sábado, 27 de outubro de 2012

Infância & idealização

A infância, desde Rousseau, é idealizada. Consideramos como aquela fase em que fomos inocentes, puros e felizes. Nessa perspectiva idílica, a criança não tem problemas ou obrigações e a sua vida se resume a brincadeiras e fantasias. E nós adultos, ressentidos de deixar de ser o que fomos, repetimos de todas as maneiras possíveis o poema de Casimiro de Abreu: "Oh, que saudades que tenho / Da aurora da minha vida / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais...".

Essa maneira romântica de olhar para o que fomos é, digamos, fofinha. Porém, para sermos honestos, é também muito simplista. A infância é uma fase de muita insegurança para boa parte dos pequenos. Não entendemos o mundo dos adultos, temos de conviver com as perversidades dos colegas e aprender a conviver com os nossos medos: de castigos, de escuro e de extraterrestres. No meu caso, especialmente destes últimos. 

Não me entendam mal. Não tive uma infância terrível, não diria isso apesar de todas as minhas crises com as regras sociais. Meus primeiros anos de vida tinham uns cheiros e sabores inesquecíveis. Eu vivia no campo e o relógio andava muito lentamente. Admito que sinto falta de algumas facilidades daquela época, em especial, da comida na mesa e do sono preguiçoso depois do almoço. Mas não voltaria a ser pequena não, podem acreditar.

Agora na adultez olho para a infância como essa fase contraditória e difícil. Gosto demais de crianças e do seu potencial criativo. Ao mesmo tempo, tenho profunda pena delas. As regras e a insegurança atormentam demais as cabecinhas. Vejam bem: elas não são para mim "bons selvagens", como para Rousseau, pois acho até que são bem perversas. No entanto, sou complacente com os pequenos. 

Tanto é que desenvolvi um método - em certa medida rousseauniano - para aturar certos adultos: olho para o sujeito - por mais chato e abominável que seja - e o imagino criança. Pronto, consigo humanizá-lo novamente! Essa estratégia tem funcionado para desafetos do dia a dia ou mesmo para figuras públicas. Em alguns casos é extremamente difícil, mas não impossível. Nesse período de eleição, por exemplo, tenho imaginado o Pliniozinho, o Zezinho Serra e a Soninha, todos muito fofinhos e corados.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Das memórias da infância


Num dia raro, meu irmão me disse: “Um dia, será assim: eu arrastanto os pés; você segurando as paredes. Tavarim e Tia Elita. Ou vó Adauta. Ou tio Delbrando e tia Mariah”. Fui longe com esse dizer. Eu tinha 11 anos e uma única imagem de amor: a do pai. Talvez duas: a da madrinha. Todo o resto eu sentia como uma nebulosa – até minha família mudar de cidade e eu estreitar os laços com meus avós e meus tios-avós paternos. Naquela época, a menina triste e alegre que eu era finalmente encontrou um lugar no mundo, o que é o mesmo que dizer que encontrei pessoas para amar. A família do meu pai sempre foi silenciosa. Entretanto um silêncio que acolhe. E tenho a impressão de que toda minha noção de família está contida nesses silêncios e naqueles poucos anos de convivência diária com eles, quando tive que partir aos 15 anos à minha revelia e à revelia de todos eles. Desde o princípio, um acolhimento mútuo: eles aprenderam a gostar de criança; eu aprendi a gostar de velhos. Velhos, sim, que, naquela época, ainda podíamos usar as palavras. Idosos seriam uma ofensa. Para mim, eles já haviam nascido velhos. Uma vez, espantei-me quando ouvi dizerem que minha avó havia sido enérgica e brava. Eu só conheci a delicadeza, os pés arrastando, as mãos amassando os farelos de pão, antes de levá-los à boca, sentada naquele velho fogão de lenha onde ela comeu até morrer.O único instante de morte que presenciei até hoje. Um longo minuto triste,  logo depois daquela correria que passou pelo átrio da igreja.

Com minha voz estridente, eu corrompia os seus silêncios, até mesmo o de tio Manuel, um dos mais silenciosos, que às vezes vinha do sítio com balas no bolso. Nunca esqueci a última vez que o vi já despedida; ele montado em sua bicicleta, e eu, ao lado, em um equilíbrio precário. Nos abraçamos num soluço conjunto e ele disse: “Agora vá. E não esqueça este velho”. Talvez seja por isso que, apesar de estar sempre indo desde aquela época, eu nunca esqueço. E havia tia Expedita, casada com tio Sebastião, um dos homens mais delicados que já conheci. Ela tinha os pés tortos e pequenos e era engraçado vê-la equilibrando-se como que por magia. Era uma das mais falantes. Eu a ouvia contando suas histórias sempre com aquele pente na mão até deixá-lo na cabeça num equilíbrio também misterioso. Ela nunca foi capaz de me ver  como a magrela que eu fui na adolescência. É que guardava nela meu corpo de bebê: tão gorda a ponto de me dar o apelido de um bicho nada bonito. Na última vez que a vi, ela já não se levantava da rede, mas continuava a fazer a pergunta que me presenteava a cada vez que eu voltava: “É Pebinha, é?” Os nomes e seus múltiplos. Para eles, nunca fui Milena. Tia Mariah me anunciava com a memória voltada para longe: “Ah, Delbrando, é Cláudia”. E ele respondia: “É mesmo, é Claudinha”. E da casa de tio Delbrando e tia Mariah, nunca saí sem algum trocado no bolso. Por mais que explicasse que não precisava mais, eles não entendiam. Se nunca deixei de estudar, então nunca deixei de precisar de dinheiro; é a lógica do cuidado que não ousava ferir quando já adulta e professora universitária.

De todos, a mais próxima sempre foi tia Elita. Conversávamos horas a fio, sentadas em uma calçada alta que havia no fundo da casa e de onde eu via o pé de goiabeira do vizinho. E ela sempre respondia: “Eh, Cláudia, é você que tem que saber”. O que eu tinha que saber naquela idade já não lembro. Agarro nossos gestos estranhos que ainda nos mantém próximas, apesar da longa distância: ela com o lençol na cabeça; e eu, com ele na boca. As senhas com que ela me anunciava: “Lá vem bode velho arrastando os pés, igual à avó”. Depois, cuidávamos da casa dos meus avós onde ela sempre morou; uma casa estreita cheia de portas que ainda está lá, mas não mais pertence à família. Jogávamos baldes e mais baldes de água que escorriam pelo longo corredor e desciam como cascata para a cozinha de piso inferior. Eu ainda esfregava com esponja um a um os fitilhos de plástico das cadeiras para tirar a sujeira das moscas. Em troca, ganhava amor, gorjetas e um prato de comida vez ou outra. Em suas casas, eu podia assaltar os potes de bolacha. Por isso, bolachas salgadas são minha madeileine. Elas trazem até a mim esses senhores e senhoras que me ensinaram e me ajudaram em um tanto de coisas. E assim como eu pensava que já nasceram velhos, ainda hoje costumo pensar que todos ainda estão lá e que a qualquer hora eu terei novamente 11 anos. 
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(Hoje é meu aniversário. Há 27 anos daquela idade. E mais uma vez, estou longe de casa. No mundo. Quando chegar lá, coloco uma foto da infância).
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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Vida de menino é maluquinha.


