tentáculos
Do amor dos pólipos
Que estratifica abóbadas
Da ávida mucosa
Das rubras anêmonas
Que argamassa peixes
Da salgada célula
De estranha substância
Que dá peso ao mar.

Concha e cavalo-marinho.

Concha e cavalo-marinho:
Os ágeis sinuosos
Que o raio de luz
Cortando transforma
Em claves de sol
E o amor do infinito
Retifica em hastes
Antenas paralelas
Propícias à eterna
Incursão da música.

Concha e cavalo-marinho.
III


Azul... Azul...

Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco

Concha...

               e cavalo-marinho. 

Vinícius de Moraes



[No Palácio Gustavo Capanema, o poema de Vinicius de Moraes materializado em azulejos de Portinári: azul e branco. Manhã de segunda-feira, Rio de Janeiro, e um dia de sol.]

[O Palácio Gustavo Capanema foi construído entre 1936 e 1945, por uma equipe liderada por Lucio Costa.
Nela, estavam os então jovens Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão e Oscar Niemeyer, entre outros. Os jardins foram desenhados por Burle Marx. Os azulejos da fachada, bem como os painéis do segundo andar, por Candido Portinari. Por tudo isso, o Capanema é considerado um dos principais edifícios do modernismo brasileiro, e seu prédio é tombado desde 1948.]


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

"A internet é a própria metáfora da transmissão de pensamento. Isto é ficção científica."

Eu adoro música. Adoro show. Adoro viajar. Quando junta tudo então, aí é uma beleza. E é bom que seja assim, porque morando em BH, não é todo mundo que vem tocar aqui. Ou quase ninguém, pra ser mais exata, principalmente se vier de fora. Tendo tempo, dinheiro e companhia, é difícil eu perder um que eu goste. Mas acontece.
E eu tinha certeza que ia acontecer com o show do Paul.
Quando começaram a vender os ingressos, aquela loucura de sempre de pré-venda, aquela correria, sites congestionados, só pode quem tiver o cartão de crédito tal, ingressos esgotados em pouco tempo, minha irmã deu um jeitinho e perguntou se eu queria que comprasse o meu. Não, brigada. Vou esperar os meninos decidirem, aí compro com eles. Resultado: os meninos não decidiram, ou decidiram que não, ou decidiram por conta própria, em outros dias, outras praças, e eu? Sobrei. Isso. Sold out. Nem mais unzinho pra vender. Quem comprou, agarrando o seu. Resolvi olhar nas agências de turismo, essas que fazem pacotes de avião + ingresso + hotel ou ônibus bate e volta + ingresso ou só o ingresso mesmo. O precinho? Uma pechincha! Tipo 3 vezes o preço normal. Certos eles. Humpf! Aí eu desisti. Ir à falência por causa de um show também já é demais. E é bom pr'eu aprender. Quem mandou recusar a oferta em tempo? Quem mandou dizer que não queria quando começou a vender? Quem mandou ficar de bobona esperando o pessoal todo resolver? Quem mandou, hein? Bem que a minha irmã já me falou - em caso de despressurização da cabine, coloque primeiro a sua máscara, depois a dos outros. Me conformei. E eis que aos 43" do segundo tempo... tcharam!!! Me aparece uma boa (aliás, ótima) alma no Facebook, oferencendo um ingresso de pista, lindão, pelo preço normal, assim, olha só! E eu que até um mês atrás nem tinha Facebook...



terça-feira, 9 de novembro de 2010

Uma DR com SP

Você não me quer, mas não posso te deixar. Desculpa, fui muito direta? É que há dias, já não sei quantos, queria ter essa conversa contigo. Não sei exatamente quando você deixou de me querer. Talvez você nunca tenha me querido de verdade, talvez sonhamos que pudesse dar certo, já que você sempre teve talento para se dar bem com todo tipo de gente e eu só sirvo para vidas com data de validade estabelecidas. Eu sou assim, e assim fugi, e assim voltei.

Voltei de olhos fechados diretamente para os seus braços, mas quando cheguei eles estavam cruzados. Seu coração estava congestionado, as regras mudaram, os preços aumentaram. Aqui descobri que sou sem teto e sem chão.

Você não me quer. Mas não posso te deixar. Voltei decidida a tentar de verdade que por fim pudéssemos ficar juntos, voltei com mil planos para nós. Você também tinha planos, as promessas eram inúmeras, você me desenhava oportunidades que eu jamais pensei encontrar justo aqui, e agora. Busquei planos assim longe daqui, perto daqui, em lugares parecidos, em lugares radicalmente diferentes. E até hoje não entendi como foi o processo decisório para que eu assinasse embaixo desse contrato de voltar para ficar contigo.

Mas você não me quer. E me perguntam por que não posso te deixar. É mentira, ninguém perguntou. Não contei pra ninguém que você fez isso comigo. Justo eu, que tão bem te tratei, mesmo que tenha te afastado sem querer querendo mais de uma vez. Tenho vergonha da minha ingenuidade. Eu, que me conhecia tão bem, agora me olho no espelho e não me reconheço.

Não posso fugir de novo. Não quero mais fazer malas. Não, não, não. Não tenho mais planos, só tenho a sua rejeição contínua, incansável, que me contamina o pulmão em cada escapamento furado, me atordoa o ouvido a cada ruído da catraca, que me ferve o sangue a cada insulto opressor.

E eu aqui, agora aqui, ainda aqui, sentada em terra firme, com meu botezinho amarrado no cais, suportando a urgência de fugir rodeada por todo tipo de distração que decida passar perto de mim. Não tenho um pingo de esperança que um dia você volte a me ver como eu era, como eu acredito que ainda posso ser. Agora só espero o tempo passar.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

domingo, 7 de novembro de 2010

Nota mental

Para lembrar: o para sempre é feito de todos os dias. Logo, ser feliz para sempre começa com a tentativa de ser feliz a cada dia.

sábado, 6 de novembro de 2010

Palmeiras não. É Palestra!

Giggio, o pequeno Palestrino em
Palmeiras não. É Palestra!