Nunca tive Lego - na minha cabeça, o ápice dos brinquedos infantis. Sempre que ia na casa de alguns amigos dos meus pais que tinham criança, ia no quarto dos brinquedos para ver se achava essa maravilha do universo lúdico. Até pisar sem querer naquelas pecinhas - ai, que dor! - não me desmotivavam. Vejo esses resquícios desejosos da infância até hoje. Eu, com 23 anos. Minha mãe me perguntou o que eu queria de aniversário - em setembro agora, quase ontem - e eu, sem pensar demais, falei: Imagem & Ação.

Desconstruindo o lado menina que morre, bom mesmo é voltar a ser. Não deixar que a vida endureça mais que o necessário. Sempre me deparo com esse botão inexplicável, que transporta, faz ser criança de novo. Mesmo que mediado por jogos - desses que são bons, e não os joguinhos sociais do dia-a-dia. Jogando os ruins, quando se percebe, lá se foi uma vida.

Vendo fotos antigas, me transporto. E parece que está tão perto. A água gelada da piscininha, saída da mina lá na roça. Os furinhos colados com o retalho do plástico azul, para mais um dia de diversão e refresco. Aquele cheiro de terra, de mato, de água, de xixi escondido que a gente faz disfarçadamente - mas que mãe sabe que tem: - Não bebe a água, menino! Teu primo fez xixi aí.

De repente, me pergunto: são lembranças inventadas? Até que ponto essa fase está tatuada em nossos sentidos? Não sei.
 
Esse é o momento em que acordo de manhã e a máquina de fazer torradas está ligada, e o cheiro de suco de limão está convidando ao café - sem café. A briga pelo copinho colorido mais legal. O tio fazendo ovo mole no copo para os primos. A vó dormindo de mão dada comigo - ou então aquela borboleta gigante dos meus sonhos que me levava até a casa dela.

Ser infância e ser a minha, é tudo isso.



Ps. Inicialmente, essa era a minha idéia de post. Depois de ler o dia 12, da Iara, resolvi lembrar direito, ou pelo menos com um pouco mais de realidade. A infância, como todas as fases da vida, é repleta de ambiguidades. Embora para a escrita desse mês, em homenagem ao dia das crianças, só me viesse à mente a parte boa, feliz e serelepe, é claro que tiveram momentos bem ruins - o que hoje as pessoas chamam de "bullying" - "numa terra de morenos ser ruivo era uma revolta involuntária", e gorda então, nem se fala. García Marquez tem uma frase de um livro que diz mais ou menos assim: que só sobrevivemos porque a memória diminui as más lembranças e enaltece as boas. E, para ser sincera, que bom que é assim., já que ressentir é sentir de novo - e pra bom sofredor, um sofrimento inteiro basta.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Do começo

Dezembro ficou famoso pelo Natal. Mais do que pela virada do ano, o Natal. Maio é o mês das noivas. Agosto é o mês do cachorro louco, seja lá qual for o motivo. E em novembro é o meu aniversário, mas outubro é o mês das crianças. Reza a lenda que isso foi ideia das lojas ou marcas de brinquedos aqui do Brasil. Se bem que o dia 12 de outubro - dia das crianças - também é dia de Nossa Senhora Aparecida. E, bom, ela teve um filho famoso, não teve?

(Vi agora que 12 de outubro também é a data do descobrimento da América. De 1492. Mas vou ser muito honesto: não lembrava disso. Sério.)

Mas enfim. Outubro é o mês das crianças. E eu imagino que vocês já devam ter percebido que nós aqui do Blog das 30 Pessoas estamos fazendo posts temáticos. Então vou contar pouco sobre mim mesmo, naquela tenra idade. 

Eu felizmente escapei d'A Conversa que os pais têm com os filhos. Aquela. Eu infelizmente fui vítima da minha curiosidade. Desde muito novo eu gostava de ler. Pode ter a ver com a razão de sempre ter tido livros ao meu redor. (Meus pais me deram um O Pequeno Príncipe quando eu tinha cerca de oito anos. Claro que "deram" pode ser um exagero. Estava mais para "deixaram perto de mim tempo suficiente para eu desenhar vários He-man nele". Mas estou divagando.) Acho que já tinha nove anos quando encontrei um livro largado na sala de casa. Lembro bem que era uma manhã de sábado porque todos ainda estavam dormindo. E havia um livro. Óbvio que eu não sabia daquilo à primeira vista, mas era um livro de sexologia. Mais óbvio ainda foi que eu abri o livro. E o que li...bom, me atormentou como nada tinha conseguido até então. Aquilo trouxe respostas para perguntas que eu não tinha pensado em fazer ainda, mas que foram surgindo ao longo da leitura. Vamos apenas dizer que não olhei pro rosto de ninguém durante o café da manhã. Minha mãe ficou achando que eu estava doente, porque não estava comendo direito. Tinha ficado sabendo de umas coisas bem indigestas bem pouco tempo antes. E estava tendo dificuldade em digerir tudo aquilo.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

The Wonder Years

Em 1993 eu estava na oitava série do primeiro grau comprando com dinheiro uma ficha telefônica para lembrar minha mãe de rebobinar a fita antes de devolver na locadora com quase 14 anos quando fui apresentada ao meu primeiro seriado americano. Chamava-se “Anos Incríveis” e passava na TV Cultura, diariamente às 20:00 (bem no horário do jornal nacional).


Naquela época não tinha Torrent e só tínhamos uma TV na sala. Meu pai dizia que não gostava de TV no quarto porque que isso separaria a família. Até hoje não sei se só tínhamos uma TV por falta de dinheiro ou por princípios mesmo. Prefiro acreditar na segunda opção. (Ele estava muito certo quanto à isso, e em várias outras coisas, mas só fui descobrir muito tempo depois). 

Era uma época em que respeitávamos nossos pais e toda noite eu assistia o Cid Moreira e sua voz de Bíblia e sonhava com a família do Kevin. No intervalo ou num xixi rápido do meu pai eu trocava o canal, mas era uma aventura conseguir assistir. De qualquer forma, no dia seguinte ficava sabendo tudo que havia acontecido com o Kevin Arnold pelas amigas da escola (hoje em dia seria como acompanhar pelo twitter, mas não em tempo real).

Odiávamos a vaca da Winnie Cooper e sonhávamos em conhecer um cara como o Kevin. Sonhávamos com alguém com sentimentos. Um menino de verdade.

Faz pouco tempo que baixei consegui todas as temporadas e a sensação de assistir chorando o Kevin crescendo foi quase tão boa quanto a sensação de encontrar o meu Kevin e de saber que me casarei com ele no próximo dia 10. 

Pois é, esse é meu último post solteira e recomendo à todos vocês que precisam restaurar a fé na humanidade (e quem não precisa?) um pouco de Kevin Arnold... 






segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Infância bivitelina


Hoje eu sou o Felipe e ela é a Mariana, mas naquele tempo éramos simplesmente os "geminhos da Dona Sônia"...

Fazíamos tudo juntos: dormíamos na mesma beliche (ela em cima, já que eu tinha fama de incontinente urinário), estudávamos na mesma escola e comíamos na mesma mesa. Mas toda essa aparente harmonia era quebrada de tempos em tempos quando os conflitos de interesse entravam em jogo. Mas, como em toda relação que se quer sustentável, alguém sempre tinha que ceder. E invariavelmente era eu quem cedia.

- Brinca de Cara a Cara comigo? - dizia eu (reparem que era simplesmente um inocente jogo de tabuleiro unissex).
- Hummm... depois... só se você for brincar de pai da Camila primeiro... (Camila era uma de suas bonecas, supostamente minha filha).
- Ah, tá bom... mas não vai esquecer, tá?
- Tá!

E lá vai o Felipe ser pai da Camila, trocar a fralda da Ana Paula e levar a Mônica pra escola (de Velotrol, é claro) sempre na esperança de ter ao final de tudo aquilo uma tão sonhada partidinha de Cara a Cara. Quer saber? Até "jogo da velha" servia... dominó, Mico, Banco Imobiliário, Cai não Cai (como eu adorava um jogo de tabuleiro!). Bom, o fato é que "nossas filhas" iam dormir e a brincadeira acabava...

- Vou pegar o Cara a Cara, tá? Você quer ficar com o azul ou o vermelho?
- Ah, Fê... vamos deixar pra amanhã... eu já tô morrendo de sono (aqui sempre vinha um bocejo digno de Óscar)...
- Ahh... mas só uma partidinha, vai?
- "Num quero"... amanhã a gente joga...
- Ah, tá bom... mas nada de me enrolar, tá?
- Tá.

E o amanhã chegava e quase sempre ela me enrolava de novo. A minha redenção só acontecia quando aparecia um bondoso vizinho, a abençoada namorada do meu irmão mais velho ou um providencial primo distante. Todos eles, almas bondosas, que jogavam Cara a Cara comigo!

Com o tempo eu fui aprendendo a ceder menos e a brigar pelo meu direito de jogar Cara a Cara antes e ser pai depois. No final, quase sempre a gente se entendia...

O fato é que, apesar de nossos conflitos de interesse, minha infância bivitelina foi muito feliz. No fim das contas eu achava até divertido levar a Mônica na garupa do meu Velotrol laranja (o dela era era amarelo e azul) e estou certo que ela também não achava tão ruim assim jogar comigo (ainda que eu sempre ganhasse). 

O tempo passou e hoje somos adultos (há quem duvide disso) e nos entendemos bem melhor. Observamos nossos sobrinhos brincando e brigando por coisas muito parecidas pelas quais brigávamos. Já não dormimos na mesma beliche, tampouco estudamos na mesma escola e raramente comemos na mesma mesa, mas uma coisa muito forte ainda nos une: por mais que eu seja o Felipe e ela  a Mariana,  nunca deixaremos de ser também "os geminhos da Dona Sônia"...




PS.: E às vezes até rola uma partidinha de Cara a Cara...




domingo, 21 de outubro de 2012

Sobre o tempo que se foi, e que não volta nunca mais...

Pois é!
Tava aqui pensando com os meus botões, dias atrás, sobre o tempo do qual dispúnhamos na época em que éramos felizes e não sabíamos.

Tempo esse que é cada vez mais raro nos dias de hoje. Impressionante como isso colabora com a chatice nossa de cada dia, não?! Mas isso é assunto de daqui à pouco! 

Por ora, falemos da saudade dos brinquedos, dos amiguinhos da escola e algo mais!

Lembro que acordava todos os dias lá pelas 07:30, 08:00 da manhã (vai entender as crianças, né?) e ia direto para o portão de minha casa! 


Meu vizinho, o Duda, tinha um caminhãozão do Playmobill muito loko memo! 
Na verdade era um caminhão de bombeiros!
Eu tinha um fusquinha da puliça, pretinho, bonitinho, que ganhei não lembro de quem, vindo direto de Pariscida do Norte! Mas era meu xodó! 

Além dele, tinha também um chevete verdinho! Tudo de plástico! 
Àquela época, a internet engatinhava! Celular nem pensava em existir (e se pensava, obviamente eu não sabia disso) e as redes sociais eram compostas por pessoas de verdade, em círculos de amizade que incluíam o real aperto de mão, e não somente curtidas ou cutuques!

Como as coisas mudam...

Lembro que em 1.988, então na segunda série, minha turma foi transferida para o salão da igreja Menino Jesus (ainda não era Paróquia), porque na escola, não havia mais sala disponível, pelo número de crianças que estudariam na mesma sala. Meu bairro tinha apenas uma escola naquela época.

Lembro também que o primeiro registro de morte vem desse ano.
Nossa professora de educação física, Isabel, tão novinha, perdeu a vida num acidente de moto. 
A professora de Português chegou com os olhos marejados numa manhã gelada, e deu-nos a notícia.
Coisa estranha essa tal de morte...

Mas a vida seguiu. E chegamos aqui!

A parte do tempo que nos deixa chatos, começa agora!

Penso que as responsabilidades muitas vezes deixam as pessoas mais duras, sei lá!
Claro que a vida ensina a desconfiarmos até mesmo de nossa própria sombra! A medida que crescemos, perigos que não enfrentávamos na infância, vão surgindo também!

Olhando algumas fotos com carinhas felizes aqui no meu computador, antes de começar a redigir esse texto, enquanto procurava uma foto minha quando criança (aquela lá no alto, no início do post), pensava comigo "nossa! Que saudade desse sorriso que desapareceu..."

Tá certo! As coisas mudam, eu sei! A gente muda! Faz parte do processo!

Mas sempre gosto de dizer que somos crianças que crescemos! Acho que já escrevi isso num post aqui (ou teria sido no meu blog?). Não deveríamos perder a capacidade de sonhar e amar como criança!