       Como virei Palmeirense? Nunca. Não gosto de dizer que virei Palmeirense, pois isso acarretaria em dizer que já fui algo diferente, não fui.  Antes de pensar em qual seria minha alcunha meus velhos já procuravam utensílios verdes para meu enxoval, dizem que minha primeira palavra foi: “Djalminha”.
         Claro que não começo eu não entendia nada, mas mesmo a família sabendo que eu não conseguia distinguir o verde do laranja, ficavam muito orgulhosos a me ver cambaleando e caindo vestindo aquele macacão comprado na loja do time. Agradeço o bom senso deles de cultivarem e incentivarem esse amor sem precisar ter que me levar ao estádio antes que eu conseguisse controlar minhas necessidades fisiológicas, penso que seria bem embaraçoso isso, fora que eu não ia entender nada mesmo, ia ser demais pro meu sistema nervoso central entender a regra do impedimento ou porque o Galeano era titular.
         Finalmente, aos seis anos chegou o dia da minha “estréia”, a família toda estava presente no Palestra Itália, parecia até que eu ia jogar. Entrei no campo com os jogadores, conheci o estádio e enfim, vi o jogo. Lá pelas tantas do segundo tempo finalmente saiu o gol, não sabia o que fazer, então, comecei a pular e a fazer movimentos sem sentido até que começaram a me abraçar. Então virei para trás e disse para um senhor: “foi gol do Palmeiras!”, ele respondeu: “não filho, gol do Palestra!, do Palestra!”. Não entendi no primeiro momento e só mais tarde fui procurar saber por que ele disse aquilo, na verdade ouvi uma centena de vezes depois a mesma história daquele senhor, 1942, guerra, perseguição, aliados...
         Assim, por livre e espontânea pressão, nasci Palmeirense, ou melhor, Palestrino. Meu avô, “seo” Donato, até hoje fala Palestra, é como se assim se diferencie dos demais Palmeirenses, como se fosse algo a mais, uma patente mais alta.  Não que tenha ranço das pessoas que provocaram a alteração do nome, ou mesmo que não goste da designação Palmeiras, é somente um velho rabugento que tem aversão a mudanças mesmo.

Estória e personagem de: Vlad Galli

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Quindim

O despertador gritava, esperneava, chamava a atenção mais que tudo. A cama estremecia, o quarto todo pedia a paz dos deuses. O sonho interrompido por uma peça de Verdi. Tudo bem, não era o rebolation o alarme do celular e sim a criação de um dos compositores mais influentes do século XIX, mas ninguém merece ser acordado quando o sonho que se sonha é bom, é doce. Ela sonhava com o quindim da padaria da esquina. Para uma garota de doze anos, sonhar com quindim não era um sonho qualquer. Quindim era o balconista.

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O enterro de um homem coerente (por Gilberto Amendola)


Por Gilberto Amendola 


Morreu um coerente. Um sujeito que teve sempre a mesma certeza - do cordão umbilical até o derradeiro suspiro. Um homem sem esquinas na alma, sem becos obscuros desembocando no esgoto do peito. Morreu um triste.
Os parentes se aproximavam do caixão sem crer. Não havia um sinal de dor, uma marca, um corte ou qualquer outro indício da morte que ali se apresentava. Seu corpo inerte não era diferente daquele que até ontem gozava de boa (eu diria, perfeita) saúde.
Amigos? Uns dois ou três - que eram mais frutos de uma conveniência corporativa (subalternos ou lambe-botas) do que de laços fraternais. O morto, o coerente, não perdia tempo regando a flor errática da amizade, que além de dar trabalho não traz nenhuma garantia de boa colheita.
Se algum amor chorou por ele? Só o da própria mãe - que é compulsório e, que me perdoem as mães, não conta. Uma mãe é capaz de amar o pior canalha. Mas, justiça seja feita, o coerente nunca foi um canalha. Seria demasiado humano para os padrões dele.
O coerente, como se percebe agora, sempre manteve uma distância segura de seus pares. Nunca se envolveu em nada que representasse uma possibilidade de dúvida. Nunca quis saber de alguém que dissesse 'A' - quando acreditava que o correto seria ouvir 'B'. O coerente não alimentava baboseiras. Era uma linha reta em direção ao precipício do entendimento.
Não se tem notícia de lama em seus sapatos; de chicletes em seu cabelo ou cárie em seus dentes - não era muito de comer doces, dizem. Se não era perfeito, ora bolas, que criem uma outra definição para perfeição.
Mas a vida, que não é feita para ser poupada, deu o troco. Por infelicidade, o pobre rapaz morreu cedo, com o bolso cheio de medalhas, honras ao mérito e outras quinquilharias de gente de bem. Não se sabe se foi vítima de alguma doença extravagante e sacana - dessas que só matam pessoas extremamente limpas e educadas.
Não sofreu. Ou, talvez, tenha sofrido. A questão é que o coerente não sabia o que era e o que não era sofrer. Sabia o que era uma gripe ou uma pequena enxaqueca. Agora, sofrimento, ele não sabia não.
Morreu dormindo. Vai saber se algum dia esteve acordado? Mas se foi dormindo. E neste intervalo entre a vida e a morte, o corpo rogou por um sonho. E o que aconteceu? O coerente se viu mergulhado em uma palidez abissal, dando braçadas desconexas no ar. Era pura comédia física. Aliás, o que é a vida se não uma comédia física.
Enfim, foi o sonho possível de um homem coerente. Ele mesmo teria gargalhado se não fosse esteticamente incorreto gargalhar. Vamos dizer que o coerente sorriu ironicamente, tal qual um lorde inglês (melhor assim).
Mas eis que o coerente morreu. O caixão foi fechado. O corpo desceu. Os presentes fizeram aquele ar de tristeza, tudo de praxe, tudo coerente com o sujeito coerente que tinha partido desta para uma melhor.
E todos foram embora daquele cemitério: abraçaram suas mulheres, beijaram seus maridos, usaram seus iPhones, limparam seus pés de barro e pegaram seus carros. Na primeira curva depois do portão já não havia mais nada para ser dito sobre o homem coerente. Todo dia morre um. E ninguém (ou quase ninguém) liga.
Enquanto o esquecimento varria a antessala do pensamento, os vermes, sempre eles, rodeavam o corpo do homem coerente. Aquilo, que se pretendia um banquete, parecia indigesto.
Os vermes não farejaram algo apetitoso, algo suculento, algo que tenha sido embebido na cachaça da vida. Era molho ruim. Comida sem graça. Nem os vermes quiseram petiscar o defunto mais coerente da história.
Acho que o homem coerente nunca vai apodrecer.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Super bactérias, ativar!


