Mas numa cabeça de adulto, isso parece uma utopia...

Tempo! Que falta ele faz!
Vamos nos transformando em robôs.
Na escola, ensinam o valor da amizade, do companheirismo e por aí vai.
Daí você cresce, a competitividade aumenta, começa a trabalhar, e os que lhe são caros, você vê sim!
Mas quase sempre nos finais de semana, porque no meio da mesma, você só tem tempo de ser o adulto no qual se tornou...

Ok. Sei que a vida é assim mesmo. Mas falar de infância causa isso em mim.
Agora mesmo, enquanto escrevo essa linha, entra pela janela um cheiro de gasolina queimada, proveniente do escapamento de algum caminhão, que me faz lembrar minha infância também.
A infância tem cheiro! Quando nas tardes de outono a lua começa a surgir no céu, os pássaros noturnos começam a piar, e a brisa traz o odor dos brejos que ainda existem em algum lugar longínquo...

Que saudade desse tempo que se foi... E que não volta nunca mais...

Agora deixa eu ir lá, ser adulto!
Mas sempre valorizando a criança que ainda existe em mim.
Isso não pode se perder! Não quero que isso se vá. Nunca.
Sou apenas um menino que cresceu!

E se algum amiguinho meu, da época da escola passar os olhos por esse post, agradeço por fazer parte dessa minha história! 

"Você já se sentiu tão perdido? Conhecia o caminho, e mesmo assim se perdeu...?"

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

... feliz!

Cresceu em meio à violência domiciliar. Seu pai era a personificação da agressividade. Sua mãe sempre lhe proveu todo o carinho que lhe faltou do pai. Gostava de brincar na rua todos os dias, e de subir em árvores. Uma maneira de se manter mais longe da realidade. Quis ser escoteiro e adorava, mas foi proibido pela mãe por ter uma saúde frágil demais pros acampamentos. Estudou, se formou, namorou sério, conseguiu emprego descente e cargo de respeito na empresa. Quando se tornou tudo que aquilo que a família sempre quis que ele fosse, largou o emprego, se mudou de cidade e foi ser tudo aquilo que ele sempre quis ser de verdade. O homem que seu pai nunca foi...

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Não mudou muita coisa

No iníco éramos eu e a bola. No quintal, no recreio, na rua e na cama. Debaixo do braço era prenúncio de dias difíceis. A apocalíptica época de pipa! Sem trombeta nem apito, só a certeza de que o mundo acabara, pelo menos naqueles dois meses. Que desgraça. Partia pro aprimoramento individual, chute forte no muro dominando no peito o rebote, drible na cachorra e rolinho no vazio. Escurecendo ia pra calçada da dona Olinda, corpo no chão, nuca na bola e carretéis enrolados deitávamos. Olhava pro rio, falava do Palmeiras, da seleção, do shorts da vizinha, e se decidia com quem ia ficar a fita pornô aquela semana.

No início éramos eu e a bola.


Preocupado, ás vezes me percebo com a mão na cintura, fumando um cigarro. E sinto sua falta.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Madrugadas de Spielberg

Desafiar a madrugada e desacatar o sono eram as grandes provações da minha infância. A diferença de idade entre mim e meu irmão é de cinco anos, já de diferenças ideológicas somavam-se aí mais de um século, com direito a ataques em público, chantagens, denúncias anônimas, ofensas, retaliações, tapas e beliscões.
De modo que não fomos grandes companheiros em todas as horas de pequenez. Mas foi no grande desafio de que tratei antes que eu e meu irmão nos tornamos cúmplices. Não lembro como fugíamos do rigor paterno, podiam ser férias, talvez, mas me recordo da sensação de estar acesa, tomada de um sem fim desejo de liberdade e até perigo. A madrugada é a pequena morte, é o não estar, é o breu, o fugidio. Tarefa hercúlea estar acordada depois da meia noite, enquanto até os móveis dormem, lutando contra o peso das pálpebras e o medo do ranger (sempre alguma coisa range na madrugada).
Vem desse tempo o desejo de ficar acordada até 5 da manhã, quando então todas as estrelas do céu se juntavam para formar um cavaleiro montado numa cobra que circundava o infinito. A história veio de um primo, em uma conversa de sussurros em que ele, eu e outros primos dividíamos as experiências de fugir da obrigação de nos deitar para degustar os prazeres noturnos. Por muito tempo tentei provocar a insônia até o último minuto para ver o cavaleiro, mesmo morrendo de medo da cobra. Dormia sempre.
Uma coisa, porém, me deixava acordada. Uma série de pequenas histórias passadas na televisão de madrugada, histórias fantásticas. Virei notívaga para acompanhar as historietas, algumas de terror, algumas apenas fantasiosas. A que mais me marcou foi a de um casal que se apaixona através da compra de bonecos de porcelana. Um enredo aparentemente ingênuo, mas que encantou uma criança. Tempos mais tarde, já adolescente, falei por alto dessas lembranças e espantei-me que meu irmão também se lembrava. Era do Steven Spielberg, ele me disse. Nada mais óbvio. O Spielberg é todo madrugada e deve ter bem inventado essa história do cavaleiro montado na cobra.
Procurei a série por um tempo, com todas as possíveis combinações de palavras-chave, mas desisti. Rodolfo me enviou esses dias por mensagem o link de uma das histórias que ele lembrava, com a empolgação de quem encontra um tesouro perdido. Pelo título do vídeo localizei o nome da série e fiz download para o computador. Rever a história dos bonecos foi como reencontrar a menina que queria profanar a madrugada. Inocentes histórias, inocentes efeitos, capítulo vivo da minha memória. Capaz de me fazer provocar um duelo com Morfeu.

Mal sabe Spielberg como me marcou.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Nada mais que a verdade

Como um tirador de jogo de bicho que ficava num canto de um boteco poderia imaginar que seria o meu grande incentivador a leitura?

Praticamente passei a minha infância em um boteco, as primeiras palavras que escrevi foram nos papéis que embalavam os cigarros.Os meus pais eram donos do Nova Coimbra, que o meu pai comprara com o dinheiro adquirido com o plano de devolução voluntária da Volkswagen. Entre um freguês e outro, dores de corno, choro de bêbado, eis que meus pais sublocavam o canto esquerdo do bar para o jogo do bicho. 

O Japonês, era o responsável por tirar o jogo, pacientemente nipônico, chamava atenção pelo jeito de fumar, sem tragar, e pela marmita sempre muito cheirosa. Esse cara tinha classe no momento de ser preso. Elegantemente silencioso, aliás, não me lembro dele ter falado em algum momento. Ele sempre trazia consigo os jornais Diário Popular e Notícias Populares. Como toda criança curiosa, eu me afeiçoei ao NP. Para quem não sabia ler ainda as fotos sem concessões tinha o efeito chamariz do proibido, ainda mais que ele ficava escondidinho, no recheio do jornal da família Quércia. 