Esses dias me perguntaram se eu sabia algo sobre a super bactéria. Respondi que não e que não queria saber. Tá, eu ouvi por alto, vi um link de noticia aqui e ali, mas me recuso a prestar atenção. Já estava cansada do papo de bactérias comuns, agora me inventam uma super?

Desde que eu sou criança eu comemoro meu aniversário na Festa Uai, uma festa que tem todo ano aqui na minha cidade no mês de Agosto. Esse ano falaram que não teria. Como assim? Corte de verbas, disseram. Fiquei puta. Pelo visto outros também ficaram e por fim resolveram fazer a festa por míseros 4 dias. Antes eram 15, mas ok. Como dizem por aqui, melhor pingar do que secar.

Fomos. A família toda. Escolhemos a barraca de sempre, aquela que serve feijão tropeiro, couve, pernil e torresmo. Na hora de servir a tia da barraca me entrega uma marmitex quadrada e talheres de plástico. Pensei que era um erro e afirmei que não tinha pedido para viagem. Normas da vigilância Sanitária, ela me explicou.

Engraçado que a vigilância sanitária parece não ter muita consciência ecológica, né? Antes comíamos em pratos normais, talheres normais, que depois eram lavados e usados por outra pessoa. Esse ano não. Sacos e sacos de lixo de produtos descartáveis. Tudo em nome das bactérias. As temidas.

Eu queria que a agente sanitária responsável me apresentasse um atestado de óbito de alguém de foi infectado por alguma bactéria na festa e morreu ali mesmo, com a cara no tutu de feijão. Só assim faria sentido. Ou radicalizasse geral. Não pode falta de higiene? Então quem comer espetinho de gato que os camelôs vendem na porta da festa está preso. Sem direito a fiança. E mais do que isso, queria que ela se sentasse na minha mesa e me ensinasse como diabos se espeta um torresmo com garfo de plástico.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Dois textos em um: Gastronomia Fail + Dakota´s battle

Gastronomia Fail

- Além do galeto, vou querer o arroz maluco.

O garçom era muito atencioso e simpático. O local era limpo, bem decorado e bem arquiteturado. Galeto primoroso, no ponto certo, saboroso ao extremo. Na minha mente, pipocavam os seguintes pensamentos: “que delícia”, “porra, bom pra caralho”, “tomara que não chova, quero muito jogar futebol hoje”, “sempre em busca do novo do novo. Do novo”, “por que você cisma com esse conceito publicitário? É muito ruim, cara. Esquece essa merda”, “que tal misturar logo o galeto com a porra do arroz maluco?”.

(Evito ao máximo usar palavrões nos meus textos. Mas como eu tive que relatar os pensamentos que pipocavam na minha mente, que são sempre recheados de palavrões, eu não tive outra escolha.)

Então eu coloquei o arroz maluco no prato e senti um gostinho de indústria, inaceitável para um restaurante daquele nível. Examinei a travessa de arroz e vi que a batata palha era daquela que vem em saquinho, como se fosse Ruffles. Qual é a dificuldade em fazer uma porcaria de uma batata palha verdadeira, no óleo, crocante e saborosa? Me lembrei de um restaurante mexicano que teve a indecência de servir guacamole com Doritos. Pode ser que para muita gente o Doritos ou a batata palha industrializada não seja um problema muito grave. Mas para mim foi tão grave quanto se eu tivesse visto três ratos e uma barata transitando pela galeteria. A propósito, chama-se Galeteria Mormaço e fica no Jardim Botânico.

Então agora vocês já sabem. Podem ir sem susto, a comida é muito boa, só não me peçam o arroz maluco. Tem que ser muito maluco mesmo pra pedir aquele arroz.

Dakota´s battle

Hoje eu sonhei que a Dakota Fanning havia se mudado para a minha casa graças a um sensacional e totalmente impensável namoro do meu pai com a mãe da menina prodígio. Ela se tornou rapidamente a minha irmãzinha querida. Andávamos na Lagoa quase todos os dias, levei-a para conhecer as praias menos badaladas, assistimos os seus filmes preferidos e o meu inglês progredia numa velocidade extraordinária. Então, numa manhã de domingo, ela me deu um abraço apertado e disse que eu era o melhor irmão do mundo. Eu estava tão feliz que não conseguia dizer nada. Mantive os olhos fechados por um bom tempo, envolto no seu abraço apertado. Ao abrir os meus castanhos olhos sem graça e comuns para fitar os seus belos olhinhos azuis, eu vi um armário aberto, um aparelho de som e uma calça pendurada na parede.

Voltei a dormir e sonhei que o meu pai era morto por uma espécie de urso que pulou de uma árvore enorme enquanto passeávamos na sua fazenda. Foi uma cena bastante traumática. O urso era seis vezes maior que um urso convencional, mas ele lutou bravamente. A sua morte custou caro e ele não se desesperou em nenhum momento. Encarou o urso gigante de igual pra igual. Fiquei orgulhoso do meu pai. Não só pelo confronto com o urso, mas principalmente por ter namorado a mãe da Dakota Fanning.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

o dia em que fui atingido por uma bolinha de papel e não morri, obrigado

31 de outubro de 2010. eu tava quieto em casa trabalhando em pleno domingo à noite. daí a dilma rousseff resolveu ser a primeira mulher presidente do brasil. a presidenta dilma. pow, momento histórico, não? fogos, helicópteros, buzinas foram invadindo meu apê e eu fui convencido a dar um pulinho ali na paulista sapear a festa. sabe ano-novo? então....

cheguei lá, encontrei amigos, escritores, artistas, diplomatas, jornalistas, mendigos, vovós e crianças. todo mundo gritando DILMAAAA.

de repente, não sei de onde, uma bolinha de papel cai na minha cabeça e eu desmaio, quase morro. um jornalista viu a cena e chegou a tirar essas fotos no momento exato deste ato de vandalismo e agressão. corri pro hospital pra fazer uma tomografia, mas tava tudo bem. a bolinha de papel não me matou.




voltei a tempo de ver a queima de fogos à meia-noite.

e gravei um trecho da "festa da democracia". o dia em que o "feminismo ressuscitou". o dia em que uma mulher assumiu o poder no brasil. um dia que vai ficar na memória de todos, independentemente de sua escolha partidária.