Conforme o meu processo de aprendizagem avançava eu entendia que a graça estava nos textos. Curtos, cheios de duplo sentidos, carregado com a linguagem falada nas ruas, como a impagável coluna do Voltaire, com as primeiras análises musicais me ajudaram a formar o meu atual gosto musical, com suas excelentes séries como Crimes do Século, a biografia nada autorizada do Rei Roberto Carlos, a coluna sobre Sexo. Os dias que o Japonês faltava ao trabalho, geralmente devido a problemas policiais, eu sentia falta da leitura do jornal.

As fotos da gata do NP, dos bailes de carnaval que na minha adolescência foram muito importante para o meu auto conhecimento, ficarão para outro post...

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Parlenda Gastronômica



- ... e aí, filha, você mexe com a colher fazendo um desenho de '8' no fundo da panela, espera até que o terceiro grão pule, fecha a tampa e diminui o fogo. 

- Tá.

- Mas presta atenção que agora vem a parte mais importante: para todos os grãos estourarem e não ficar nenhum piruá, você precisa cantar, enquanto bate com a colher na tampa: 'Estoura, pipoca, Maria sororoca'. Vamos lá, repita junto comigo...

- Estoura pipoca, Maria sororoca. Estoura pipoca...



Foi assim que meu pai me ensinou a estourar pipoca, quando eu era ainda bem criança. 

Confesso que levei um bom tempo para descobrir que cantar para a Maria era apenas folclore. E mesmo ciente, não consigo evitar de ainda cantarolar mentalmente a musiquinha a cada vez que eu ouço os grãos do milho arrebentando. Não custa nada, né?

sábado, 13 de outubro de 2012

Anos incríveis


Na casa da minha avó tinha um monte de flores chamadas capitães. Todas eram muito coloridas e nelas os insetos, como grilos e borboletas, adoravam pousar.
Uma das minhas brincadeiras prediletas era passar a tarde correndo atrás dos insetos com um pote de vidro e capturá-los para colecionar.
Um dia a mulher que trabalhava em casa me ensinou que eu podia amarrar um cordão nas borboletas e carregá-las para onde eu quisesse, como um “inseto de estimação”.
E assim o fiz.
Apesar de a brincadeira ser maldosa, ela era uma ótima pessoa.
A empregada anterior que trabalhava em casa não tinha muita paciência com crianças e a tarde ela gostava de convidar eu e minha irmã para brincar de “dormir”. A gente dormia nas cadeiras embaixo da mesa (vocês podem imaginar o quão “divertido” era) e às vezes eu era “convidado” a dormir na rede. Como dificilmente o sono vinha, a saída era deitar de cara para baixo e ficar olhando as horas passarem pelas frestas da trama do tecido.
Isso tudo aconteceu numa pequena cidade do interior de São Paulo.
Nessa pequena cidade eu tive a possibilidade de vivenciar aquela infância que os saudosistas adoram encher a boca para falar que tiveram. Sou um deles.
Com uma população estimada em pouco mais de 7 mil habitantes eu e meus amigos tínhamos espaço suficiente para brincar na rua. E como brincávamos.
Era esconde-esconde, mamãe da rua, salva, stop, queimada, fazíamos lojas com os brinquedos, laboratório para extrair o colorido das plantas (chamávamos de brincar de líquido)  e tudo mais que a imaginação e a liberdade permitia.
Ao lado de casa morava a Dona conceição, que fazia um prato de feijão de corda com farinha de mandioca que era delicioso e era carinhosamente apelidado por ela de “cudegrilo”. Era uma grande figura, quase folclórica, saída de um livro de Monteiro Lobado.
Outra casa abaixo morava, a não menos folclórica Dona Darcy; ela era a benzedeira da rua. Negra com a cabeça sempre envolta num lenço, ela era casada com o “Seu” Zé lemão (abreviação de Zé alemão, que de alemão só tinha o nome). Ele era a diversão dos meninos da rua, que entravam em êxtase quando, ao chamarem por seu apelido, o escutavam soltando um sonoro “fio duma égua ou fio duma puta”.
A casinha velha e pequena de madeira continua lá. Os dois, não mais.
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Quando estava na terceira série eu ganhei um concurso de redação. Era para falar sobre a árvore mais bonita da cidade na aula da “Tia” Cleusa e eu escolhi a árvore da estação de trem. Ela era frondosa e imponente. Lembro de admirá-la todas as vezes em que meu pai levava eu e minha irmã para ver o trem passar (e nessa hora tínhamos que nos agarrar muito forte num poste perto da passarela porque ele nos dizia que o trem poderia nos puxar com a sua velocidade. Era perigosamente divertido)
A cidade ainda continua lá a árvore da estação talvez não mais; mas minhas lembranças de infância ainda continuam plantadas em cada canto.
Cada vez que eu volto é como se entrasse num filme projetado pela minha mente. Quando eu parto, tenho a impressão que a câmera vai subir num plano plongeé e eu verei a cidade inteira por cima e mais uma vez guardarei todas essas lembranças, assim mesmo, na visão inocente e pueril de uma criança, já esperando o próximo momento em que as cortinas se abrirão e eu as assistirei aqui mesmo, no escurinho de dentro da minha cabeça.




sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Se tiver que ser criança de novo eu não volto!