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é complicado descrever o que foi este evento, mas emocionante talvez seja mesmo a melhor palavra. sei que amanhã ou depois eu posso me arrepender amargamente pelo meu voto e por aparecer no fim desse vídeo fazendo joinha, mas pelo menos tenho certeza de que eu, que vinha desanimado de política há anos, começo a pensar que alguma coisa pode - enfim- mudar.
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ps.: a parte da tomografia é mentira, mas né, tenho que explicar isso porque tem gente que acredita em tudo que escrevo.

sábado, 30 de outubro de 2010

Quem tem um sonho não cansa

"É preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho, de observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho e de realizar escrupulosamente nossas fantasias; sonhos, acredite neles"
Vladimir Ilitch Ulianov Lênin


Estudante na Escola de Cinema de Munique em 1997, Florian Henckel von Donnersmarck estava em busca de ideias de roteiro para as aulas. Agitado com a falta de inspiração, certa noite ele se deitou no chão de seu quarto ouvindo Beethoven.

Enquanto a mente divagava, lembrou-se de algo a respeito de Lênin. Dizem que o líder comunista evitava ouvir a Appassionata de Beethoven, pois essa peça o emocionava tanto que tinha medo de tornar-se manso demais para implementar seus projetos revolucionários. “Se eu a continuar ouvindo não levarei a cabo a revolução”, teria dito.

De súbito, von Donnersmarck concebeu a trajetória de um homem cuja humanidade seria resgatada por meio da música. Assim nasceu Das Leben der Anderen (A Vida dos Outros), filme que 10 anos depois receberia o Oscar de “melhor filme estrangeiro”.

Revi essa preciosidade nesta semana e pesquisei um pouco sobre a peça de Beethoven. Dividida em três movimentos, dura aproximadamente 23 minutos. O compositor escolheu o tom de fá menor provavelmente porque a tecla mais grave nos pianos da época era um fá. A nota aparece em profusão ao longo da peça, lhe conferindo um matiz sombrio, por vezes interrompido por laivos de arrebatamento que parecem não se consumar.

Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, escolhi a peça de Beethoven como trilha sonora. Conhecer o nome do novo presidente exatamente na considerada “noite sagrada” (hallow evening, em inglês) não deve ser mero capricho etimológico dos deuses. Vou resistir à quase inevitável blague que consideraria mais adequado chamar o “Halloween” de “Dia das Bruxas”, a fim de homenagear a provável ocupante da cadeira presidencial. A imbecilidade chegou a níveis tão absurdos durante a campanha que vamos levar um tempo para voltar ao tradicional bom humor verde-amarelo.

Na peça de Beethoven não há pausa entre o segundo e terceiro movimento, exatamente como vai ocorrer no Brasil. A sensação de continuidade será a mesma, a despeito de quem for eleito. O papel de Regina Duarte em 2010 foi desempenhado (canhestramente e sem trocadilho) por Paschoal Piragine e a desilusão parece ter vencido o medo.

Ouvir repetidas vezes a Appassionata aguçou minha mansuetude, proporcionando quase uma verdadeira brochura cívica. Felizmente, descobri uma versão com um delicioso tempero jazzístico. Não é hora de perder a ginga, ainda que ela venha em passos ½ desengonçados como a da violinista Naoko Terai.

Sonhos podem se transformar em pesadelo coletivo, como no caso de Lênin. No entanto, não me faculto ao direito de não participar desse momento ou de deixá-lo passar literalmente em branco. A porção poliana que vive em mim continua se equilibrando como a esperança da canção do João Bosco. Além da música, tomo emprestado do cineasta alemão uma frase que ele encontrou num pacotinho de açúcar e que o acompanhou durante todo o período de concreção de seu sonho: “O caminho do menor esforço só é asfaltado no começo”. Quem vem comigo? o/

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

sem título, sem vídeo, sem foto

O cai-cai nas pedras, equilibrando-se, até chegar na ponta, sem medo. Esforço recompensado,os 45 minutos, de contemplação.

Os três peludos, boa companhia, nas cores: preto e branco, amarelo e branco, e cinza. Tão tranquilos, calmos, nenhum latido. Fofos.

O desejo do mergulho, a ponto de lavar a alma.
Mergulhei, sem medo, no ininteligível dos seres, o inumano.
A torcida escondida não organizada, assovios. Outra vez, mergulhei, mais uma vez, e voltei. Livre.

Materializado o encontro: água viva dentro e fora, alma tocada. Viva a coragem, vontades.O bem-querer-se, querer-se muito, além, querer-se-bem.

Para C.L,a sincera gratidão, ao ensinar "matéria de salvação"...

O lugar bonito e a sensação gostosa,o prazer contínuo em andar, andar e andar.

Almejada há cerca de 3 anos.E saber que acertei na escolha: pedras, folhas caídas, embelezando as ruas. Indicando, por ali, a primavera. Cores em portas e janelas, predominante: o azul, o amarelo e o vermelho. Branco para o resto.

A simplicidade em cada espaço; igrejas antigas, algumas em reforma, lojas com artigos coloridos, passeio de charretes (a tempos não via, algo assim), a singularidade de cada espaço, resistindo ao tempo.

O som, as cores, luminárias várias, a beleza à noite. Gente indo, vindo, despreocupadamente.Sossego.

A imagem congelada: a hippie de cabelos longos, olhos distantes, boca fina, saia bordada e colorida, blusa de babadinhos com florzinhas amarelas. Tocando saxofone, à esquerda um cão branco com manchas pretas; à direita um velho de veste parecida (colorida e despojada), acompanhando-a, violão.

Prazeroso de ver e ouvir.Ambos sentados na calçada, de fundo a Tabacaria de janelas vermelhas, com lustres bonitos.Sem esquecer do retrato, o desenho do momento no momento - incrível.

A música "calhente", sensual, olhares devoradores, mais um pouco, esse pedaço é arrancado.(ufa!)

Próximo ao Quilombo, aventura por ruas bem estreitas.
O motorista piloto-de-fuga, a serra como montanha russa o friozinho na barriga. (up!) Da janela, mata fechada, o cheiro de chuva, terra molhada, céu nublado.Sem sol, apenas o mormaço.

Subindo, subindo, subindo...

A imensidão, o aberto das costas. Bravo, gigante em cada qued'água. Olhos maravilhados, no infinito, o falso verde e azul no vai e vem.Desaguando quaisquer resquício de doença,tristeza depressão/melancolia. Nenhuma gota, tudo deixado para trás.

Ah, essa existência de Deus...danada de bonita!

A comida agridoce, bastante suco, dos mais variados sabores/gostos. Peixe amargo, considerado o melhor. Salada colorida, paladar agradecido, a vontade de ficar ali.Cadeiras e mesas pra fora, o samba-rock e mpb ao vivo, noite bonita; gente de bom gosto e bom humor,sempre disposta ao diálogo,assuntos diversos. O sotaque, de todo tipo.

O relógio ignorado, a zero hora de qualquer momento. Registro, arquivo, melhor a mente...

Aquela adega estilosa, cheia de gabriela-cravo-e-canela, acalorando corpos. A mulher-aço-nua, logo na entrada.A arte, cacos de vidros colados, garrafas coloridas, doces, o afrodisíacos. Cheiros, vontades, e mais alguma coisa. O mel e maracujá sem cravo, rodadas, vira-vira, confusão, talvez fosse suco (?) de tão doce.O rosto corado, suor no pescoço/corpo todo, literalmente assim, e assim...

A linha azul perdida, Jabaquara. O desembocar de carangueijos e águas vivas, areia grossa cheia de conchas.Forte e canhões, àrvores velhas e pedras. Do alto,visão incrível da cidade. Vento, olhos fechados. Sorriso.

A linda exposição. O cheiro de barro, mesa lotada de pincéis, guaches, tintas ocres, cores, argilas, potes decorados e coloridos. Quadros vários, janelas abertas, toras de árvore pelo meio. Esculturas miletricamente trabalhado a mão. Um depoimento, uma música bonita, o teto com buraco transparente. As cortinas de bolinhas, com cheiro de chuva.

A conversa, a indignação, trejeitos daqueles estranhos (secos), a conclusão: não hastear bandeiras, se os braços não são fortes o suficiente para segurá-las.Ponto final. O casal super mega divertido fazendo mimicas para se fazer entender. A falta do inglês, ainda mais o espanhol, a urgência para o futuro. A gaúcha linda, a carioca engraçada.Em quase todo lugar, ficar louco, nem precisa o trabalho, é de tabela mesmo.Risadas.

Agora percebo, escrito menos da metade do todo.

Se soubesse que era bom assim, teria ido antes.
Prometo dar mais vazão/ATENÇÃO a rica e amiga intuição.

Ando assim óóó, carregando o sol.

O sol que não esteve por lá, a não ser aqui dentro, bem aqui, aqui mesmo, dentro de mim.

Será a tal felicidade? Se não for, é parente bem próximo.

O presente, bem presente.

Ou a entrada festiva e bonita dos 30 anos...

Seja muito bem vinda, NOVA FASE.

Oh delícia de VIDA!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O desenho da maçã não é uma maçã













Aquela distinção entre filmes para esquecer-se da vida e filmes para refletir, em minha opinião, é muito antipática.

Os primeiros são os chamados de filmes bobos, hollywoodianos, previsíveis, cheios de atores bonitões, um clímax angustiante e, de preferência, um final feliz. Os últimos são os Cult, com mais profundidade do que orçamento, preocupação com a arte fílmica, com cores, fotografia, finais nem sempre felizes ou até final nenhum.

Eu, que fui extremamente afetada pelo filme Irreversível, do francês Gaspar Noé, mas que também sou fã de filmes adolescentes no maior estilo Hannah Montana (é sério!), fico sempre achando que, no meio desses rótulos todos, o que mais importa para mim, como espectadora, é a história.

Tenho uma visão bem infantil nesse aspecto, acredito. Digo bem infantil porque essa visão começou quando eu tinha uns cinco anos e não mudou muito de lá para cá. Você pode considerar meio psicótico, mas, para mim, os personagens existem mesmo. Não é faz-de-conta: eles existem!

A vida deles não é como a nossa vida, que começa na maternidade e termina no cemitério, digamos. A vida deles começa e se encerra na história. Se a história tem uma continuação em que mudou o ator principal, se a história tem elementos completamente inverossímeis, se o roteiro tem buracos, se o produtor alterou a versão do roteirista e o filme terminou do jeito X em vez do jeito Y: não importa, a vida dos personagens é assim.

Para usar um exemplo bem extremo: em Sex and the City 2, tem aquela cena (spoiler, cuidado!) em que as muçulmanas tiram as burcas e mostram suas roupas de marca que estão por baixo. Pode parecer ridícula para muita gente. Eu mesma achei desnecessário. Mas, naquele mundo mesmo, esse detalhe não interfere em nada. Porque o mundo em que a Carrie, a Miranda, a Charlotte e a Samantha vivem é assim: mil coincidências acontecem, elas vivem aventuras incríveis, elas saltam com facilidade de um táxi para um camelo e tudo bem! Como um desenho de uma maçã não é uma maçã, uma história de cinema não é nossa vida. É a vida dos personagens.