Tenho um amigo espírita que adora me contar como são as coisas depois que as pessoas desencarnam.Ele me garante que é como aquele filme ` Nosso Lar ´.Quando ele chega nessa parte começo a suar frio,porque achei o filme um porre e toda aquela vida após a morte mais tediosa do que a minha vida atual.
Mas a conversa emperra mesmo quando chegamos na parte do ` Pavilhão da reencarnação ´,lugar onde os espíritos vão para voltar a Terra.
Sei e nem preciso ir muito longe para dizer isso,que quando eu chegar nesse Pavilhão vai dar merda.Porque voltar aqui,neste planeta,não está nos meus planos,basicamente porque teria que ser criança de novo e não tenho a menor vontade de passar por isso outra vez,sempre disse que experiência ruim vale uma vez para aprender,mais do que isso é burrice e masoquismo.
Minha infância foi longa,arrastada e eterna,como um desses filmes que a gente não tem como sair e tem que ficar assistindo até o final.
Do muito que me contam sobre a magia da infância,não conheci.Crianças correndo soltas na sua inocência,sua ingenuidade e no seu deslumbramento pela vida,essas crianças nunca cruzaram minha vida.
Na vida real eu era massacrada todos os dias por elas,perseguida e humilhada.Eu era alta,usava óculos,era gorda e tinha um defeito terrível,só gostava de livros,nada me interessava além deles.
Para piorar não era boa em nada,nada,nada,era um desastre natural,péssima em matemática,esportes,em qualquer tipo de concurso.
Mas como hoje é o dia das crianças vou contar a melhor parte da minha infância:ela acabou.Mais um dia nessa tortura e eu não teria sobrevivido.
A vida adulta para mim é o paraíso.Se alguém fala mal de mim ou tira sarro,faz isso pelas costas,coisa que agradeço.Se alguém tentar me humilhar,eu devolvo na hora,sem medo de ir para a sala da diretora.
Hoje brinco o que não brinquei,como a sobremesa antes do almoço,mando a merda quem não mandei e sou livre,exatamente como dizem que as crianças são.
E não acredito mais em historinhas com final feliz,hoje sei o peso da crueldade infantil,sei que as crianças trazem seu ódio líquido e os adultos fingem não perceber.Alguém vai correr e dizer- Mas isso não é ódio líquido,crianças são inocentes e dizem o que pensam!
Ora e desde quando dizer o que se pensa é apropriado se envolve a opinião sobre outra pessoa?
Muito se pode falar sobre a inocência ou crueldade das crianças,mas eu senti na pele a maldade,ao contrário de muitos que ficaram com trauma de adultos,eu tenho trauma de crianças.
Anos atrás aconteceu uma coisa estranha.Eu procurava um livro sobre teatro infantil e achei em um sebo um livro de contos ingleses,escrito no começo do século XX.
Não consigo lembrar o nome do livro e fiz uma coisa que não se faz nem por decreto,emprestei ele e nunca mais o vi.
Mas as histórias ficaram tatuadas na minha mente,nunca esqueci.Eram contos sobre crianças, nunca li nada parecido aquilo.
Em um dos contos um menino acha duendes no seu jardim,resolve atrair eles a casa de bonecas de sua irmã e acaba aprisionando os duendes e se diverte por meses torturando eles,deixando eles passarem fome,sede e medo.
Outro conto que nunca esqueci foi da menina que acha fadinhas no seu jardim e faz amizade com elas.Um dia pede as fadas que coloquem flores no seu cabelo e as fadas se recusam a fazer isso.A menina não pensa duas vezes,corre a sua casa e volta com uma tesoura e corta as asas de todas as fadinhas.
Foi a primeira vez que li uma coisa assim sobre crianças,um texto relacionando infância e crueldade.Cresci lendo livros fofos,meigos,cheios de crianças sapecas e curiosas,nunca tinha lido nada igual.
Lamentei profundamente que esse livro não tivesse caído nas minhas mãos quando eu era garotinha.Eu lia tanto e com tanto desespero que teria sido um alívio perceber que não era a única que tinha conhecido a crueldade infantil.
Mesmo assim comemoro o dia das crianças,ah,eu sou uma sobrevivente,como não vou comemorar?
E curiosamente crianças me adoram,mas isso acontece porque elas são espertas e sabem quem são as pessoas só de olhar.Elas olham para mim e podem ver no fundo da minha alma,sabem que eu sei o que elas estão passando e não sou outra adulta a dizer que tudo na infância é mágico, em silêncio elas percebem que eu conheço o inferno que algumas passam.E sobreviventes são assim,se reconhecem no olhar.
 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

"Museu de Artes" XD

É só depois de adulto que percebemos como foi gratificante ser criança. Na adolescência, na maioria das vezes, desejamos que a infância nem tivesse existido. Pobre de nós. Mal sabíamos a dádiva que vivemos e daí, depois de “velhos”, iniciamos a fase da valorização, aquele momento em que as memórias que nos restou se transforma em valiosas peças de museu. É cobiçada como se ainda fosse ter serventia. Uma brincadeira, um vizinho, um melhor amigo da escola, as peripécias, os brinquedos, os vídeo games... Vídeo o que? Ainda há memórias de infância tão valiosas que nenhum tipo de tecnologia havia na época para fazer parte da história, mas são assim, tão valiosas como a minha, a sua, e de seus pais e avós.

É assim, às vésperas do dia e feriado de Nossa Senhora, o dia santo mesmo é o das crianças. Essa sim é a principal atração do mês. Seja ela comercial ou não, esse é o momento em que observamos esses pequenos e nos espelhamos neles para visitar nosso próprio museu de memórias.

Portanto, deixo a todos que visitaram o blog, um feliz dia das crianças. Relembre seus momentos e deixem-se viajar no tempo, assim como fazíamos quando criança, traga pelo menos por este mês o desejo de se jogar no chão e brincar. Aliás, faça como eu, brinque durante a vida, brincar, mesmo depois de grande, também é viver.

Encontre mais no livro Rascunhos Vivos

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Painho, como era ser criança no seu tempo?

Bruninho. 6 anos. Sentado no sofá da sala. Jogando no seu celular megamaxihiper moderno touchscreen, lógico! Paulo. 32 anos. Sentado à mesa. Lendo os relatórios da firma no tablet. Renata. 28 anos. Conversando com a irmã – em outro canto da sala – no computador, via skype. Flavinha. 15 anos. Andando pela casa. Ouvindo música no ipod que ganhou sexta-feira passada de aniversário. De repente, Bruninho chama o pai para brincar. Paulo diz que não pode. Está terminando o relatório. Bruninho, então pergunta: “Painho, como era ser criança no seu tempo?”. O pai para tudo. Pensa. Sorri e visita o baú de memórias que habita em seu cérebro. Depois discorre: “Era tudo muito mais bonito, mais colorido, mais engraçado. Nós passávamos horas empinando pipas, jogando peão, brincando de esconde-esconde ou pega-pega. Sem falar que nós fazíamos muito dos nossos brinquedos: pipa com papel de seda... ah, e também ficávamos horas e horas vendo o céu todo estrelado, à noite, e contando histórias de terror. Depois ficávamos com medo de dormir, mas todos os meninos mentiam. Para não “ficar feio” na frente das meninas” (risos)! (...) Pausa. Silêncio. Suspiro. Lágrima. Retorno rápido. Hoje é tudo muito diferente. Vocês só querem saber de internet, de computador, de Playstation, de tecnologia...” Bruninho, acompanha tudo aquilo. Levanta. Vai até o pai. Passa a mão na cabeça do pai e sai com uma destas (ainda acho que Bruninho é o adulto da casa (risos)): “Entendo, painho. Eu também acredito que naquele tempo os pais eram diferentes. Eles tinham mais tempo com o filho e menos tecnologia”.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Algo não funciona bem.

Eu tinha uns 3, meu primo uns 13. Ele chegou na casa da vó pulando com um pogobol. 