Claro que vendo a vida dos personagens, podemos refletir, podemos rir, podemos inclusive fazer análises sócio-político-econômicas, mas é aí que volto para o primeiro parágrafo. Acho antipática essa divisão entre filmes para refletir e filmes para esquecer a vida simplesmente porque eu posso muito bem refletir por dias depois de ver um filme como O Amor é Cego, assim como posso voltar a pensar nos meus problemas bancários depois de ter visto um filme todo cult que, simplesmente, não me afetou.


Já aconteceu de eu não refletir nada numa aula de sociologia, psicologia da comunicação, e refletir muito depois de ver uma moça andando descalça pelas ruas de Mariana (cidade mineira em que atualmente moro). Simplesmente não é o filme que vai me mandar refletir ou não sobre algo: depende do meu estado de espírito, depende se aquela questão abordada me toca, depende como estou no dia. E tem gente que costuma refletir sobre tudo, e tem aqueles que não refletem sobre nada, que dormem em filmes cult pretensamente cheios de sentido.

A propósito: adorei Sex and The City 2 e sou uma grande fã da série. E como é chato ouvir de várias pessoas que as moças são fúteis, que são reflexo dessa nossa sociedade-ocidental-individualista-consumista e que, portanto, o filme é um lixo. Espera, espera! Concordo que elas são fúteis, consumistas e tal (elas não são só isso, tá! Mas ok, concordo e vou calar meu lado fã). Mas desde quando filme tem que retratar as pessoas como elas devem ser?


Os personagens são o que são: não têm a tarefa de ser modelos de comportamento. Se eu rio com a futilidade das moças de Sex and The City, não significa que eu faça apologia dessa futilidade. E muito menos que eu ache que o mundo real deva ser assim. Mais uma vez, esse é o mundo delas.


Se vamos fazer análises sobre o nosso mundo a partir do filme, ótimo; se vamos usar as atitudes das moças para exemplificar nossas idéias, legal, mas não precisamos exigir que o mundo delas seja de outro jeito. Deixemos o mundo dos personagens em paz! Aliás, é muito divertido ler e ver coisas com personagens “erradinhos”.


Tábata Romero Garcia

twitter: @tabataaa

email: tabataaa@gmail.com

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Balançando no bar


Veja só o bar que encontrei em Play del Carmem.

O negócio aqui é beber e balançar. Será que dá certo?

O que vc acha?

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Intimidade

Era uma vez um lindo casal de namorados. Vizinhos por coincidência, eles aproveitavam ao máximo a proximidade e se amavam sem parar. Com dois meses de história, seus amigos já começaram a reclamar a ausência dos dois em bebedeiras de sextas-feiras, jogatinas de sábado e comilanças de domingo. Mas não recebiam ouvidos e o casal se mantinha cada dia mais grudado. Viam os mesmos filmes, frequentavam os mesmo lugares, liam as mesmas revistas, não por nada, mas porque eles estavam sempre juntos, tornando todo esse resto inevitável. Os números de celulares já se confundiam,  os horários de ambos sempre coincidiam, e sempre que podiam faziam questão de dormir, acordar, tomar banho, escovar os dentes, comer, tudo na mesma hora e juntos.
Como de praxe, veio a segunda-feira de filmes e chocolates. Luz do quarto do rapaz apagada. Casal abraçadinho no colchão posto no chão, na quina entre parede e guarda-roupa, concentrados hora no enredo do filme, hora nos cabelos um do outro. Tudo se passava bem embora, dessa vez, os dois compartilhassem de uma gripe forte. Dores de cabeça, moleza no corpo, manha e outras mazelas.
Eis que ao fim de todos os filmes e chocolates, em meio a beijinhos, coseguinhas e gargalhadas, veio um inesperado momento de explosão. Que explosão seria essa, meu Deus?! Como isso pudera ocorrer?  
É bem verdade, leitores, que momentos de explosão ocorriam a todo momento. Explosões de todos os tamanhos, cores e formas. Ai, o amor... Simplesmente não cessavam, invadindo a alma, se enraizando no corpo. Deixando em torpor tais mentes apaixonadas. Mas essa explosão foi um pouco diferente, consequente de crises de riso, má alimentação e agonias intestinais. A explosão invadiu o quarto do rapaz gerando um constrangimento sem tamanho.
Como seria agora no próximo encontro? Como se olhariam nos olhos e jurariam amor eterno depois disso???
Na despedida, os 3 minutos de elevador foi preenchido com pesado silêncio e, durante a carona, o casal mantinha olhares furtivos. No beijo final faltou o “te vejo amanhã.” Os dois foram cada um para sua respectiva casa, maculados de incertezas sobre o futuro.


texto de Nathalia Queiroz e Alexandre Dantas

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Amor entre homens

O amigo estava em Buenos Aires. O amigo, não um amigo. É que, beirando os 30 e solteirão, ele via seu receio de "ficar para tio" crescer à medida em que crescia sua testa. Uma testa imperialista, que ia impiedosamente anexando territórios abandonados por fios de cabelo desertores, sob os anúncios apocalípticos de uma peste de nome Calvície. Como o amigo compartilhava da mesma situação e receio, pouco a pouco iam se tornando uma espécie de irmãos. Gradualmente, instalava-se uma relação que transcendia o rotulável.

Pois quando ele digitou em seu aparelho os 8 números do telefone do amigo, eram 5 horas e 16 minutos da madrugada de 1º de março. Foi atendido pela caixa postal. Sem motivo, decidiu apagar a mente e acender o coração, exatamente como se houvesse um interruptor para tal. E disse, sem pensar, para aquele receptor de mensagens robótico:

- Po, queria tanto falar contigo neste exato momento, e o máximo que consigo é falar com esta máquina... mas, pensando bem, tudo bem. Tendo estes segundos para ouvir minha própria voz, acho que acabo de descobrir: na verdade, só ia te dizer coisas banais, mesmo. Nada justificadamente importante a uma hora dessas. Aliás, que bom essa vontade de te dizer coisas cada vez mais banais. Quanto maior a banalidade, maior nossa proximidade.

E desligou o telefone. E percebeu que o amor pode ter mais versões do que aquela que aprendera com a novela, nos idos de seus 9 anos de idade.

domingo, 24 de outubro de 2010

CRIMES PERFEITOS NÃO DEIXAM SUSPEITOS

Já eram quase duas da tarde quando terminei minha entrevista de emprego.
Apesar do nervosismo natural que uma oportunidade dessa
causa, tinha confiança que havia me saído bem. O sol estava a pino e
meu estômago ansiava por comida. Na correria para não me atrasar fiz
um rápido desjejum com um copo de leite gelado.
No centro há uma variedade de restaurantes, em poucos metros encontramos
desde a requintada comida francesa até a saudável
cozinha oriental. Sem contar nas diversas lanchonetes
com seus “fast food’s” cada vez mais criativos.

No corre-corre, a multidão se aglomerava em busca de comida.
Mesmo nos tempos modernos, nos quais não precisamos caçar para comer
(pelo menos nas áreas urbanas), acredito que o homem ainda mantém sua
agressividade, ainda somos os mesmos predadores à procura do mais saboroso
alimento, dependendo é claro, do bolso de cada um.

O meu estava bem precário, devo admitir. Há algum tempo desempregado,
economizava o máximo que podia uma pequena reserva que mal pagava as contas básicas.
Pouco a pouco minha esperança por uma boa refeição diminuía.
O jeito era apelar para os
vendedores ambulantes, onde também havia muitas opções de “fast”
(ou “trash food” se atentarmos para tamanha falta de preocupação com
higiene de alguns vendedores).
Não sou um daqueles maníacos por limpeza, longe disso!
Mas com comida sou bastante exigente.

Após caminhar pouco mais de duas quadras, gastando alguns minutos
e a sola do meu sapato, enfim achei um lugar para comer.
Havia satisfação nas pessoas que comiam ali.
Que pelos dizeres da placa encostada no carro personalizado
de “Hotdog-móvel” degustavam um delicioso cachorro quente, que
podia ser com milho, bacon, ervilhas, prensado ou especial com direito
ainda a um copo de um refrescante suco de laranja ou limão.
Era o que meu estomago precisava, tudo que minha consciência
permitia e também tudo que meu dinheiro podia pagar.

O vendedor usava avental, touca no cabelo e pasmem até LUVAS!
Um verdadeiro “oásis no deserto” metropolitano!
Ele era um sujeito muito simpático, desses que atraem a
clientela com bom humor, brincava com seus clientes
enquanto preparava os lanches. Eu, tentando distrair a fome,
abri meu jornal à procura de alguma oportunidade de emprego que
pudesse ter deixado passar despercebida nos classificados.

Distraído na busca, só dei conta que minha vez havia chegado quando
fui interrompido pelo vendedor, perguntando como eu queria
o meu cachorro quente. Brinquei com ele dizendo que na minha
infância cachorro quente era: pão, salsicha, maionese, “catchup” e mostarda.
Mas com a fome que estava podia ser o especial.

- Cheio de sangue!

- O que disse? – perguntei a ele.

- A foto... A foto da capa! Está cheia de sangue...

- Ah sim! A manchete...

Ele se referia à foto de um homem que fora encontrado
morto na madrugada. E que em sua opinião seria provavelmente
“mais um crime sem solução”.
Discordei dizendo não acreditar em crimes perfeitos.
Ele riu mostrando que sua higiene com a comida não se estendia aos dentes.

-Há muitos crimes perfeitos, meu rapaz.
Tem gente muito criativa, com planos mirabolantes, esses jamais serão pegos –filosofou enquanto cortava meu pão.

Voltei à minha busca nos anúncios, mas ele novamente me interrompeu.

- Eu sei de um caso assim. Um crime em que o culpado jamais
foi descoberto, aliás, não houve ao menos crime perante as autoridades –disse ele enquanto passava a maionese.

Notando que não haveria sequer possibilidade de continuar minha leitura,
já que restara apenas eu para o vendedor tagarela papear,
dei o empurrãozinho que faltava para o homem me contar o causo.

- É mesmo?

- Sim! Sim! – disse ele empolgado, enquanto recheava meu “hot dog”
com milho e ervilhas. Sabe aqueles casais de quem todo mundo sente inveja?
Pois bem, conheci um casal assim. Ele amava aquela mulher mais que a si mesmo.
Fazia o que podia e não podia por ela.
Quando estavam juntos parecia
não haver nada ao redor dos dois. Todos dizem que ela era uma
mulher de sorte por ter encontrado um homem tão amável.

Mas talvez ela não pensasse assim, ou pelo menos naquela
altura do relacionamento o amor já não era tão intenso.
Digo isso por parte dela, pois nele dava para notar facilmente a
embriaguez da paixão. Todo o dia antes de voltar para casa,
ele comprava as mais belas flores e a presenteava com um lindo buquê.

Ela o recebia sempre com uma de suas camisolas de seda,
a qual caía muito bem em seu corpo levemente torneado.
E assim o romance foi levado até uma típica tarde de verão.
Sua mercadoria naquele dia foi toda vendida, ele estava contente,
com o bolso cheio de dinheiro e resolveu lhe fazer uma surpresa.
Mal sabia que naquele trágico dia a surpresa estava reservada para ele.

Antes de retornar para casa passou numa joalheria, onde sua amada
namorava há meses um lindo anel de prata recheado com
pequenas pedras ametistas. Ele, em segredo, guardou todos os dias
uma parte dos seus ganhos, conquistados com muito trabalho.
Fez isso durante semanas, e finalmente podia presenteá-la.
Pagou a jóia à vista. E pediu para a vendedora
o porta-anel mais bonito que houvesse na loja.

Era um lindo presente, não mais belo que os olhos de sua amada.
Não via a hora de lhe colocar a jóia no dedo, e ver seus olhos
reluzirem o brilho prateado do anel.
Ao chegar em casa, abriu a porta com cuidado
para surpreende-la, estava tudo silencioso. Tirou os sapatos e foi até a suíte.
No corredor pode ouvir o chuveiro, ela estava no
banho preparando-se para ele, pensou.
Abriu a porta do quarto devagar e se deparou com a cama desarrumada,
lá pôde ouvir melhor o som da água caindo no piso,
misturado com pequenas risadas e gemidos. No chão, espalhadas
pelo carpete azul, as roupas que para sua surpresa e desgraça
não eram apenas de sua mulher.