Eu fiquei encantada, pedi para tentar e ele deixou, eu mal conseguia subir no brinquedo, quanto mais pular como ele fazia.

Um dia desses no mercado, vi um  pogobol solto da caixa no chão, senti o mesmo encanto.
Mal consegui  subir no brinquedo.

sábado, 6 de outubro de 2012

Memorabília.

boloEu entre minha mãe e meu pai, no meu aniversário de dois anos.

Tenho 18 anos, completados em Março último. A maioria das coisas está fresca em minha memória, mas há algo de neblina nela quando olho para minha infância.

Tenho cicatrizez dela. Na minha barriga, quando uma queda de bicicleta me custou um corte feio nos arredores de casa. Costumava ter outra no tornozelo, conseguida num tombo na casa do meu tio, que conseguiu a proeza de sair dessa minúscula casca de ovo chamada Itatiba para morar em uma ainda menor, chamada Descalvado. Constatei agora mesmo que ela desapareceu.

Da infância, me lembro da eletricidade. Da disposição para tudo. Das brincadeiras que faziam do quarteirão uma cidade a ser protegida pela polícia, montada bravamente em seu patinete. Sim, eu tive um patinete (está permitido rir nesse momento).

Lembro de ouvir MPB com meus pais, de Chico Buarque à Elis Regina, passando por Ney Matrogrosso (favorito da minha mãe, e trilha sonora das tardes de semana com “Bandoleiro”) e Lulu Santos (favorito, por sua vez, do meu pai, que me embalou desde os primeiros anos com “Sereia”).

Lembro-me também de sentir medo, a cada vez que minha mãe me deixava passar do horário e eu via meus primos assistindo algum filme de terror, juntos no quarto. Medo da sessão de horror da locadora, dos posters de Chucky, o boneco assassino, pendurados na parede do lugar. Lembro de minha mãe fazendo aniversário em uma sexta-feira 13 (de Agosto), e insistindo que eu assistisse “A Hora do Pesadelo” ou uma de suas infindáveis continuações com ela. Eu não conseguia. Via flashes, e ficava aterrorizado.

Até hoje, quando tenho pesadelos, Freddy está lá. Até hoje, quando quero, meu quarteirão vira o que quer que eu queira que ele vire. Mas, ao invés de montar meu patinete, empunho minha caneta. Certas coisas nunca mudam.

E talvez minhas tardes não sejam mais regadas a MPB, mas ela ainda me leva a um tempo que tenho o mais absoluto medo de esquecer.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Unidos por um Bubbaloo

Ele guardava a goma de mascar embaixo da carteira para durar mais. Ela deixou um bilhete colado na goma: sou doce e não perco o sabor. Casaram-se de mentirinha na hora do recreio. Dividiam o waffer de abacaxi e o suco de melancia. O primeiro beijo foi na sala da Diretoria, quando ficaram de castigo por riscarem eu te amo no quadro-negro (uma das primeiras aulas de amor). Casaram-se de verdade e vivem grudados feito chiclete. 

- Cleyton Cabral -

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Balde de Conchinhas

Esses dias eu fiz uma viagem nos moldes dos anos oitenta: praia, carro, família e badulaques.  Uma viagem como nos tempos que não existia a possibilidade de parcelar em dez vezes no cartão.  Viajávamos para a praia mais próxima e só. De preferência para alguma casa emprestada e levando uma caixa de mantimentos no bagageiro, junto com um isopor, guarda-sol  e cadeiras de praia. E se você está pensando em como cabia tudo isso em um carro, é porque seu pai não tinha uma Caravan.  Caso contrário você saberia que dava espaço até pra um dos filhos ir deitado junto das bagagens. E tinha briga pra ver quem viajaria lá!

Tirando o porta-malas colossal e a imprudência, tudo igual, até os desentendimentos.  Pra começar meu cunhado se perdeu no caminho. Lembra do tempo que não existia GPS e seu pai se recusava a pedir informação no posto?  Pois é. Duas horas a mais de estrada por conta da teimosia. No outro dia começou aquele lenga-lenga de família. Um quer ir pra um lugar, outro pra outro.  Meu cunhado, sempre ele, ficou infernizando para ir para a praia que ele ia quando era criança. Falou, falou, falou, falou tanto que fomos, caramba, ninguém mais aguentava ele choramingando na cabeça.  Chegamos lá e ele ficou visivelmente emocionado.  E bêbado. Não parava de falar de quando ele viaja com os pais e o irmão, e a casa que ficaram, e aquela vez do Banana Boat. Por sorte não tem mais esse brinquedo por lá. Viva o progresso
.
Eu estava começando a achar que minha irmã tinha se casado com uma pessoa intelectualmente prejudicada quando chegou a vez passar o dia na minha praia de infância. Ah, como é bom, meu cunhado estava certo. Voltar há um lugar que você foi feliz na infância é mesmo de se encher os olhos.  E estava tudo igual. As barraquinhas, o queijo coalho, as conchinhas. Não conheci nenhuma outra praia que tivesse tantas conchinhas coloridas como aquela. Eu recolhia as mais bonitas e levava embora. E tinhas as bolachas-do-mar também, com aqueles "pezinhos". Eu levava também e deixava em um pote com água para que não morressem. Claro que não dava certo. Começava a cheirar mal e comprava uma briga com a minha mãe, que queria jogar fora e eu não aceitava.

Fiquei sentada na areia pensando em todas as coisas que eu gostava de fazer quando eu era criança e percebi que a eu continuo gostando das mesmas coisas. Menos nomes, graças a Deus, senão meus filhos se chamariam Sandro e Jéssica, que eram os nomes das minhas bonecas. Sorvete? Até provo outros, mas gosto mesmo é do sabor doce de leite, o mais próximo possível do sorvete do Seu Zé.  E tem ainda andar descalça, filhote de cachorro, pastel de salsicha, chupar laranja, piscina, andar de bicicleta. Posso até mudar, esquecer, mas quando volto a fazer alguma coisa que eu gostava de fazer quando criança, parece que o prazer é dobrado, como se eu recuperasse um pedaço de mim que alguém levou embora.  Foi aí que resolvi começar a colecionar conchas.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O meu auge futebolístico (10-13 anos)

Como muitos de vocês já devem saber, este é o mês das crianças no Blog das 30 pessoas. Cada membro ficou com a responsabilidade de contar uma história dessa época preciosa e irresponsável de nossas vidas.

Quando olho pra minha infância, vejo sobretudo duas coisas: futebol e videogame. Gostaria de escrever sobre as duas coisas, mas para que o texto não fique enorme, vamos de futebol mesmo.