Suas mãos trêmulas eram quase impossíveis de coordenar,
mas o seu ódio o conduzia. A porta do banheiro estava apenas
encostada e ele com um toque sutil abriu apenas o suficiente para ver com seus
próprios olhos, através do box de vidro transparente, sua mulher, de joelhos.
A razão da sua vida, usando todo prazer que sua carícia oral oferecia
em outro homem.

A vontade do homem traído era arrebentar os dois naquele momento.
Mas não o fez.

- Não o fez? – perguntei nessa altura já com a boca cheia de pão e salsicha.

- Não! Ele se conteve, jogou o anel no chão, saiu do quarto
com a mesma discrição que entrou e foi até o quartinho de ferramentas.
Ao abrir, imaginou o estrago que cada uma daquelas ferramentas
poderia produzir nos amantes. E preferiu o machado.
Sua escolha não poderia ter sido melhor, pois afiado como estava,
depois de cortar lenhas durante todo o inverno, seria como cortar manteiga
com faca quente.
Os gemidos e gritos de prazer invadiam todo o corredor, eles se amavam mais
e mais sem ao menos imaginar o terrível destino que os esperava.

Ele voltou ao quarto com o machado em punho, nessa hora sem a preocupação
de ser notado. Abriu a porta do banheiro, e se aproximou do box.
Sua companheira e o amante nessa altura nem
poderia nota-lo devido à posição em que se encontravam.

Com toda sua força, o homem traído desferiu um golpe contra o box,
o som do vidro estilhaçado pelo machado envolto
ao grito de dor do amante,
que sofrera com toda a carga da lamina do machado em suas costas,
transformou o ambiente.

Ele sentiu prazer ao ver sua mulher desesperada partir em cima dele,
e com um soco violento em seu rosto atirou-a no chão.
O amante, caído, tentava se arrastar, cortando sua pele nos estilhaços.
Em vão. O algoz se aproximou e prensando as costas da vitima contra o piso,
retirou o machado com fúria maior que a usada
para cravar-lhe anteriormente. Então com o poder de um carrasco encostou
a lamina manchada pelo sangue no pescoço do desventurado.
Ele queria que o sujeito sentisse todo o pavor, queria que o sussurro da morte
iminente lhe soprasse os ouvidos naquele instante para então desferir o golpe fatal.
A cabeça, arrancada do corpo parecia banhar-se no sangue.

Então voltou sua atenção para ela, o amor da sua vida, que tentava se levantar.
Estava branca como leite, com o lado esquerdo da face inchado pelo
golpe que sofrera. E mesmo assim ainda era atraente, sua beleza hipnotizava
o pobre homem, e ela sabia disso. Suplicando para que ele poupasse sua vida,
ficou de joelhos.
Ele não conseguia odiá-la, por mais que quisesse, e como queria...
Mas não conseguia. Aproximou-se chorando e deu lhe um beijo suave na testa.
Mas fora traído novamente. E sentiu a sua fronte ser cortada por um
pedaço pontiagudo de vidro que ela sorrateiramente apanhou do chão.

Ele caiu e ela na tentativa da fuga escorregou no piso molhado de água e sangue.
Então ele a pegou novamente, mas dessa vez sem piedade alguma
socou sua cabeça no chão, uma, duas, dez vezes, quanto mais batia,
mais queria bater, e assim o fez. Até que o barulho das batidas foi
ficando cada vezmais abafado pela massa encefálica que recheava o piso,
os longos fios louros da amada e seus dedos.
Então ele sentou-se embaixo do chuveiro e ali permaneceu por horas.

Quando voltou a si, sentiu-se bem por tudo aquilo, tinha lavado sua honra e
precisava limpar tudo aquilo. Pensou por um tempo numa maneira de
ocultar todo aquele lixo, aqueles dois imensos pedaços de escória
que sujavam seu banheiro.

E arrumou uma maneira, digamos... Criativa! Um plano perfeito para que
nunca fosse descoberto. E assim o fez. Até hoje ela e o amante, um vendedor
de livros, são dados como desaparecidos. E o homem pode assim ter
novamente sua vida, com dignidade e honra. Um crime perfeito viu só?

- É isso? E a polícia? Nada descobriu? – perguntei

- Nada! Bom, meu rapaz, vejo que terminou seu lanche, e já está
na minha hora – respondeu-me o vendedor tirando suas luvas e o avental.

- Mas o que ele fez com os corpos?

- Desfez-se deles. Ora, use sua imaginação...

- Não, espera! Se fosse um crime perfeito você não saberia.
Ao menos que...

Foi então que notei, ao vê-lo sem touca,
uma enorme cicatriz em sua face.
Isso me gelou a espinha, e me paralisou de tal forma que
não consegui dizer mais nada. O homem terminou de guardar
suas coisas, entrou no carro e partiu.

Pasmo com tudo aquilo, senti um pequeno incomodo, como se houvesse
chupado uma manga e um fiapo tivesse preso entre os dentes, cutuquei
com o dedo e retirei um pequeno fio de cabelo louro. E aquilo me trouxe
a última coisa que o vendedor me disse quando o questionei sobre os corpos...

“Use sua imaginação...”


Conto de Fernando Ferric - Col. Impossível

sábado, 23 de outubro de 2010

Every little thing she does is magic

Eu não sei cozinhar,
Eu não sei dizer o que sinto,
Eu durmo mais do que o necessário,
Eu faço tempestade em copo d´agua,
Eu morro de medo de barata,
Eu lavo roupa suja sem olhar o bolso,
Eu choro demais,
Mas não estou mais sozinha.
Tenho alguém pra quem voltar no fim do dia.
E que por mais que eu faça tudo errado sempre
Ele acha que tudo que eu faço é mágica.