Estudei no Espaço Educação do Jardim 3 à quarta-série. Tive que mudar de colégio porque o Espaço não trabalha com quinta, sexta e as demais séries subsequentes. Isso seria ensino fundamental? Já nem sei mais. Todo dia eles mudam essas nomenclaturas. O campo de futebol era minúsculo e inclinado (quase uma ladeira) e quem acertasse a bola dentro da coordenação, mesmo em caso de gol, era expulso de campo. Quem jogasse a bola pra fora do colégio (o muro devia ter uns 3 metros) também era expulso de campo e só poderia jogar no dia seguinte. Jogávamos então um futebol extremamente meticuloso e acho que foi exatamente isso que fez com que eu desenvolvesse uma habilidade suficiente para chegar no GIMK, onde não conhecia ninguém, e ingressar no time titular da turma 58. As outras turmas eram a 50, 52, 54 e 56. O campeão e o vice da quinta série faziam um quadrangular final com o campeão e o vice da sexta série para definir o melhor das duas séries. O Thiago, que jogava bola comigo no Espaço, foi para o GIMK e também foi escalado para o time titular. Além dos times principais de cada turma, tinha também o time B e em alguns casos até time C. Fizemos um bom campeonato, mas acabamos em segundo lugar. No quadrangular final nós jogamos contra o primeiro da sexta série e tomamos uma goleada de 8 a 2. Parecia os Smurfs jogando contra Gargamel e seus amigos. Eles ganhavam todas as divididas e os chutes dos seus jogadores eram pelo menos dez vezes mais potentes que os nossos. Foram campeões do quadrangular sem fazer muito esforço.

Os jogos eram sempre no recreio e era interessante ver a rivalidade das turmas que ficavam em volta do campo na torcida desviando dos chutes ou tomando bolada. Você ia cobrar o lateral e tinha alguém te empurrando, falando alguma coisa no seu ouvido pra te desestabilizar e até tirar a bola do seu pé discretamente sem o árbitro ver. Aconteceu isso comigo uma vez. As turmas eram mesmo apaixoanadas pelos seus time principais. Os times B e C não recebiam muito crédito, até porque, não duravam muito tempo no campeonato. Muita gente preferia ficar no outro pátio para colocar o papo em dia ou jogar um basquete do que assistir às atuações medonhas dos times B e C. Era comum o nosso time voltar do recreio e ser aplaudido pelo resto da turma depois de uma vitória, o que era absolutamente sensacional.

Eu não queria apenas ser o campeão da sexta série. Queria ganhar o quadrangular final. Esse era o meu grande sonho no colégio. Os campeonatos da sétima e da oitava não tinham o mesmo glamour ou importância. Os jogos não eram na hora do recreio, eram disputados sem torcida fora do horário normal do colégio. Por conta disso, muitos jogadores importantes, que estavam fazendo aula de inglês ou coisa parecida, sequer disputavam os campeonatos dessas séries.

O time era praticamente o mesmo que foi vice no ano anterior. Estava no meu auge como futebolista. De lá pra cá, parece que todo mundo evoluiu e eu parei no tempo. Não tinha muita técnica com a bola nos pés, mas tinha uma incapacidade incomum para fazer gols. Não é uma questão de ser ou não ser modesto. Era uma questão de números. Eu era o artilheiro disparado e ponto. Era um atrás do outro, de todos os jeitos possíveis. Lembro muito bem de um jogo em que vencemos de 10 a 7 e eu marquei 8 gols. Tudo bem que havia outros jogadores mais técnicos que eu, mas até hoje não entendi porque só fui convocado uma vez para jogar pelo time do colégio. Falando nisso, jogamos a final contra um time que tinha 3 jogadores que eram do time do colégio. Eles eram os favoritos. No primeiro minuto de jogo marcaram logo um golaço. Mas fomos lá e vencemos. Eles jogaram melhor, mas a gente soube aproveitar as poucas chances e ganhamos por um placar apertado. Se não me engano foi 3 a 2.

Pegaríamos então o vice campeão da quinta série pra depois provavelmente fazer a final do quadrangular com o time que a gente havia acabado de vencer na final da sexta série. Acontece que no dia anterior ao jogo, eu tive uma crise de asma, algo muito comum na minha infância e adolescência. Não disse nada ao time. Fiquei em casa tomando remédios e fazendo nebulização com a esperança de que me recuperaria a tempo. Poucos minutos antes do início da partida, um dos jogadores me liga de um orelhão do colégio. "Cadê você, cara???". Disse que estava com muita asma. Ele disse pra eu jogar mesmo asmático, que a gente iria perder se eu não fosse. "Vocês vão enfrentar o segundo colocado da quinta série. Não tem erro. Vençam esse jogo que eu estarei curado para a grande final".

Naquela época não tinha celular, não tinha internet, não tinha nada. Queria saber como foi o jogo. Não aguentaria esperar até um deles chegar em casa. Liguei para o colégio. Um dos jogadores foi localizado.

- Porra, seu animal. Vai tomá no cu! Perdemos de 4 a 1. Nem volta mais ao colégio.

Estava tão triste que nem consegui dizer muita coisa. Desliguei o telefone e a asma piorou. Foi um dos piores dias da minha infância.


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

através da janela

alguém do blog sugeriu e o pessoal acatou. o tema deste mês no blog é infância. e essa foto ali da esquerda, do menino loiro, de uniforme azul, é minha. na verdade sou eu o menino. não preciso falar da foto, nem quero. na verdade o plano era outro, mas quando olho pra ela, lembro imediatamente de quando estudava no trem azul e meu pai foi chamado para conversar com a direção porque eu não prestava atenção nas aulas. me levaram ao médico, que me chamou de lunático. meus pais nem sabiam o que era lunático, mas isso ficou na minha cabeça como uma coisa ruim. depois entendi que ser lunático era ir pra aula e ficar no canto da parede (sempre sentei no canto da parede) olhando pela janela. isso se repetiu por toda minha infância. eu não estava ali, mas estava. meus colegas se matavam de estudar enquanto eu desenhava ou escrevi poemas. e eu tirava as melhores notas (menos em física e matemática, claro). de dentro, eu via o mundo, mas o mundo não me via. hoje, depois de tanto tempo, percebo que muita coisa mudou, mas continuo sendo a mesma criança lunática da foto. ainda consigo passar uma aula inteira dentro de uma sala com o pensamento longe e, mesmo assim, compreender tudo o que se passou. as idiotices proferidas por alguns mestres. as imbecilidades de alguns comentários que nada acrescentam. as inutilidades de experiências pessoais que nada tem a ver comigo. mas eu gosto. gosto de olhar pra foto e perceber que desde então, nunca deixei uma sala de aula. que conheci muita gente bacana neste caminho. que passei de aluno a professor e de professor a aluno várias vezes. que eu vou ser sempre o lunático que vê o mundo e acredita até hoje que o mundo não me vê.